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Será que é o fim da guerra?

Por David S. Moran

Uma hora e pouco antes do final do ultimato em que o Trump prometeu “acabar com a civilização iraniana”, o presidente americano anunciou um cessar fogo de duas semanas. Após 40 dias de guerra e destruição, este foi o logro da mediação em Islamabad, do Paquistão, Turquia e Egito. Os dois primeiros são inimigos de Israel e é evidente que Israel não esteve presente nas negociações com o Irã pelo cessar fogo.

O cessar fogo veio de surpresa, até mesmo para o primeiro ministro-israelense, Benjamin Netanyahu, que alegou que foi informado, pois fala diariamente com o Trump. Na prática, de um governo do Likud, que deve ser nacionalista, Netanyahu tornou Israel um país vassalo dos Estados Unidos.

Na madrugada em Israel, Trump anunciou que os EUA alcançaram seus objetivos e cessaria o fogo por duas semanas, para continuar o diálogo e conseguir um acordo para parar a guerra. Já de início, os dois lados divergiram. EUA e Israel dizem que o Hezbollah do Líbano não faz parte de acordo e o Irã, com os mediadores o Egito e Paquistão, dizem que sim, o Hezbollah faz parte do acordo.

Quando acordamos, cedo na manhã do último dia de Pesach, fomos surpreendidos com as novidades. O premier israelense não se pronunciou. Deu uma frase em inglês, para o gringo ouvir, e o povo de Israel não teve nenhuma noticia do que aconteceu, nem do Netanyahu, muito menos do ministro da Defesa, Israel Katz. Só no noticiário das 20:00h, projetaram um vídeo de Netanyahu falando que Israel alcançou seus objetivos no Irã, enfraqueceu esta nação e Israel é mais forte do que nunca. Tanto ele como o Trump não falam a verdade.

Não há dúvida de que as Forças de Defesa de Israel (FDI-Tsahal) agiram de forma espetacular a 2.000 km do território israelense, com a ajuda e participação do exército americano. Causaram grandes danos e destruição em lugares de suma importância. A marinha e a aviação iraniana foram aniquiladas, mas o regime iraniano continuou lançando seus mísseis de fragmentação (para causar maiores danos à população israelense), com o auxílio de sua proxie no Líbano, o Hezbollah, e a outra no Iêmen, os Houtis.

EUA e Israel tinham quatro objetivos principais: entrega dos 440 kg de urânio enriquecido e fim do plano nuclear; parar o projeto de mísseis balísticos; parar o financiamento das proxies Hezbollah, Hamas, Houthis e outros; não penalizar os que protestaram e foram presos pelas forças de segurança. Também tinham a ideia de que eclodiriam novos protestos com o enfraquecimento do regime e conseguiriam mudá-lo.

Infelizmente, nenhum dos objetivos foi alcançado. O líder iraniano, Ali Khamenei, foi morto logo no início e seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, está moribundo e quem controla o país, são as Guardas Revolucionárias, ainda mais radicais. O urânio enriquecido ainda está no Irã. Já se fala em dar seguimento ao enforcamento de protestantes iranianos e o povo não saiu às ruas, como se esperava.

O que sim, conseguiram, a abertura da importante via marítima, do Estreito de Ormuz. Só que parece que há consentimento de que o Irã se apoderará desta via e cobrará, junto com Omã (do outro lado do Estreito), dois milhões de dólares por cada navio que ali passar e lá passam cerca de 150 navios por dia. Grande fonte de renda. Antes o trânsito ali era livre.

Toda guerra tem que ter sequência num acordo político. Enquanto as Forças Armadas de Israel foram brilhantes na sua atuação no Irã e retrocederam o poderio econômico e militar persa por anos, não se vê uma boa perspectiva para acordo com o intransigente governo iraniano. Ele não temeu, por sua convicção religiosa, fatalista, nem às bárbaras e até vulgares ameaças do presidente Trump. Um exemplo: “se não chegar a um acordo, vou destruir esta civilização de 3.000 anos”. Mas, em seguida, diz que eles são bons. O presidente americano tem apelido de TACO, isto é, Trump Always Chikens Out, ele ameaça e volta atrás. Trump tem, aparentemente, boas relações com Israel. Escrevo aparentemente pois Trump gosta de uma pessoa, do Trump. Tanto é que, mesmo falando das boas relações com Netanyahu e até se envolvendo, sem nenhuma vergonha em assuntos internos de Israel, se deve ou não conceder anistia ao Netanyahu por três acusações de corrupção, Trump e os EUA ignoraram Israel. A mediação com o Irã foi realizada no Paquistão, país inimigo de Israel, sem a presença de israelenses e os intermediadores foram além do Paquistão, a Turquia e o Egito.

A população israelense demonstrou sua firmeza. Mesmo sofrendo ataque de 1.435 mísseis do Irã e o norte do país debaixo de 4.400 foguetes e drones do Hezbollah, não se alarmou. Fincou o pé, obedeceu às autoridades, entrando nos abrigos e, assim, salvando de perdas maiores. No final, morreram 42 pessoas, entre eles 14 soldados, e foram feridas 7.183 pessoas, a grande maioria por entrar em estado de choque. As maiores perdas foram materiais.

Tanto Netanyahu como os países do Golfo – Bahrein, Emirados Árabe Unidos, Catar e Arábia Saudita – estavam contra o cessar-fogo e queriam a continuação da guerra até conseguir a mudança do governo, que não seria possível apenas por aviões. É a população que deveria sair às ruas e se levantar contra os tiranos que os governam à mão de força e medo já há 47 anos. O Tsahal também preferiria que Israel lutasse por mais duas semanas também no Líbano contra o Hezbollah. Até um deputado do partido de Ben Gvir, que é da coalizão, chamou Trump de “Pato Donald” por entrar no cessar-fogo.

Mesmo Israel lutando contra os fanáticos xiitas e esteja na vanguarda da luta do mundo Ocidental, há crescentes ondas de antissemitismo (injustificadas), mesmo nos Estados Unidos. Netanyahu se alinhou completamente a Trump e assim Israel perde a simpatia dos Democratas. Mesmo entre os Republicanos, há os radicais da direita que se manifestam contra Israel, como Tucker Carlson. Na terça-feira (07/04), o New York Times publicou um artigo sobre como Netanyahu, em 11 de fevereiro, esteve em Washington e, sob alegações falsas, convenceu Trump de que numa guerra poderiam mudar o regime iraniano. Mesmo Marco Rubio, simpatizante de Israel, JD Vance e o chefe da CIA, estavam contra.

Tanto o Trump como o Netanyahu enfrentam neste ano eleições e gostariam de presentear seu público para ganhar votos. Só as próximas semanas dirão se o cessar-fogo vai se transformar no fim da guerra ou não e se este jeton se transformará nas urnas em jeton favorável.

Foto: rawpixel

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da Revista Bras.il.

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