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Eu, minha mochila e a guerra

Por Roni Szuchman

Tudo começou quando, novamente sozinho em Israel, me mudei para um pequeno hotel no centro de Tel Aviv, enquanto busco um apartamento na área central. Tudo parecia bem até receber uma mensagem do gerente, onde dizia que, em caso de guerra, todos os hóspedes deveriam se dirigir ao grande prédio na rua adjacente.

Alguns dias depois… Estou sendo sincero quando digo que não tenho medo dos mísseis, mas ser acordado no meio da noite com o seu celular gritando desesperadamente, assustaria até Dante Alighieri, que desceu ao Inferno. Se eu precisava fazer algum teste cardíaco, agora já não é necessário.

Acordo xingando toda a geração do celular, parecem ser 14. Após conseguir fazê-lo calar a boca para me vestir, vem o relógio atrasado, gritando também, mais para eu não esquecer de levá-lo junto, do que me avisar de algum perigo.

Saio na rua de manhã cedo, que já com algumas festas de Purim em curso, me faz visualizar uma girafa de patinete (provavelmente alguém vestido de girafa, o que não deixa de ser menos absurdo, com uma guerra começando).

Detalhe, minha mochila vem junto, dentro o meu equipamento de trabalho e três passaportes. Melhor prevenir que remediar. Depois de 20 dias com ela nas costas, já dá vontade de deixá-la à própria sorte, mas daí lembro que, quando comecei a trabalhar na carreira profissional, era uma máquina de escrever, e fico quieto.

Não sei se o resto de Israel precisa ir para o lugar seguro assim como eu, já que Tel Aviv é a menina dos olhos de nossos inimigos. Mas foram tantos alertas e alarmes que a minha roupa já se veste em mim automaticamente, e mesmo dormindo eu já vou e volto. Já tive alarme no meio do banho, das refeições e tudo que você puder imaginar.

Nos primeiros dias, vi no prédio onde me abrigo a bandeira de minha terra natal, sendo lá a embaixada, como se eu estivesse fugindo a cada míssil apontado em minha direção, mas verás que um filho teu não foge à luta!

O bacana foi que sempre são as mesmas pessoas que se encontram no lugar seguro. Mais gente com cachorro do que filhos, uma realidade diferente do resto do país.

Uma dessas pessoas foi o vizinho de quarto no hotel, um senhor sabra/britânico que ficou preso aqui em Israel mais uma semana do que pretendia, já que os voos foram cancelados.

Acabei descobrindo que ele era um historiador famoso sobre os conflitos do Oriente Médio e responsável pela descoberta de um espião que “caiu” da sacada de seu apartamento em Londres, o que lhe rendeu um documentário na Netflix.

Ele me contou que o prédio do hotel é da década de 1930, tendo pertencido ao quartel-general inglês durante a colonização britânica e depois foi sede do Mossad!

Legal, né? Tão legal que agora tenho o hotel inteiro para mim, já que ficou vazio. Mais sozinho que isso no meio da guerra, impossível. Mas, como diz o ditado judaico: isso também vai passar.

Enquanto isso, fica aqui: eu, minha mochila e a guerra.

Dica útil: Se vier a Israel, faça um eletrocardiograma.

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da Revista Bras.il.

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