Sexto encontro Trump-Netanyahu em 2025
Por David S. Moran
As boas relações entre os dois dignatários ficou evidente no autoconvite de Netanyahu para visitar o seu amigo, na época de férias, entre o Natal e o Ano Novo. O presidente americano aceitou e o encontro aconteceu na última segunda-feira (29/12), em Mar-a-Lago, residência particular de Trump. Desta vez, Netanyahu não deu carona aos jornalistas que o acompanham no seu avião oficial. Eles tiveram que viajar em voos comerciais. O mesmo ocorreu com a ministra dos Transportes, Miri Regev. Quem foi com ele foi a esposa Sara e o filho Yair, que pegou carona para sua casa em Miami.
Em meio a guerra com a organização terrorista Hamas e os muitos problemas que Israel enfrenta, Netanyahu deixou tudo para passar uma semana nos EUA, para um encontro com Trump, que poderia fazer por telefonema de 45 minutos. Para que não o critiquem, Netanyahu conseguiu reunir lideranças judaicas e evangélicas para um encontro na quarta-feira (31/12). Embarcou de volta na quinta-feira (01/01).
Para Netanyahu foi um excelente encontro depois de tantos elogios que Trump lhe fez. Já tem toda a propaganda eleitoral para as próximas eleições que devem acontecer neste ano. Trump falou aos repórteres na porta de sua mansão, com Netanyahu, calado, ao seu lado. Falou, mas não necessariamente a verdade. Entre outras Trump disse que falou com o presidente Herzog que lhe disse que a questão da anistia ao Netanyahu pelas acusações de corrupção, quebra de confiança e fraude está em andamento. Ao contrário do costume, a resposta de Herzog veio imediatamente, de que os dois não trataram do assunto desde setembro quando Trump esteve em Jerusalém. Ademais, o presidente Herzog não pode dar anistia a quem ainda não foi condenado. Perguntado sobre o sequestrado Ran Gvili, cujos pais foram com Netanyahu ao encontro e a cuja volta a Israel o premier condiciona a passagem para fase 2, Trump ignorou a pergunta e insiste em continuar o processo. Aí tem vários tropeços. Nenhum país está disposto a ceder tropas para ir à Faixa de Gaza e combater o Hamas, até que os terroristas deixem as aramas. Os únicos dispostos são a Turquia e o Catar, dois países radicais que apoiam o Hamas e a cuja presença na região Israel se opõe. Trump quer seguir o mais rapidamente possível à fase 2 e acrescentou que “temos que desarmar a Hamas”.
Enquanto isto, o Hamas voltou abertamente a governar a Faixa de Gaza, com seus policiais e terroristas andando livremente e armados. O governo de Israel avalia que eles têm 60.000 armas AK47. Apesar disso, Trump acha que dá para desarmar Hamas em tempo curto.
Perguntado se a Turquia estará fazendo parte da Força Internacional, Trump, que a toda hora faz elogios ao seu amigo Erdogan, de quem gosta muito, respondeu que conhece bem o líder turco e que não haverá problema. Como dito, Israel recusa terminantemente a presença turca na região. Indagado se venderá caças F35 a Turquia, Trump disse que não vê problemas nesta venda. Sabendo que Israel se opõe a isto, completou que a Turquia não usará estes caças contra Israel. Nesta semana o jornal porta-voz do governo turco qualificou Israel como o seu maior inimigo.
Trump descreveu Netanyahu como um herói e, se não fosse ele por sua liderança, Israel deixaria de existir. Mais uma pincelada rápida, sem pensamento e que foi sob o governo Netanyahu que aconteceu a maior tragédia de Israel e do mundo judeu, desde o Holocausto.
Outra questão abordada, foi o do Irã. Trump disse que ouviu que o Irã está se armando, mas, se continuar a construir misseis e tentar desenvolver armas nucleares “reagiremos imediatamente”. Luz verde a Israel que já queria agir. Nos últimos dias, há grandes protestos populares contra o regime dos aiatolás.
Do seu “segundo amado” (depois do Netanyahu), o presidente sírio Al Julani, Trump espera que assine bom acordo (com Israel), “apesar dele não ser menino de coro de igreja”. Julani enfrenta muitas rebeliões internas de setores que não o aceitam e mata as dezenas e centenas de opositores, principalmente os alawitas – minoria da qual o ex-presidente Bashas al-Assad é parte – que vivem no norte do país.
Trump se vangloriou de que só ele e seu governo conseguiram libertar os sequestrados israelenses e mais uma vez falhou aos fatos. Acontece que, já em novembro de 2023, sob o governo Biden, foi realizada a primeira devolução de 105, dos 255, sequestrados. A impressão é de que ele simpatiza muito com os reféns e teve vários encontros com eles, mais mesmo do que Netanyahu teve, e ficou impressionado com os pais de Ran Gvili (o último sequestrado ainda não devolvido), mas iria a fase 2, mesmo contrariando a pré-condição do governo israelense de continuar para a fase 2 depois que Ran for devolvido. Nós sabemos dos fatos que são apresentados à mídia, mas a realidade pode ser outra. Tanto é que, pelo visto, Netanyahu a sós com Trump voltou atrás e já foi anunciado que a passagem Rafah será reaberta para os dois lados, mesmo sem Ran voltar.
Na frente dos holofotes a bajulação é mútua. A do Netanyahu ficou mais visível, quando mesmo antes das eleições americanas, ele se posicionou ao lado republicano, abandonando a tradicional linha bi-partidaria dos governos israelenses. Netanyahu se identifica completamente com o Partido Republicano (e se nas próximas eleições vencer um democrata?). Netanyahu diz que Trump é o melhor presidente americano que Israel já teve na Casa Branca. Não termina aí. Num ato de outra bajulação durante o almoço, Netanyahu recebeu um telefonema do ministro da Educação e colocou a conversa em viva voz. O ministro Kish anunciou que Trump receberá, em abril de 2026, o Prêmio Israel pela sua contribuição excepcional ao povo de Israel. Algo que não existia. Se Trump vier a Israel, certamente fará parte da propaganda de Netanyahu para as eleições, que deverão ocorrer em 2026.
Foto: The White House
Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da Revista Bras.il.


