A língua é minha mátria!

Por Simone Wenkert Rothstein

Nesta conversa as personagens falam sobre a importância do uso da língua materna, especialmente em momentos de rupturas.

Simone – Oi Tal! E aí, o que você me conta?

Tal – Simone, ontem estava vendo o noticiário e me peguei pensando: seria melhor ouvir as notícias em português entendendo 100% das loucuras do mundo e daqui ooou, é melhor assim, entendendo só partes da realidade, meio distraída, meio à distância, sabe? Tem momentos que a ignorância ajuda a gente a não sofrer. Aliás, eu acho que ainda nem sei sofrer em hebraico!

Simone – (rsrs) Muito bacana isso que você está falando: a língua é parte da nossa identidade. Não é à toa que chamamos de língua materna. O ser humano cria sua noção de EU a partir de suas primeiras experiências vivas, das sensações físicas, do calor do corpo da mãe, do olhar, da voz, das palavras dela. E assim a gente vai se reconhecendo nesse idioma que mistura palavras e sensações.

Tal – Você falando agora, me deu a sensação de estar escutando uma canção de ninar!

Simone – É, a língua materna acolhe a gente, desde o colo, da canção de ninar, mas é também ela que nos nomeia. Dá o nosso nome pessoal, o nome de família e o nosso muito querido apelido, ou seja, quando falamos em língua, falamos de construção da nossa subjetividade. Muitas vivências, pedacinhos de lembranças são carregadas nas palavras que pronunciamos ou naquelas que escutamos.

Tal – Sabe Simone, desde que cheguei aqui em Israel, mesmo sabendo um bom hebraico, percebi que minha tendência era a de procurar pessoas que falam português.

Simone – E por que você acha que tem ou tinha essa preferência?

Tal – Você já ouviu pessoas dizendo: “Nossa, ele fala a minha língua!” ou “é impressionante, nós falamos a mesma língua!”, é que não é só o português, é a nossa vida, a nossa história, as nossas paisagens, as nossas comidas, os nossos personagens!

Simone – É isso mesmo. Precisamos resgatar o que é nosso, como você tanto enfatizou. Quando mudando de país, mudamos muitas coisas, deixamos pessoas que amamos, deixamos muitas vezes uma carreira… Perdemos referências e nossa identidade fica abalada, fragilizada, como uma árvore arrancada com as raízes ao sabor do vento.

Tal – Uau, isso dói!

Simone – Sim, mudar, dói! E talvez a língua materna seja uma das poucas coisas que podemos trazer conosco. E aí, quando você encontra alguém que te vê e te entende, é como se fosse um resgate daquele olhar materno que diz: “Isso mesmo, você é você! Eu te reconheço!”

Tal – Que alegria que dá o encontro com o conhecido. Aliás, eu percebo que agora, nestes tempos de Corona, com tantas inseguranças e medos, preciso mais ainda falar com as pessoas conhecidas, ouvir minhas músicas brasileiras conhecidas.

Simone – Nesta crise, como na época da aliá, lidamos com tantas incertezas, que faz voltar aquele sentimento de árvore desenraizada. E aí, o encontro com tudo o que é conhecido, pode servir como um aconchego que nos organiza emocionalmente e ajuda a gente a encarar a realidade.

Tal – E por falar em realidade e música brasileira, me lembrei daquela maravilhosa do Chico Buarque: “Apesar de você amanhã há de ser outro dia…”

Simone – Maravilhosa! Perceber que guardamos em nós a trilha sonora da nossa vida nos ajuda a pensar o amanhã, a lidar com o novo. Seja ele o desconhecido, o novo lugar, e mesmo, a nova língua. E por falar nisso, até a próxima. Lehitraót!

Tal – (rsrs) Lehitraót!

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