Brasilidades na Terra Santa
Por Mary Kirschbaum
Me mudei para cá faz sete anos e meio e, como diz minha filha, “a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente”.
Sim! Muito interessante isto. Hoje, domingo, é dia de trabalho aqui e como eu só atendo a partir das 12:00, acordei com vontade de Chico Buarque, este mesmo, lulista, e que não é a favor de Israel, mas não estou muito preocupada, pois cresci ouvindo Chico com meu pai. Então, depois de dar uma volta com meu cachorro e enquanto tomava café liguei Chico: “O trovador”. E comecei a escutar as deliciosas melodias que embalavam minhas viagens na “Picape” do meu pai, nas doze horas de estrada rumo ao sul da terra brazilis, onde morava minha “bobe” (avó em ídiche), querida.
Como podemos vir do Brasil e não continuar com hábitos e saudades de coisas da nossa infância e juventude? Pois é, adoramos escutar de vez em quando um português na rua, vamos logo falando: “Brasileiro?” e iniciamos um papo, como se fosse a coisa mais difícil e prazerosa de encontrar por aqui, e vou dizer que, às vezes, é mesmo. Sensação de casa, familiaridade, relaxamento…
Temos o nosso Instituto Guimarães Rosa, em Tel Aviv, coordenado pela maravilhosa Raquel Yehezkel. O tempo todo nos lembrando da língua portuguesa, poesia, música, cinema brasileiro, arte. A mesma queridíssima mineira Raquel tem um grupo no Face, que eu adoro o nome, para brasileiros aqui: “Brasil Cultural: Tupiniquins, Sabras e afins em Israel”. Muito criativo!
Vira e mexe temos shows com artistas brasileiros, cantores, musicistas, rodas de samba. Todos que vieram parar aqui na Terra Santa, mas o Brasil não saiu deles.
Temos no nosso “Shuk haCarmel”, a feira mais famosa de Tel Aviv e de Israel, o “Cartola”, um lugar numa esquina gostosa perto da praia, com dois donos, pai e filho, que fazem quitutes brasileiros: deliciosas coxinhas, bolinhas de queijo, pastel e caipirinha na mais gostosa brasilidade. E para matar as saudades, as vezes engatam a famosa feijoada com samba e música brasileira antes do Shabat iniciar aqui, na sexta feira.
Temos um grupo de meninas brasileiras de Israel, com garotas super animadas de todo o Brasil, que trocam figurinhas sobre receitas de bolo, feminilidades, medos de ataque do Irã e do Hamas, filhos, maridos, empregos, tristezas, alegrias e bizarrices. Um grupo que eu faço parte e sempre tiro alguma dúvida lá sobre lojinhas em Israel, se existe ou não certas coisas aqui, comidas, etc.
Temos a nossa super importante Lilian Spektor, que criou vários grupos super necessários para busca de trabalho, para autônomos, que nem eu, anunciar suas profissões, comércios, projetos e buscar clientes, além de um grupo importantíssimo para encontrar médicos de “Kupat Cholim” (centros médicos de saúde, como Macabi, Clalit, Meuhedet) que falam português, pois só quem mora aqui e necessita de atendimento médico, sabe como é difícil a gente comunicar o que sente em hebraico.
E a Revista Bras.il com os queridos Marcia e Daniel Sasson que trazem as notícias ao vivo e a cores em português, deixando-nos tranquilos, por pelo menos sabermos das tragédias na nossa língua. Mas também dá a oportunidade dos brasileiros que experimentam a terra de Israel com seus gostos e desgostos de criar seus blogs e trazer suas opiniões sobre a aliá e a nossa comunidade aqui em Eretz.
Temos muitos grupos de trocas de informações e necessidades de olê chadash, entendimento de início de aliá e todas as tramoias que passamos por aqui e necessitamos de uma troca com “nossos irmãos” brazilaim.
Enfim, muitas plataformas de informação e troca sempre surgindo, através das pessoas, que assim como eu, se mudaram pra cá, mas tem seu sangue brasileiro. Tem assim como diz Chico Buarque, Vinicius de Moraes: Temos o Brasil nas nossas entranhas.
Vou parando por aqui, pois em Israel se trabalha no domingo, e não posso mais me deixar levar pela saudade que agora estou sentindo, de acordar na minha cidade natal São Paulo, ir tomar aquele café da manhã, com um pingado e um pão na chapa e, depois, me deixar levar na preguiça de “um dia de domingo”, como diria Tim Maia, delicioso e saudoso com seu vozeirão e sua brasilidade.
Saudades…
Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da Revista Bras.il.



































