Explosão em Beirute, pobre Líbano

Por David S. Moran

Na tarde de terça-feira (4) uma potentíssima explosão sacudiu o cais 12 do Porto de Beirute, seguida de outras explosões. Fumaça cinza antecedeu a explosão com fogo avermelhado e toda a confusão aparentava ser uma pequena bomba atômica. Destruiu tudo em volta do porto – principal entrada de material ao Líbano – e o efeito sacudiu edifícios, quebrando vidraças num raio de 24 km do local da explosão.

Foto da primeira página do jornal Al Rai

No inicio, os libaneses alegaram que a explosão ocorreu num galpão onde estavam estocados rojões de fogo de artifício. Logo em seguida, as versões foram mudando. Nem tudo está esclarecido até o momento. Parece que operários estavam soldando a porta de armazém e faíscas provocaram a explosão do material ali estocado. Trata-se da enorme quantidade de 2.700 toneladas de nitrato de amônia (*), que podem pertencer a Hizballah, ou ter sido confiscado em 2013, de um navio.

O efeito da explosão foi tão grande que o Instituto Sismográfico da Jordânia anunciou que o efeito da explosão foi de um terremoto de 4.5 na escala Richter. Houve noticias de que o efeito chegou até mesmo à Ilha de Chipre a 240 km.
A rede Al Arabia da Arábia Saudita informou que se trata de armazém onde a Hizballah estoca mísseis e material explosivo. Vale a pena lembrar que, em outubro de 2018, na Assembleia Geral da ONU, o Primeiro Ministro israelense, Netanyahu, mostrou ao mundo fotos de satélite comprovando que na cidade de Beirute, no meio de civis, a Hizballah tinha fábrica de montar mísseis com componentes vindos do Irã e os estocava em três locais: no Porto, perto do Aeroporto da Capital e debaixo do Estádio de futebol local (**).

Israel foi o primeiro país a oferecer ajuda humanitária e hospitalar. Os dois hospitais mais próximos da fronteira israelense com o Líbano: o Centro Médico Hospitalar da Galileia, em Naharia, dirigido pelo médico árabe-israelense, Dr. Masad Barhoum, que ofereceu até abrir hospital de campanha, junto à fronteira, em Rosh Hanikrá; e o mesmo foi proposto pelo diretor do Hospital Ziv em Tsfat (Safed), o druzo Dr. Salman Zarka, Coronel (res.) de Tsahal, conhecido mundialmente profissionalmente e por atender milhares de feridos sírios.

Solidariedade. As luzes acessas na forma da bandeira libanesa, na Prefeitura deTel Aviv

Os relatos da população de Beirute dão conta do pânico e da destruição. Mulher grita “não quero morrer, não quero morrer”. Outro chama sua cidade de “Beirutshima”, referindo se a cidade de Hiroshima, que sofreu ataque atômico. As manchetes dos jornais no dia seguinte eram “Desastre Beirute”, “O grande colapso”, “A nakba de Beirute”.

Aliás, em 2016 o arrogante Nasrallah, num discurso com sorriso sarcástico ameaçou que num conflito com Israel, ele lançará misseis contra a amônia estocada em Haifa, “onde vivem 800.000 habitantes e isto terá efeito de pequena bomba atômica. Dezenas de milhares de sionistas morrerão”. Seus adversários libaneses, agora lhe lembram desta declaração, que infelizmente retratou com precisão o que ocorreu esta semana na capital libanesa.

O fanfarrão Nasrallah que ia fazer um discurso na quarta (5) imediatamente o cancelou. Também estava prevista a publicação hoje (7) do parece da Corte Internacional de Justiça, em Haia, dos responsáveis pelo assassinato do Primeiro Ministro libanês, Rafiq Hariri em 2005. A autoria é atribuída a quatro membros da cúpula da Hizballah.

O Líbano sofre tragédia após tragédia. A situação econômica, social, governamental é catastrófica. Na realidade segundo os entendidos, o Estado Libanês não existe (***). O Estado tem parlamento, é membro da ONU, Liga Árabe, mas trata-se de junção de vários segmentos, primeiramente ligados a religiões e suas respectivas famílias. A corrupção é tal que o Estado está falido, mas tem alguns bilionários, que agora poderiam ajudar, mas não o fazem.

