De 29 de novembro de 1947 até hoje

Por David S. Moran

Na próxima segunda feira, 29/11, será comemorado o 74° aniversário da Decisão da Partilha, pela qual dever-se-ia criar um Estado Judeu e um Estado Árabe. Que transformação passou a região do Oriente Médio nesses últimos 74 anos.

Um pouco de história. Após derrotar o Império Otomano, a França e o Reino Unido fizeram um acordo, em 1916, conhecido pelo Acordo de Sykes-Picot. Este acordo dividia a região no Mandato Britânico no Oriente Médio que abrangia desde o Golfo Pérsico até o Mediterrâneo. Neste Mandato estava também a região da Palestina. O governo inglês deu de presente a tribos beduínas as fartas terras da Arábia Saudita, da Jordânia ficando com o Mandato sobre a Palestina. O Mandato da França era da região correspondente ao Líbano e a Síria.

Em abril de 1947, a Inglaterra pediu a Assembleia Geral da ONU uma decisão sobre o seu Mandato na Palestina. Então foi criada uma comissão de inquérito composta por 11 membros de países neutros, chamada a Comissão UNSCOP. A comissão visitou a região, colheu depoimentos no local e de especialistas. Em 31 de agosto de 1947, apresentou sua decisão aprovada por unanimidade: término do Mandato Britânico, dividir a região em três áreas criando dois países independentes – um judeu e outro árabe e Jerusalém como área Internacional. A Resolução 181, que adota as recomendações da Comissão UNSCOP, foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 29 de novembro de 1947. 33 países, inclusive o Brasil e a maioria dos países latino-americanos votaram a favor, 13 países, a maioria países árabes e muçulmanos votaram contra, inclusive a Grécia e Cuba e 10 se abstiveram, entre eles o Reino Unido.

A surpresa foi que a então URSS, que queria enfraquecer o imperialismo britânico e com a maioria dos seus países satélites da Europa Oriental, votou com os EUA e países da Europa Ocidental a favor do Plano da Partilha.

Os judeus vibraram. Depois de tanto sofrimento o ishuv/comunidade judaica local da Palestina/Eretz Israel, agora engrossada por sobreviventes do Holocausto e de refugiados judeus, expulsos de países árabes, teriam um Estado próprio, Lar Nacional. Os árabes rejeitaram o plano de imediato. Eles tinham outro plano, o de dividir a região entre o Egito e a Síria, que chamava a região de Síria-Sham, que deveria compreender o Líbano, Israel, Jordânia e Iraque. Com a retirada das tropas britânicas, em 14 de maio de 1948, o líder sionista, David Ben-Gurion declara a criação do Estado de Israel. Os árabes atacam em todas as frentes. Tropas egípcias, sírias, jordanianas, libanesas, iraquianas e sauditas, com os árabes locais, atacam a comunidade judaica. Mesmo com menor número e menos treinamento, os judeus conseguem derrotar as tropas árabes e o estabelecimento do Estado de Israel é um fato concreto.

As datas em Israel são escritas em forma judaica, isto é, pelo dia em que cada letra tem tradução numérica, meses judaicos, ou em datas usadas mundialmente. A única data que é numa metade judaica e outra universal é a do Dia da Partilha, Kaf Tet be November. Kaf é 20, Tet é 9. A data pelo calendário judaico corresponde a Yod Zain (17) do mês de Kislev, ano Tashach (5708). A única data que contém os dias pelo calendário judaico e o mês pelo calendário geral é a data da Partilha do Mandato Britânico.

Os judeus vibraram. Finalmente, após 2.000 anos de perseguições têm o reconhecimento para criar um Estado independente, o Estado de Israel. Queriam finalmente ter paz para alcançar a prosperidade. Naquela época, o recém-criado Estado de Israel deu muita esperança aos judeus em Israel e a muitos outros países, principalmente africanos. Mesmo atacado e tendo que lutar (na guerra da Independência perdeu cerca de 1% de sua população). Nas guerras que se seguiram, morreram muitos israelenses e um número maior de árabes. Mas isto não consolava a liderança judaica. A Primeira-Ministra de Israel, Golda Meir (1898-1978) disse: “Nunca vou perdoar os árabes que nos obrigam a matá-los”. Ela também disse: “A paz (shalom) virá quando os árabes amarem seus filhos, mais do que nos odeiam”. Mas eles continuam, até hoje, a recusar aceitar a existência de Israel. Como disse o antigo chanceler israelense, Abba Eban (1915-2002)­: “Os árabes jamais perderam uma oportunidade de perder oportunidade”.

