Coronavírus: mocinho ou bandido?

Por Nelson Menda

Calma, gente, não tirem conclusões precipitadas, mas a realidade é que o mundo não será o mesmo depois que essa doença tiver sido eliminada da face da terra, se é que algum dia a Covid-19 poderá ser, efetivamente, erradicada. Ainda não se sabe se teremos o privilégio de presenciar o dia em que, Baruch Ashém, uma dessas inúmeras vacinas que estão sendo pesquisadas poderá conferir imunidade a quem decidir tomá-la.

Mas será que o coronavírus teria provocado somente sofrimento e morte por onde passou? Não teria, por acaso, propiciado algum efeito benéfico a quem seguiu – ou deixou de seguir – as recomendações médicas? Perdi alguns queridos e bons amigos vitimados por essa virose, que deixou um saldo de vítimas fatais. São feridas que levarão muito tempo para cicatrizar e, em alguns casos, vão continuar abertas por toda a vida.

Todavia, ao analisar com a cabeça fria o que se passou nesses últimos e angustiantes meses é imperioso reconhecer que muita água passou por baixo dessa ponte e aconselho os leitores a fazer o mesmo. Podemos utilizar linhas distintas de raciocínio ao realizar uma análise criteriosa sobre os supostos malefícios e benefícios dessa pandemia, assim mesmo, nessa ordem. O primeiro deles propiciado pelo prolongado confinamento dos que conseguiram se isolar e, o segundo, pela análise do que ocorreu durante o tempo decorrido desde o momento em que começaram a despontar as primeiras notícias sobre essa – ao mesmo tempo enigmática e ameaçadora – enfermidade.

Enigmática por que, em alguns pacientes ela foi inteiramente assintomática ao passo que, em outros, de uma agressividade assustadora. Vou realizar uma análise baseada exclusivamente na minha observação e experiência pessoais e sugiro que os leitores que se interessarem pelo tema façam o mesmo. Foi minha primeira pandemia e espero, do fundo do coração, que também tenha sido a última.

Comecei a ficar desconfiado de que alguma coisa estranha estava ocorrendo com a sociedade brasileira por ocasião do último carnaval, que parecia não ter mais fim. Apesar do país estar atravessando uma prolongada crise econômica as pessoas pulavam e cantavam pelas ruas de forma descontrolada, em uma espécie de catarse coletiva. Desculpem a sinceridade, mas aquela alegria insensata me fez recordar o clima que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha.

O que já vinha me preocupando há algum tempo – e peço desculpas aos meus amigos e parentes de São Paulo – era aquele carnaval de rua que reunia milhares de pessoas na cidade-locomotiva do país. Já se tinha noticia de que uma séria enfermidade estava grassando no exterior, mas uma aparente cortina de desconhecimento e alienação parece ter baixado tanto sobre a Pauliceia quanto importantes cidades do país, como Rio, Fortaleza e Manaus. A ponto dos festejos de Momo, neste cinzento 2020, terem merecido um repeteco alguns dias depois da quarta-feira de cinzas, ou seja, tudo o que o famigerado vírus precisava para se disseminar em uma transmissão corpo a corpo. Estamos pagando um preço elevado por aquelas manifestações de insensatez coletiva, agravadas pela postura errática de certas autoridades frente ao problema.

Graças a esse conjunto de fatalidades, Pindorama, atualmente, é a bola da vez para a realização de testes com diferentes vacinas. Isso não deve ser motivo de orgulho patriótico, mas a constatação de que, por não termos feito o dever de casa na hora certa, nos transformamos em um dos grandes centros propagadores dessa enfermidade. Oxalá alguma dessas vacinas se mostre eficaz e possamos contar com uma arma poderosa para interromper o inexorável ciclo de padecimentos provocados pelo coronavírus.

Ainda está faltando analisar alguns aspectos positivos dessa pandemia e acredito que alguns leitores estejam torcendo o nariz – se é que isso seja anatomicamente possível – para essa visão menos pessimista dos acontecimentos. Todavia, no meu caso, é forçoso reconhecer a realidade dos fatos.

Quando essa virose se manifestou nos Estados Unidos eu residia em Miami Beach, na Costa Leste norte-americana. Em função dela me transferi, com armas e bagagens, para Portland, Oregon, do outro lado do país. Se, por um lado, fiquei livre dos devastadores e cíclicos furacões que assolam, de tempos em tempos, a Flórida, aqui na região do Pacífico as grandes ameaças não provém do mar, mas das entranhas do solo e das recorrentes queimadas. A explicação para os terremotos que já destruíram San Francisco no passado é uma falha geológica, batizada de San Andreas, que atinge quase toda a Costa Oeste, de Sul a Norte, e que termina, coincidentemente, aqui no Oregon. As construções mais recentes utilizam técnicas que permitem evitar danos em caso de tremores de terra, mas as casas antigas, à época em que foram erguidas, não dispunham desses recursos.

