Lições da História

Por Nelson Menda

É impressionante como os episódios mais insólitos e bizarros da história acabam se repetindo. Não exatamente da mesma forma, apenas um pouquinho pior do que a versão original. Nesse particular o Brasil oferece uma gama de vários repetecos em diferentes áreas, como veremos a seguir.

O possível retorno à arena política de um ex-presidente com chances de ser eleito mais uma vez evoca o histórico episódio do trem alemão que conduziu Lenin, do exílio na Suíça até Moscou, durante a Primeira Guerra Mundial. Por paradoxal que possa parecer, a Rússia e a Alemanha eram adversárias naquele conflito que já tinha causado 10 milhões de soldados mortos e o dobro de militares feridos, sem contar as vítimas civis. A guerra estava empacada e os enfrentamentos se prolongavam inutilmente, com os combatentes lutando de trincheira em trincheira e as vidas sendo ceifadas pelas balas dos fuzis ou o mortífero gás mostarda.

Algum suposto gênio imaginou que, com a atuação do revolucionário Lenin, seria assinada uma trégua entre a Rússia e a Alemanha e a paz voltaria a reinar na conturbada Europa. Deu ruim, pois ao invés de inaugurar uma fase de paz e prosperidade, com a chegada do líder revolucionário, a Rússia, que já ocupava um enorme território, acabou expandindo seus domínios até se transformar na gigantesca e voraz URSS. O resto da história imagino que os leitores mais antenados já conheçam e que os mais jovens, caso desconheçam, aconselho pesquisar, pois os efeitos tardios daquela autêntica ideia de jerico ainda se fazem sentir até os dias atuais.

Wladimir Lenin, o suposto “pacifista”, era na realidade um agitador de massas de altíssima competência que, efetivamente, conseguiu acabar não só com a Primeira Guerra Mundial, assim como a própria monarquia czarista e mergulhar seu país e grande parte da Europa em um regime totalitário que ainda viceja aqui e ali.

No Brasil cometemos o equívoco de eleger, há algumas décadas, um destrambelhado “homem da vassoura” para exercer a Presidência da República. Uma de suas primeiras iniciativas foi proibir a minissaia, seguida pelo projeto de banir do território nacional as brigas de galo. Fértil em ideias amalucadas, chegou a sugerir que os funcionários públicos federais utilizassem uma espécie de guayabeira, vestimenta popular em Cuba. Com apenas sete meses de mandato decidiu condecorar o serial killer Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Exagerou na dose, tentando, sem sucesso, dar um golpe de estado. Felizmente o tiro saiu pela culatra e acabou tendo de renunciar, acusando supostas “forças ocultas” de impedirem-no de governar.

Felizmente, depois de tantas idas e vindas o Brasil conseguiu se reencontrar, vivendo, pelo menos enquanto redijo este Blog, em um apregoado Estado Democrático de Direito. A história, em tese, deveria servir para que a humanidade não repetisse os mesmos erros.

Lembrei dessa sábia lição há alguns dias, quando descobriram e prenderam um hacker em Uberlândia, Minas Gerais, que conseguiu invadir os sistemas de segurança de várias instituições brasileiras, entre as quais o Senado, o Exército e o Tribunal Superior Eleitoral. O autor foi um jovem de origem humilde, que já havia sido detido anteriormente pelos mesmos delitos, condenado à prisão domiciliar e obrigado a utilizar uma tornozeleira eletrônica. É difícil acreditar que esse simples recurso possa impedi-lo de cometer novos crimes, não por acaso na própria área da cibernética, sua especialidade.

Me fez lembrar de um torneiro mecânico que conheci, há décadas, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Era um homem bastante idoso que vivia em uma casinha simples da periferia e tinha sido considerado o maior falsário do país ao tempo da ditadura Vargas.

Esse senhor aprendeu a cunhar moedas com perfeição e se especializou em falsificar cruzeiros para utilizar em proveito próprio. Começou a melhorar de vida, espalhando as moedas falsificadas pelo comércio local. Seu trabalho era uma verdadeira obra-prima, praticamente impossível de ser detectado, segundo suas próprias palavras. Alguém o denunciou e ele acabou preso e enviado para o Rio de Janeiro, então capital do país, para cumprir pena. Seus cruzeiros falsos eram tão perfeitos que somente ele seria capaz de diferenciá-los de uma moeda verdadeira.

Quando Getúlio Vargas tomou conhecimento de sua prisão, mandou indultá-lo e contratá-lo, de imediato, para trabalhar na Casa da Moeda, com a tarefa de criar sistemas de segurança invioláveis para o dinheiro a ser cunhado.

Quando se aposentou, retornou a Santa Maria, onde o conheci, e me encantei com as histórias que ele relatava e as matérias de amarelados jornais de época que fez questão de exibir, com uma pitada de orgulho. Afinal, tinha sido considerado o maior falsário do país. Conseguiu salvar, por milagre, algumas poucas moedas falsas de sua autoria, que me exibiu em caráter confidencial. Levava uma vidinha modesta, pois além do crime, sabidamente, não compensar, o Brasil já não utilizava mais moedas, popularmente conhecidas por “níqueis”. Tinham sido substituídas por notas de papel, que a progressiva inflação foi desvalorizando pouco a pouco e obrigando os sucessivos governos a mudar de nome a cada acréscimo de zeros, passando de cruzeiro para cruzado e cruzeiro novo até chegar ao atual real. As moedinhas só serviam para ser utilizadas como troco ou pagar as passagens nos saudosos tempos dos bondes. Os cobradores chacoalhavam as moedas na mão ou em uma bolsinha de couro a tiracolo, para que seu tilintar característico lembrasse aos “ilustres passageiros” que o serviço, apesar de público, não era gratuito.

Em relação ao jovem e brilhante hacker de Uberlândia, não seria o caso de fazer como Getúlio e, ao invés de mantê-lo preso, oferecer-lhe um cargo em alguma empresa de informática ou no próprio governo? A legislação brasileira é extremamente rígida com essa categoria de crime, mas até que valeria a pena abrir uma exceção. Quem conseguiu desvendar os rígidos sistemas de segurança informática de instituições federais de prestígio poderia, perfeitamente, prestar seus serviços para uma causa nobre, desenvolvendo mecanismos para evitar novas fraudes. É apenas uma ideia, para que o talento do jovem mineiro possa ser utilizado a favor – e não contra – o país. Antes que alguma quadrilha de falsários o contrate e ele volte a praticar os mesmos crimes, dessa feita com mais sofisticação e abrangência. Fica a sugestão.

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