Tudo sobre as eleições de março

Por David S. Moran

Depois de muito impasse, acusações de corrupção, coronavírus e falta de decisão para formar um governo estável, os israelenses irão pela quarta vez em dois anos às urnas tentar formar um governo responsável e estável.

Se no berço da democracia mundial, a Inglaterra e nos EUA, bastam dois e no máximo três partidos, no Estado de Israel, com pouco mais de 9 milhões de habitantes, nada menos de 39 partidos e legendas se registraram para as eleições de 23 de março. A grande maioria são legendas de egos pessoais ou pura curiosidade. Exemplos não faltam: legenda dos Piratas, da Maconha, O Impossível é possível, Só Saúde, dos Aposentados e vai por aí.

Esta será a votação para a 24ª Knesset (o Parlamento israelense, em Jerusalém), em quase 73 anos. Nas últimas eleições, há um ano, participaram 29 siglas e só 8 obtiveram a porcentagem mínima de 3,25%, para colocar na Knesset pelo menos 4 deputados, do total de 120. As demais 21 legendas obtiveram, todas juntas, 37.000 votos, a grande maioria menos de 1.000 eleitores

A atual barreira (3,25%) para entrar na Knesset, foi reivindicada por Netanyahu, a fim de barrar as legendas árabe-israelenses. Saiu tiro pela culatra. Os 4 partidos rivais, desde o Partido Comunista, com ativistas árabes e judeus, passando pelo Balad, nacionalista pró palestino, até o Raam, da Irmandade Muçulmana, uniram-se e no auge chegaram a 15 deputados.

Os principais partidos

LIKUD

O mago político Benjamin Netanyahu costura e divide os adversários para o seu próprio benefício. Nomeou pessoas de sua confiança para servirem de Conselheiro Jurídico do Governo, mas quando este resolveu indiciá-lo por fraude, suborno e favorecimentos, virou “inimigo do povo”. Nas últimas eleições, de março 2020, não conseguiu obter maioria para formar novo governo. Conseguiu convencer o seu maior oponente, “que de jeito nenhum sentarei num governo com Netanyahu”, o recruta político e ex-Comandante das Forças Armadas de Israel, General (Res.) Beny Gantz, que com a sua legenda, obteve apenas 150.000 votos a menos, a dividir a sua legenda, sob a promessa de que “bli triquim ve shtikim” (sem truques e malandragem), seria o Primeiro Ministro depois de 18 meses e também o Ministro da Defesa.

No Likud do legendário Menchem Begin isto não aconteceria. No Likud dos nacionalistas e liberais a palavra estava acima de tudo. Até o orgulho de ser o único partido realmente democrático, no qual seus membros votavam nos seus representantes para a Knesset, Netanyahu rompeu. Pediu para nomear seis candidatos e pelo menos três, em lugares realistas e ninguem lhe negou. Mesmo que tenha passado para trás seus mais fiéis adoradores, como o líder da coalizão, deputado Miki Zohar, ou a deputada gritante, Osnat Marc. No 10º lugar colocou um publicista, que escreve a seu favor. Na 26ª posição, Netanyahu colocou a filha do seu desafeto e dos líderes do Likud e Ex-Ministro David Levy, Orly Levy- Abeqasis. Esta já passou por quatro partidos, inclusive o Trabalhista, nas atuais pesquisas obteve apenas 0,1% dos votos. Na 28ª posição, um candidato do Partido Religioso, União Nacionalista (*), para reforçar este partido e apoiá-lo.

O Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, consegue minimizar seus adversários de outros partidos e mesmo do seu próprio Likud. Nenhum de seus líderes, ou ministros do Likud, emitem um som sem a sua autorização. Suas atitudes são populistas: o Trump  costurou os Acordos do Abrão e Netanyahu gabou-se. Os Emirados estavam infectados com o COVID-19, mas para deixar a galera se divertir, transformou-os, em verde. Lá foi o israelense e conseguiu trazer mais coronavírus e seus derivados. Por um lado, conseguiu trazer milhões de vacinas (com todos os detalhes fechados por 30 anos) e instruiu a todos tomarem precauções. Por outro, ignorou as proibições rompidas principalmente por ultra-ortodoxos e pelos árabes-israelenses. Com a atual coalizão, consegue por anos afastar o seu julgamento, como o diabo que foge da cruz. Seria bom se Netanyahu, na sua posição, desse o exemplo pessoal à população e se conseguir provar, que “não tinha nada, porque não houve nada” (como dizia aos correligionários), todos o aplaudiriam de pé.

Se nos Estados Unidos, o presidente pode governar, no máximo oito anos, em Israel, a terra bíblica, devia ser o mesmo, pelo escrito: “o Poder corrompe”.

KACHOL-LAVAN (Azul-Branco)

Foi formado para as últimas eleições, por três legendas do centro: Yesh Atid, com Yair Lapid, Telem do Moshe Ya’alon e o recente Kachol Lavan. Pelas duas principais personalidades, ex-chefes do Estado Maior, Generais (Res.) Beny Gantz e Gabi Ashkenazi, os mais veteranos lhes cederam o lugar. Tiveram pouco menos que o Likud do Netanyahu, mas não conseguiram formar coalizão. A raposa do Netanyahu, conseguiu atrair o Gantz e houve cisão. O Kachol Lavan ingressou na coalizão e o Yesh Atid e Telem ficaram na oposição. Dos 33 deputados, 17 deputados entraram em cargos, que um ano atrás nem imaginariam alcançar. Atualmente, o Gantz foi deixado e só quatro deputados ficaram com ele no Kachol Lavan e pelas pesquisas, talvez não voltem à Knesset. Parece que decepcionou a si mesmo e aos que votaram nele.

YESH ATID (Há Esperança)

Fundado pelo ex-galã e apresentador de TV, Yair Lapid, é o segundo maior partido do país. Seu pai, também foi deputado da ala central e não clerical. Serviu como ministro do Tesouro no governo do Netanyahu (2013-15) numa “sociedade” com o Naftali Benett, do então Partido Habait Há’yehudi (O Lar Judaico), que foi Ministro da Economia. Lapid pressionou Netanyahu a reduzir o ministério de 30 para 24 pastas e reduzir a Previdência Social para os ultra ortodoxos se seus filhos não se alistarem ao serviço militar obrigatório. Netanyahu considera-o seu maior rival para formar o próximo governo.

TIKVA HADASHA (Nova Esperança)

Recentemente fundado pelo ex-deputado e ex-ministro Gideon Sa’ar, dos líderes do Likud, que ousou confrontar Netanyahu e se achou no ostracismo. Conseguiu recrutar um dos homens mais próximos ao Netanyahu, Zeev Elkin, e Dany Dayan, nomeado por Netanyahu para representar Israel em Brasília e que foi recusado pelo governo da presidenta Roussef, partindo para o posto de Cônsul Geral em Nova York.

LISTA ÁRABE ASSOCIADA (LAA)

Composta por quatro partidos árabes-israelenses, desde o Partido Comunista de Israel, passando pelo Nacionalista pró-palestino até os islamistas do partido considerado filial da Irmandade Muçulmana. Esta estranha composição foi criada para sobrepassar os limites impostos por incentivo do Netanyahu. Tem 15 deputados na 23ª Knesset. Sentindo a proximidade das eleições, Netanyahu, procurou dividir esta representação árabe-israelense, atraindo o deputado mais islamista da LAA, Mansour Abbas, prometendo-lhe melhorias para a população árabe. Conseguiu seu desejo, o deputado Abbas, desligou-se da LAA e corre numa lista própria. Pelos censos de opinião pública não entrará na 24ª Knesset. Netanyahu pelo visto conseguiu reduzir a representação árabe para nove deputados. Mas, tenta atrai-los, nomeando no Likud, um candidato árabe-muçulmano, na 39ª colocação, que parece irreal.

YEMINA (À Direita)

Fundado por Naftali Benett , dos religiosos nacionalistas, que de 2005 a 2008, serviu no gabinete do Netanyahu. Seu partdo substitui o tradicional partido religioso da corrente Mizrahi. Confronta o antigo “boss”, mas não se comprometeu que não integraria possível governo do Netanyahu, se este conseguir constituir novo governo.

SHAS

Partido haredi sefaradita, liderado por Arie Deri, eterno Ministro do Interior que, neste cargo, foi indiciado por corrupção e cumpriu anos de prisão. Netanyahu colocou-o de volta no mesmo ministério, pois é fiel aliado.

YAHADUT HATORÁ (Judaísmo da Torá)

Partido ultra ortodoxo formado por dois segmentos, do antigo Agudat Israel, representado pelo Ministro da Habitação, Yaacov Litzman, e pelo representante dos “Lituanos”, deputado Moshe Gafni.

