Distinções conceituais entre antissemitismo e antissionismo
Por Renato Athias. Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris X (Nanterre), Diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Etnicidade (NEPE), Professor no Programa de Pós-graduação em Antropologia, Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco(UFPE).
A matéria publicada no site da BBC intitulada: “Qual é a diferença entre antissemitismo e antissionismo”, (https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvg76r7ej17o) que aparentava ser apenas uma informativa, no entanto, logo nas primeiras linhas do texto, chamou minha atenção o tom tendencioso de certas formulações, como: “O FBI, a polícia federal americana, está investigando se o ataque de quarta-feira (21/5) que matou dois funcionários da embaixada israelense em Washington seria um crime de ódio ou se está ligado a algum tipo de terrorismo”. Outra frase que me parece enviesada é: “O sionismo começou como um movimento político na Europa no final do século 19. Ele buscava desenvolver a nacionalidade judaica na terra conhecida como Palestina – também conhecida pelos judeus como a antiga Terra de Israel”. Percebo nessas passagens uma tentativa de conduzir o leitor a adotar determinadas posições, em vez de apresentar os fatos de forma objetiva.
A disputa sobre as intenções das críticas a Israel divide especialistas e entidades internacionais: enquanto a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto afirma que negar o direito de autodeterminação judaica configura antissemitismo, opositores acusam o governo israelense de confundir deliberadamente antissionismo com preconceito para silenciar críticas legítimas, tornando o termo “sionista” centro de uma polêmica semântica e política. O termo “sionista” tornou-se um terreno semântico controverso. Embora seja empregado legitimamente para designar quem apoia a existência do Estado de Israel, sua utilização é frequentemente ambígua e pode servir tanto para identificar posicionamentos políticos quanto para mascarar hostilidades de cunho antissemita.
O presente texto procura examinar as complexas distinções entre antissemitismo e antissionismo, um debate que adquiriu renovada urgência analítica no cenário geopolítico subsequente aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e à deflagração do conflito em Gaza. O texto propõe uma demarcação epistemológica clara: define-se o antissemitismo como um fenômeno histórico de preconceito, hostilidade e perseguição contra o povo judeu, perpetuado ao longo de séculos. Em contrapartida, o antissionismo é categorizado fundamentalmente como uma posição política de oposição à existência do Estado de Israel.
Percebe-se, na realidade, que se aprofundam as tensões hermenêuticas presentes na aplicação prática desses conceitos, evidenciando “zonas cinzentas” onde as definições de antissemitismo e antissionismo frequentemente se confundem e entram em conflito. Nesse contexto, destaca-se uma disputa narrativa não apenas sobre a intencionalidade da crítica a Israel, mas também sobre a instrumentalização do discurso por diferentes atores políticos. Sob uma perspectiva institucional, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto sustenta que determinadas retóricas dirigidas contra Israel ultrapassam o âmbito da crítica política legítima, sendo instrumentalizadas para negar o direito de autodeterminação judaica e, assim, configurando manifestações de antissemitismo.
Dialeticamente, opositores dessa perspectiva sustentam que há uma confluência deliberada entre os termos por parte do governo israelense e seus apoiadores. Segundo essa corrente interpretativa, a equiparação serve como ferramenta política para deslegitimar críticas a ações estatais específicas – como a ocupação da Samaria e Judeia ou a expansão de assentamentos – e silenciar a dissidência sob a acusação de racismo.
O artigo evidencia a ambiguidade semântica presente no termo “sionista”, que, apesar de designar legitimamente o apoio ao estado judeu, é frequentemente apropriado como eufemismo para expressar hostilidade antissemita velada. Essa polissemia contribui para zonas de indefinição discursiva, dificultando a separação clara entre crítica política e preconceito étnico-religioso.
Além disso, o texto do artigo, nas entrelinhas, tenta descontruir a ideia de blocos identitários homogêneos o que é positivo, reforçando que a identidade judaica não pressupõe alinhamento automático com o sionismo, havendo minorias judaicas que se opõem ao movimento por convicções religiosas ou políticas. Da mesma forma, o sionismo ultrapassa fronteiras étnicas, agregando apoiadores de diferentes origens. O próprio movimento sionista é apresentado como plural, abarcando desde vertentes que defendem unicamente a existência do Estado de Israel até aquelas voltadas à expansão territorial.
Em síntese, é notório que a linha divisória entre a crítica política ao Estado de Israel (antissionismo) e as manifestações de ódio étnico-religioso contra o povo judeu (antissemitismo) é, em muitos casos, difusa e subjetiva. Essa fronteira se torna ainda mais difícil de ser demarcada em contextos de polarização política e conflitos geopolíticos, nos quais o debate público é permeado por forte carga emocional e complexidade histórica.
O grande desafio analítico está em identificar com precisão o momento em que uma crítica contundente às políticas do governo israelense, como a ocupação de territórios, a ampliação de assentamentos ou as ações militares em Gaza, ultrapassa os limites da posição política legítima e passa a negar o direito de existência de Israel como Estado, ou mesmo a atacar diretamente a identidade judaica. Esse processo pode ser sutil, manifestando-se em discursos que, sob a aparência de antissionismo, reproduzem preconceitos históricos, estereótipos ou acusações generalizadas contra os judeus, colaborando para perpetuar o antissemitismo.
Diante disso, é fundamental abordar tal debate com uma perspectiva crítica e cuidadosa, capaz de diferenciar a dissidência política legítima – inclusive a oposição a determinadas ações de Israel – das manifestações de ódio que instrumentalizam o conflito para propagar hostilidade contra uma comunidade religiosa ou étnica. Também é importante reconhecer a pluralidade interna tanto do judaísmo quanto do sionismo, evitando interpretações simplistas que associem automaticamente a identidade judaica ao apoio incondicional ao Estado de Israel, ou que classifiquem qualquer crítica como antissemitismo.
Assim, cabe a analistas, veículos de comunicação e agentes políticos o papel de estabelecer critérios claros e rigorosos para distinguir entre crítica política e discriminação, promovendo um diálogo público mais justo, informado e respeitoso diante da diversidade de opiniões e identidades presentes nesse cenário internacional tão complexo.
A Instrumentalização destes termos mostra que existe uma “batalha” sobre a intenção por trás das críticas ao governo de Israel. O argumento da proteção: a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto defende que certas críticas a Israel ultrapassam a política e constituem antissemitismo moderno, ou seja, negar ao povo judeu o direito à sua autodeterminação seria uma forma de ódio. O argumento do silenciamento, em contrapartida, afirma que o governo de Israel e seus apoiadores confundem deliberadamente antissionismo com antissemitismo para blindar o Estado de críticas às suas políticas (como a ocupação da Samaria e Judeia) e silenciar opositores. A ambiguidade da linguagem do termo “sionista” então tornou-se um campo minado semântico.
Em última análise, o exame do artigo jornalístico da BBC e das dinâmicas discursivas contemporâneas revelam que a fronteira entre antissemitismo e antissionismo, embora teoricamente delimitável, é porosa na práxis política. A dificuldade hermenêutica não reside apenas na semântica, mas na intencionalidade, tornando árduo o discernimento quando a crítica agressiva a Israel é motivada por uma oposição política legítima ou por um antissemitismo latente.
Conclui-se, portanto, que o debate é travado em um campo de disputa retórica onde definições são instrumentalizadas. De um lado, instituições como a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto buscam expandir o conceito de antissemitismo para proteger a autodeterminação judaica; do outro, críticos denunciam essa expansão como uma tática deliberada para blindar o Estado de Israel e silenciar dissidências sob a pecha de racismo. Assim, a integridade do debate público depende fundamentalmente da capacidade de sustentar essa tensão dialética, rejeitando tanto a normalização do ódio quanto a interdição da crítica política.
Foto: Marco Verch (ccnull.de), CC-BY 2.0
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