Rompendo Muralhas – Bom ou Ruim?

Por Marcos L Susskind

Romper Muralhas é um termo com múltiplos significados. No lado positivo significa ir para um nível mais elevado – alcançar um novo patamar de conhecimento, de autodomínio ou mesmo um significativo salto na carreira, romper limites que o impedem de alcançar objetivos. O mesmo termo também pode ter terríveis significados negativos. Pode significar uma fratura social, o abandono de uma luta e num tsunami significa a entrada de enxurrada destrutiva.

Para o Povo Judeu, o Rompimento das Muralhas tem um único e terrível significado, nada metafórico. Se refere ao dia em que os exércitos Romanos, após um cerco de 30 meses, conseguiram abrir um rombo nas muralhas que circundavam Jerusalém e – consequentemente – adentrar a cidade sagrada. O ano era 70 EC e pelo calendário Hebraico era o dia 17 de Tamuz que marca um evento calamitoso na história Judaica e, a partir de então, várias tragédias do Povo Judeu.

Antes de descrever a entrada dos Romanos em Jerusalém e suas consequências que perduram até hoje, assinalo que nesta mesma data Moisés quebrou as tábuas da lei que recebera no Monte Sinai, um general romano chamado Apóstomos queimou um pergaminho da Torá e os Romanos introduziram a estátua de um ídolo no Templo. Também neste dia, em 1239, o Papa Gregório IX mandou confiscar todas as cópias conhecidas do Talmud e em 1970 a Líbia confiscou todas as propriedades e os bens de Judeus.

O rompimento das Muralhas de Jerusalém foi o início da matança de Judeus e da destruição da cidade. Durante três semanas queimaram as casas e negócios dos Judeus, aprisionaram homens, mulheres e crianças e, ao fim de 21 dias, destruíram o II Templo, sem deixar pedra sobre pedra. A única parede que seguiu de pé foi o muro de arrimo do lado ocidental da montanha, conhecido como Muro Ocidental ou Muro das Lamentações, o Kotel HaMaaravi. O dia 17 de Tamuz assumiu então a marca do início de um período de tristeza que dura 21 dias, até o dia 9 de Av (Tishá BeAv), o dia da destruição de ambos os Templos, o primeiro em 586 AEC por Nabucodonosor da Babilônia e, 656 anos mais tarde, por Tito de Roma.

Os costumes Judaicos durante esse período de três semanas são marcantes. Não são permitidos casamentos e festas, algumas pessoas se abstêm de ouvir música, cortar barba ou cabelo e adquirir roupas novas. Também não se iniciam novas construções nem se firmam novas sociedades.

As consequências do Rompimento das Muralhas vão muito além da destruição do Templo, 21 dias mais tarde. Os Romanos levaram os Judeus como cativos para Roma, onde entre outras coisas, foram forçados a construir o Coliseu Romano. Como os Judeus mantivessem-se leais a suas tradições e aspirando a volta a Sion, os Romanos decidiram espalhá-los por todos seus imensos domínios, na expectativa que se assimilassem à cultura de cada região. Assim deixariam de existir como povo com cultura e fé comum. Afinal, este foi o script adotado com todos os demais povos que eles tornaram cativos. No entanto, mesmo dispersos, os Judeus mantiveram sua identidade religiosa e nacional. Esta determinação de seguir ao D’us único e sonhar com a volta à Terra Prometida fez com que as autoridades estimulassem ódios e perseguições aos Judeus. Inicialmente este ódio era social, ou seja, foram socialmente segregados. Este tipo de ódio vai mudar de feição ao longo dos séculos, sempre mantendo os Judeus como foco do ódio. A Igreja Cristã, ao não conseguir converter os Judeus, cria o ódio religioso. Mais tarde aparecerá o ódio racial e, atualmente, o ódio nacional, que nega ao Povo Judeu o direito à sua pátria e sua autodeterminação.

O dia 17 de Tamuz – que ocorre em 09/07/2020 – marca, há exatos 1950 anos, a tentativa de destruição do único povo sobrevivente da antiguidade que se preserva. Não se preservou por sua força, já que não tinha exército. Nem por sua geografia, já que dispersos por todo o mundo. Não se preservou por sua riqueza pois que até menos de 100 anos não lhes era permitido ter terras. A preservação se deve a apenas três características únicas: a fé num Criador, a determinação pela educação e compromisso da ajuda mútua.

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