ISRAEL BEITEINU (Israel, Nosso Lar)

Liderado por Avigdor Liberman, antigo amigo íntimo do Netanyahu e atualmente fervoroso rival. Casado com uma mulher religiosa e vive em um assentamento, mas exige liberdade de vida, alistamento dos haredim ao exército e se opõe aos privilégios dos ultra ortodoxos.

AVODÁ (Trabalhista)

Foi o partido do Ben Gurion e outros que fundaram o Estado de Israel. Nos últimos anos estava prestes a desaparecer do cenário político israelense. Se até o os governos do Netanyahu, o legendário David Ben Gurion tinha sido o Primeiro Ministro que mais governou o país, mas contou também com Ehud Barak, como o Primeiro Ministro de menor tempo no cargo. Nas últimas eleições, correu conjuntamente com Meretz (esquerda) e com Guesher (da Orly Levy). Depois das eleições, dividiu-se quando os deputados Amir Peretz, líder da bancada e o jovem Shmuli, resolveram integrar o governo do Netanyahu. A deputada Meirav Michaeli recorreu à Suprema Corte para realizar eleições para a liderança do quase moribundo partido. Venceu a liderança e será nas próximas eleições de março, a única mulher líder de partido. Conseguiu outra façanha, pelo menos nos censos, recebe sete mandatos.

MERETZ

Partido de esquerda, com o deputado Nitzan Horovitz como seu líder. Vai mal, pois sempre esteve muito próximo do desaparecimento e em algumas das últimas pesquisas ou não obtém o mínimo de votos para entrar na Knesset, ou está com 4 a 5 deputados.

HABAIT HAYEHUDI e OTZMÁ YEHUDIT (o Lar judaico e o Poderio judaico)

Formado pelo deputado Betzalel Smutrich, dos religiosos nacionalistas e ex-companheiro do Benett, na última hora juntou o adepto do extremista Kahana, Itamar Ben Gvir, para tentar entrar na Knesset e não perder votos, costurado pelo premier Netanyahu. O curioso é que a bancada do Likud, dos primeiros ministros Menahem Begin e Itzhak Shamir se opunham ao Kahana e saíam do recinto quando ele subia a tribuna do Parlamento. De fato, nas pesquisas, separadas, as duas agremiações não passavam o límite mínimo e, agora, juntos, conseguem o mínimo e algumas pesquisas apontam cinco deputados. No Likud há mal estar nesta costura do Netanyahu, mas prometem que não permitirão o Ben Gvir servir de ministro.

Como se nota, a vida política é bem complicada e, no momento em que enfrentamos tantos desafios e até mesmo cisões internas entre seculares e ultra ortodoxos, os desafios de certas partes da população na Judeia e Samaria contra as autoridades e o Irã e suas ameaças com as proxis da Hizballah e da Hamas, o povo devia estar mais unido e mais íntegro. Talvez nas proximas eleições algo mude.

Foto: Itzik Edri (PikiWiki)

2 thoughts on “Tudo sobre as eleições de março

  • 14 de fevereiro de 2021 em 16:25
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    Vira o estomago ler estas consideracoes tendenciosas e discriminadoras! Arrasa o PM Benjamin Netanyahu( odio absoluto demostrado nas observacoes desse Pseudo comentarista politico) eleito e reeleito por grande mayoria do povo israelense por ser o unico politico com representacao mundial. E eu nao sou admirador do Benjamin Netanyahu, mas a verdade deve ser dita e nao obstruida e deturpada por visoes esquerdistas odiosas. Basta ver os comentarios que faz a respeito dos partidos religiosos e os elogios aos partidos de esquerda e extrema esquerda. Se eu fosse o Diretor de Redacao da revista mandava o Moran ir para cas. Ele vai pouco a pouco destruir essa iniciativa de Revista Brasil. A menos que o editorial dela seja ser mesmo esquerdista e tendenciosa.

    • 14 de fevereiro de 2021 em 16:44
      Permalink

      Obrigado por manter sempre o tom respeitoso às opiniões divergentes em seus comentários.
      O espaço de blogs da Revista Bras.il é aberto e democrático. Outros analistas expressam opiniões diferentes da do Davis S. Moran. Nenhuma delas representa, necessariamente, a opinião de seus editores.

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