Como, para todo problema existe uma solução, meu genro, engenheiro, ancorou a casa quase centenária em que a família reside nos seus próprios alicerces, através da utilização de longos parafusos de aço. Segundo ele, com esse recurso evita-se que ela deslize na eventualidade de um terremoto. Tomara que não precisemos ver para crer.

Outro problema por aqui são as queimadas cíclicas, provocadas ou espontâneas. Essas últimas costumam ser detonadas por tempestades elétricas, quando fagulhas dos raios podem atingir tanto a copa das árvores quanto a relva seca do solo. Os ventos se encarregam de espalhar o fogo, que destrói tudo que encontra pela frente e provoca incalculáveis prejuízos materiais e humanos. Enquanto redijo este texto, o céu aqui em Portland varia do ocre ao vermelho e o ar está quase irrespirável, pela fumaça das queimadas que estão ocorrendo, neste exato momento, em diferentes localidades do Oregon e dos estados vizinhos de Washington, a Norte, e da Califórnia, ao Sul. Afora isso, tirando os meses de verão, em que o céu é azul e o sol brilha durante o dia, no restante do ano é tudo cinzento aqui em Portland. O que explica, em parte, o elevado índice de suicídios que ocorrem nesta cidade nos meses de inverno.

Mutatis mutandi, toda localidade tem seus prós e contras, mas o que motivou, em última análise, minha vinda para cá foi a possibilidade de estar perto das minhas filhas e netos. Se esse sentimento de família já é importante em tempos normais, durante uma pandemia, então, nem se fala. Esse desejo de reaproximação era latente, mas a virose foi o pontapé que permitiu detonar um processo que vinha sendo cozinhado em banho-maria há bastante tempo. Se vamos continuar, ou não, em Portland, ainda é cedo para saber, mas não dá para ignorar que essa pandemia exerceu um papel importante no processo decisório.

5 thoughts on “Coronavírus: mocinho ou bandido?

  • 17 de setembro de 2020 em 01:52
    Permalink

    Nelson, a pandemia mudou nosso papel no mundo. O tempo, às vezes longo, se tornou curto para tudo, especialmente para a realização dos sonhos. Perdemos este importante fator, mas ganhamos, a sociedade como um todo, maturidade. Isto não quer dizer empatia, senso de justiça ou algo mais sólido em função da existência do outro, mas um aperfeiçoamento do olhar. Abraços.

    Resposta
  • 17 de setembro de 2020 em 19:10
    Permalink

    Nelson, realmente a pandemia mudou o cenário, ainda não sei se para melhor ou pior, só o tempo dirá.
    A grande verdade é que ela mostrou que somos todos iguais, independente da classe social que ocupamos. Tivemos que aprender a conviver com a familia, conhece-la melhor.
    Pela minha ótica e vivencia, desejo um mundo melhor, mais justo, humano, com as familias mais unidas.
    É o que eu desejo e quero.
    UM FORTE ABRAÇO.

    Resposta
  • 17 de setembro de 2020 em 19:53
    Permalink

    Nelson.
    Seria coincidência? Vc.: “, mas o que motivou, em última análise, minha vinda para cá foi a possibilidade de estar perto das minhas filhas e netos.” Pois foi o que aconteceu comigo, saindo do Rio para Porto Alegre passei a conviver com a família da qual estava afastado desde a separação, dai que para mim foi este o lado bom do virus, onde incluo também rever alguns amigos dos que sobreviveram a idade, pois penso que sou um remanescente aos 87 anos de uma geração em extinção ou no agora denominado “Grupo de Risco” SARAVÁ!
    Grande abraço e Shaná Tová, Bernardo

    Resposta
  • 17 de setembro de 2020 em 19:55
    Permalink

    Nelson.
    Seria coincidência? Vc.: “, mas o que motivou, em última análise, minha vinda para cá foi a possibilidade de estar perto das minhas filhas e netos.” Pois foi o que aconteceu comigo, saindo do Rio para Porto Alegre passei a conviver com a família da qual estava afastado desde a separação, dai que para mim foi este o lado bom do virus, onde incluo também rever alguns amigos dos que sobreviveram a idade, pois penso que sou um remanescente aos 87 anos de uma geração em extinção ou no agora denominado “Grupo de Risco” SARAVÁ!
    Grande abraço e Shaná Tová, Bernardo

    Resposta
  • 17 de setembro de 2020 em 21:01
    Permalink

    Oi Mauro, Maria Tereza e Bernardo. Pelo menos todos concordamos que essa pandemia serviu para nos reaproximarmos dos amigos e da família. Como afirmou o Bernardo, somos duplamente sobreviventes, da idade e do vírus. Aqui em Portland, além da Covid ainda estamos sofrendo com as queimadas e a fumaça que cobre quase todo o estado. Nos refugiamos em Astória, uma cidadezinha histórica no litoral, onde o ar é um pouco menos poluído. Para viver – ou sobreviver – em Portland somente se dispusermos de um purificador de ar. Como não há mal que sempre dure, tanto a pandemia quanto os incêndios, mais dia, menos dia, vão terminar. Abs. Nelson

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *