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A festa de despedida: a eutanásia e o envelhecimento

Por Mary Kirschbaum

Nem só de guerra vive Israel. Também envelhecemos e morremos de doenças como todo mundo.

Em 2014 foi exibido no festival de Veneza, o drama israelense Mitá Tová com assuntos difíceis como eutanásia, Mal de Alzheimer e envelhecimento. Mas ao invés de apelar para um tom choroso, o longa-metragem, observando o cotidiano cinzento de um grupo de amigos, moradores de uma casa de repouso para idosos, mostra um final de vida mais bem humorado e ousado para estes temas tão sensíveis e velados.

A história se passa num asilo em Jerusalém. Um dos moradores está em estado terminal. Para garantir a ele uma morte rápida e indolor, seus colegas resolvem criar uma máquina de “auto- eutanásia”, onde ao clicar o botão, o paciente injeta no próprio organismo doses de um medicamento fatal. Quando os rumores sobre a invenção se espalham, mais e mais pessoas começam a se interessar pela ideia de adotar o método ilegal. Entre elas, a mulher do próprio autor da ideia, inconformada com os efeitos da fase final do Alzheimer.

Mas apesar do “humor negro” do filme, na vida real, a coisa pode ser bem diferente e mais difícil de ser enfrentada com humor. Mesmo assim é um dos maiores temas da psicologia, as análises sobre finitude e o desejo.

Sob uma ótica psicanalítica, o filme pode ser explorado através dos conceitos de Pulsão de morte (Thanatos) e Pulsão de vida (Eros). O filme ilustra o conflito entre o desejo de manter a dignidade no fim da vida e o instinto de preservação. A criação da “máquina de auto-eutanásia” representa uma tentativa simbólica de dominar a morte, transformando o passivo (sofrer a morte) em ativo (escolher o momento).

Autonomia e narcisismo: A busca pelo controle sobre o próprio corpo no estágio terminal reflete a necessidade de manter a integridade narcísica diante da degradação física e cognitiva (como o Alzheimer retratado no filme).

Luto antecipatório e elaboração: o grupo de amigos vivencia o luto antes mesmo da perda real. A “festa” e o ato de ajudar o próximo a partir funcionam como mecanismos de defesa e elaboração da própria mortalidade.

O “humor” como mecanismo de defesa: Freud descrevia o humor como um dos mais elevados mecanismos de defesa do ego, permitindo lidar com traumas e o horror da morte sem ser sucumbido por eles.

Enfim, desculpa pelo Spoiler!

Para as pessoas que não tiveram a oportunidade de assistir a esta obra de arte, super recomendo! Uma obra prima, assim como muitos filmes, peças de teatro, stand up comedies, programas de comédias de televisão. O israelense apesar de sua fama de “grosso” é super bem humorado. O humor israelense é extremamente refinado e inteligente.

Israel possui uma cena cultural vibrante que mistura tradições milenares com inovação contemporânea. Cultura rica em música, cinema, televisão, arte de rua, arquitetura, dança contemporânea, artes visuais, museus, etc.

Sim, nem só de guerra, vive a nossa querida Israel!

Foto: Captura de vídeo (Mitá Tová, 2014)

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