O que seria o Estado Árabe (não chamado palestino) foi invadido pela Jordânia. A eterna capital do povo judeu, a cidade de Jerusalém, no armistício foi dividida entre Israel e a Transjordânia. Só depois da Guerra dos Seis Dias (junho/1967), a cidade se reunificou.

Na década dos anos 50 e 60, o Estado de Israel foi um exemplo a muitos países, que viram um Estado pequeno, numa região hostil, com guerras e lutas, prosperar e mostrar ao mundo outro caminho. A agricultura israelense teve sucesso numa região desértica e foi exportada à África, Ásia e Europa. Mesmo antes de falar de meio ambiente, Israel ensinou como economizar energia aproveitando os raios solares para aquecer água. Depois conseguiu desenvolver a dessalinização da água, que atualmente é a principal fonte de água potável numa região que há falta de água.

A prosperidade do Estado Judeu e o seu desenvolvimento se deu em muitos campos: Universidades entre as melhores do mundo. Escritores e cientistas receberam Prêmio Nobel. Invenções nas áreas científicas, agrícolas, indústria, alta tecnologia e até nas artes: Oscar, Globo de Ouro e Emmy.

Enquanto isto, os países árabes tiveram outras invenções, nas áreas terroristas, nas lutas internas e externas, a exemplo dos palestinos tentando apoderar-se da Jordânia, da Guerra Civil Síria e da Guerra entre o Iraque e o Irã. Também a luta dos palestinos contra Israel, em que não sofreram represálias mundiais. Os países ocidentais até que foram brandos e perdoaram Arafat entrando no recinto da ONU, com revólver a tiracolo, sequestro de aviões, invasão e assassinato de atletas israelenses em Olimpíada (Munique), sem mencionar extorsões e chantagens e boicotes.

O tempo foi passando, os palestinos vão perdendo, Israel se firmando. Depois de assinar acordo de paz com o Egito, depois a Jordânia, veio a vez de países do Golfo Pérsico, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e outros. Quem acreditaria que o Ministro da Defesa de Israel faria uma visita oficial e a luz dos holofotes ao Marrocos? O Ministro Gantz o fez esta semana. Israel supre a Jordânia com água potável e vende gás, bem como ao Egito. Israel assinou esta semana um acordo histórico com a Jordânia e os EAU de cooperação na luta regional pelo Meio Ambiente. Nesta cooperação Israel exportará à Jordânia 600 megawatt de energia elétrica, e estudará ampliar a exportação de água potável para até 200 milhões de metros cúbicos. Até a Arábia Saudita, que permite voos comerciais israelenses sobre seu território, permite que cidadão israelense entre no país e corra na Formula 2. Trata-se de Roy Nissani, que também é piloto de testes da Williams na Formula 1. Impensável até há poucos anos.

Os maiores rivais, os palestinos, dependem muito de Israel, nos empregos, segurança e fontes de renda. A Autoridade Palestina está falida economicamente, depende de verbas dos países árabes e europeus, que este ano só lhe passaram 10% do que prometeram. Na Faixa de Gaza, Hamas está talvez em situação pior, isto apesar de seus irmãos árabes ricos comprarem clubes esportivos e investir em outros lugares.

Mas, o que é alegria, ter parceiros no mundo árabe é menos alegre quando o fazem depois de terem um inimigo em comum – o Irã – e acreditam que Israel não permitirá o Irã chegar a ter arma nuclear. Eles conhecem muito bem a região e a cultura local e botam fé em Israel. Os europeus, EUA e o Ocidente tendem a perdoar países tiranos como os clérigos do Irã e mesmo ao presidente deste país, Ibrahim Raisi, cuja alcunha é o Carrasco de Teerã, que pessoalmente mandou matar milhares de dissidentes iranianos. Os líderes iranianos dizem que terão brevemente urânio enriquecido e poderão construir bomba atômica. O diretor geral da AIEA confirma que seus fiscais são proibidos de vistoriar certas usinas no Irã. Este país não só não sofre sanções – as do Trump, Biden quer cancelar – mas o governo americano adverte Israel de não atacar as usinas nucleares do Irã. Nisto ele é acompanhado pela Alemanha, Inglaterra e França.

Resumindo. Nos 74 anos da Resolução da Partilha (181), Israel foi criado, prosperou, de 650 mil judeus, passou a ter cerca de sete milhões, tornou-se num país prospero e até aceito por muitos países árabes e muçulmanos, apesar da luta ainda não terminar. Há muito por fazer e tentar alcançar a paz.