Antissemitismo no Judô
Por Maximiliano Ponte, médico-psiquiatra
Judaísmo e judô. Posso, sem exagero, afirmar que é em suas bases que hoje se assenta o meu caminhar no mundo. O judô que conheci e pratico é um judô aberto à diversidade de corpos, mentes, gêneros e credos. Já treinei – e tenho profunda estima – com senseis que são pastores e com outros que são pais de santo. Já vi atletas competindo com os nomes sociais do gênero que adotaram. O judô não é espaço para tolher ninguém pelo que se é, por quem se ama ou pelo que se crê. Portanto, causa-me profundo asco as notícias que nos chegam da Polônia (de novo da Polônia!).
Dia 10 de janeiro de 2026, ocorreu, na cidade de Bielsko-Biała, no sul da Polônia, o 14º Torneio Internacional de Judô “Superando Fronteiras”, uma competição internacional de judô infantil e juvenil. A delegação israelense, composta por 90 crianças e adolescentes, com idades entre 7 e 16 anos, participou do evento acompanhada por seus treinadores.
Segundo informações da imprensa israelense, ao longo da competição atletas e técnicos teriam sido alvo de ofensas vindas da plateia, com palavras de ordem políticas e xingamentos dirigidos explicitamente à sua condição de israelenses e de judeus. Diante desse quadro, os treinadores teriam procurado a arbitragem para pedir providências e, nesse contexto, teriam ocorrido agressões físicas por parte de membros da plateia, tudo à vista das crianças. Ao final, a decisão dos organizadores teria sido retirar da competição a própria delegação israelense.
A ocorrência dos fatos, tal como descrita pela imprensa israelense, configuraria, além de explícito antissemitismo, uma prática antidesportiva e uma afronta direta a princípios basilares do judô. O judô, desde Jigoro Kano, nunca foi apenas um esporte de combate. É uma prática moral e educativa, fundada no respeito (rei), no crescimento mútuo (jita kyōei) e no uso responsável da energia (seiryoku zen’yō). À luz desses princípios, o que foi relatado sobre o ocorrido na Polônia representa uma violação grave do próprio sentido do judô. Gritos hostis, intimidação, agressões físicas e a retirada da delegação atacada negam o respeito, rompem o crescimento compartilhado e substituem o autocontrole pela violência. Em um torneio infantil e juvenil, isso é ainda mais grave: ensina-se o medo, a exclusão e a punição da vítima. Não se trata apenas de desrespeito a regras esportivas, mas de uma afronta direta ao coração do judô.
O judô nasceu para transformar força em ética e confronto em convivência. Quando o tatame se torna palco de ódio, quando crianças aprendem intimidação e medo em vez de respeito, e quando a vítima é afastada para preservar o silêncio que encobre a violência, já não estamos diante de um desvio pontual, mas de uma traição ao próprio sentido do judô. O antissemitismo que ali teria se manifestado não fere apenas judeus ou israelenses: fere o judô, fere sua vocação universal e fere a promessa, sempre frágil, de que o esporte ainda pode ser um espaço de humanidade. Onde o ódio encontra abrigo, o judô deixa de existir e fronteiras tornam-se muros.
Foto: Wikimedia Commons
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