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EUA atacarão o Irã, ou não?

Por David S. Moran

O Oriente Médio está na espera. Dois galos cucuricam alto e cada um quer mostrar que o canto dele é maior. O impressionante é que o governo iraniano está enfraquecido após os golpes que sofreu internamente, com as manifestações e dezenas de milhares de mortos e feridos. Externamente, suas proxies sofreram também. Hezbollah no Líbano, Hamas na Faixa de Gaza e os Houthis do Iêmen. Mesmo assim o governo iraniano fala alto e mostra, aparentemente, não temer um ataque americano. Pelo contrário. Até ameaça que, se os EUA os atacarem, eles revidarão atacando alvos americanos na região, isto é, bases americanas acantonadas na Arábia Saudita, Bahrein e Catar, e irão mais longe atacar alvos em Israel.

No último final de semana, representantes americanos e iranianos tiveram negociações em Omã. Apesar do representante iraniano dizer que “foi bom começo”, pelo visto deixa muito a desejar. De início, Trump exigiu do Irã: 1. Abandonar o projeto nuclear. 2. Parar o projeto dos misseis balísticos, estes que poderiam alcançar até Israel e a Europa. 3. Parar o financiamento das proxies e 4. Tratar adequadamente os manifestantes que protestaram contra o regime.

Em Israel, antecipando este encontro, aqui estiveram Kushnir r Witkoff e mantiveram conversas com altas patentes do governo. A impressão foi de que Trump e o seu conselheiro mais próximo, Witkoff, estariam satisfeitos se conseguiriam fazer os iranianos só deixar o seu programa nuclear. Imediatamente, Netanyahu combinou com Trump um encontro de emergência para a quarta (11/02) em Washington.

O ministro do Exterior iraniano foi requisitado para trazer respostas sobre os quatro pontos levantados pelos americanos. O Irã por sua vez exige que os EUA retirem as sanções que afetam sua economia. Os iranianos, mestres em negociações e seus prolongamentos avisam que não pararão o enriquecimento de urânio.

Netanyahu avisou que levaria consigo o general-aviador Eyal Tishler, que já foi nomeado para ser o próximo Comandante da Aeronáutica e (segundo porta-aviões americano em direção ao Golfo da Arábia) foi quem planejou o ataque de sucesso contra o Irã, em junho de 2025. Dias depois, Netanyahu avisou que não o levaria e quem iria com ele seria o general Roman Gofman, seu secretário militar, mas que não fala inglês. Estranho.

Na quarta-feira (11/02), enquanto nas ruas das cidades iranianas, o regime comemorava o seu 47º aniversário, ocorria o 7º encontro entre os dois nos EUA – além de mais um em Israel – desde que Trump assumiu a presidência, em janeiro de 2025.  O encontro foi a portas fechadas, sem presença de jornalistas e durou mais de duas horas e meia, o dobro do tempo previsto. Deve ser pelas discordâncias entre os dois lados. Israel está preocupado pelo avanço iraniano na reabilitação dos depósitos de misseis balísticos

Ao contrário do que sempre faz, Trump não falou com os repórteres, apenas escreveu que quer esgotar as negociações com o Irã. “Não chegamos a nenhuma solução final, exceto que insisti em continuar negociar com o Irã para ver se chegamos a uma solução”. Parece que, apesar de engrossar as fileiras da presença militar na região e o envio de mais um porta aviões, Trump é contrário a guerras prolongadas e agora entende que seus interesses no Oriente Médio podem sofrer danos se o Irã contra-atacar. Ele lembrou (aos iranianos) que, na vez passada, em que não chegaram a um acordo, eles apanharam com a operação Martelo da Meia Noite, em junho de 2025.

Além da questão do Irã, Israel e os EUA discutiram o processo da Segunda Fase em Gaza, que querem levar adiante. Aqui também a discordância é grande. Trump pensa como homem de negócios, diz que realmente há paz no Oriente Médio e não vê a realidade. Israel quer que o Hamas cumpra os acordos e que seja desarmado, Os EUA falam apenas de armamento de grandes proporções e deixar as armas leves com o Hamas. Além disso, o Hamas deve deixar o governo em Gaza e não o faz (até o policiamento é feito por terroristas do Hamas). Israel não quer que Hamas esteja governando Gaza e nem a Autoridade Palestina. Mas, quem chefia o “governo tecnocrático” é Nabil Sha’at, que foi alto funcionário da AP. Além disso, Trump gostaria de ver maciça emigração palestina da Faixa de Gaza, para que possa lá montar a “Riviera do Oriente Médio”. Israel apoiaria uma iniciativa dessas, mas este sonho está muito longe de ser concretizado. Será difícil arrecadar bilhões para a reconstrução de Gaza, sem que uma parte do dinheiro não seja desviado para o Hamas e a Jihad Islâmica. Os que apoiam a visão israelense no governo americano são o secretário do Estado, Marco Rubio e o secretário da Defesa, Pete Hegseth.

Quanto à formação de tropas estrangeiras serem colocadas em Gaza para garantir a paz, a Indonésia – maior país muçulmano do mundo, com 280 milhões de habitantes – disse que está disposto a enviar 8.000 soldados para “garantir a paz” na Faixa de Gaza. Isto vai de acordo com a pretensão do presidente indonésio, Prabowo Subianto, de levar seu pais a projeção mundial. Em setembro de 2025, ele surpreendeu a todos declarando que há de assegurar a segurança de Israel para obter a paz e terminou seu discurso na ONU, com “Shalom”. Parece que quer reconhecer o estado judeu, mas encontra oposição.

Quem Israel não quer de jeito nenhum que envie tropas são os exércitos da Turquia e do Catar, considerados países inimigos.

Se alguém pensou que a situação fosse tranquila, é melhor pensar duas vezes. Em Gaza, só foram destruídos 50% dos túneis e o Hamas continua governar. O Hezbollah sofreu grande derrota, mas o governo libanês ainda teme esta organização terrorista, que está se rearmando. O Irã com toda sua fraqueza, ainda ameaça lançar mísseis contra Israel se os EUA o atacarem. O mundo esquece rapidamente quem é o lobo mau da história. Os Guardas Revolucionários entraram nos hospitais onde estavam os feridos dos protestos e os executaram com balas na cabeça e ainda exigiam das famílias que pagassem pelas balas disparadas. Mas, o mundo esquece rapidamente.

O presidente Trump deve entender que esta é sua grande chance, enquanto o governo iraniano está enfraquecido, de tentar depô-lo e libertar o povo iraniano e o mundo deste mal.

Foto: Avi Ohayon (GPO)

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam necessariamente a opinião da Revista Bras.il.

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