A população local acusa primeiramente a Hizballah “que sequestrou e destruiu o país, trouxe 150.000 mísseis sem perguntar a ninguém, entrou no governo e serve ao Irã”. Também acusa os políticos. Locutor da TV libanesa, muito comovido, fez declaração sem precedentes: “pensamos que Israel é o inimigo, mas não, vocês os políticos desleixados e corruptos, vocês são piores, cuspo em vocês”. Repetiu diversas vezes “tfu em vocês”.

Até a tarde de quinta (6) ainda não se sabia o número total de vítimas. Ainda há muitos desaparecidos, soterrados debaixo de edifícios que ruíram. Fala-se em 157 mortos, mais de 5.000 feridos e centenas de milhares de pessoas que não poderão voltar para suas casas por meses. Pior será quando o inverno chegar brevemente.

Não só que o governo israelense imediatamente descartou qualquer envolvimento nesta tragédia, até a Hizballah informou que a “entidade sionista” não tem nenhum envolvimento na série de explosões.

A população libanesa aponta os dedos e a culpa na organização terrorista Hizballah, que serve o Irã; Nassralah, que cancelou seu discurso da quarta (5), já o reprogramou para sexta (7) e como sempre será interessante ouvir o que tem a dizer.

A Suíça do Oriente Médio, como era chamado o Líbano, já não mais existe. Antigamente os ricos xeiques e reis árabes vinham passar férias nas lindas montanhas com neve do país dos cedros, mas como mostra este desenho (abaixo) o cedro foi pelos ares.

Notas:

(*) Nitrato de amônia é para ser usado como adubo na agricultura. Pelo seu preço baixo, certas organizações o usam para montar explosivos. Hizballah fez uso de nitrato de amônia, em pequena quantidade na Argentina, quando fez explodir a Embaixada de Israel, em 1992 e dois anos depois na AMIA, matando mais de 100 pessoas e ferindo centenas.

(**) Uso de civis como escudo protetor. Não é de se estranhar esta atitude da Hizballah. Já relatei no passado, que durante a Guerra do Líbano, em 1982, fui convocado ao exército. O porta voz militar me pediu para acompanhar a imprensa portuguesa. Quando chegamos ao campo de refugiados palestinos de Ain al Hilwe, perto de Sidon, vieram ao nosso encontro dois porta-vozes da OLP. Viram jornalistas com câmeras, um falava inglês e o outro francês. Levaram-nos ao hospital local para mostrar que Israel destruiu o seu teto. Mas, ante a indagação de um repórter, o palestino respondeu: “forças israelenses estavam avançando sem tocar no hospital, aí levamos baterias antiaéreas ao teto do hospital tentar abater os caças. A reação dos aviões foi bombardear as baterias atingindo o teto”. Uso inescrupuloso de um lugar sagrado para salvar pessoas, para fins militares. Aliás, no porão do hospital encontramos espalhados milhares de uniformes e material da OLP.

Sabe-se que o mesmo fenômeno acontece no sul do Líbano, nas aldeias xiitas perto da fronteira. Hizballah estoca mísseis nas casas para que seus ativistas possam atirar de lá e, se Israel reagir, vão fazer uso propagandístico da destruição de casas de “civis”.

O mesmo ocorre com a Hamas. Durante a Operação Margem Protetora, em 2014, Hamas fez uso cínico de escolas, hospitais, mesquitas e outras repartições para lançar mísseis e atirar contra forças israelenses, para que sirvam de escudo protetor.

(***) A legislação libanesa é de 1932. Foi elaborada após sangrenta guerra civil O parlamento foi aumentado para 128 deputados, a cada seis deputados cristãos tinha cinco muçulmanos. No último censo feito antes da legislação havia 52% de cristãos, seguidos pelos sunitas, xiitas e drusos. Então foi estipulado que o chefe do Estado seria o Presidente, cristão, o Primeiro Ministro, sunita, etc… Com a natalidade maior dos muçulmanos e a emigração do país, os dados mudaram. Estima-se que 30% sejam xiitas, outros 27% sunitas, 5% são drusos e a população cristã é minoria de cerca de 20%.

Foto: splash247.com

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