Cristãos sionistas chegaram já em 1866

Por David S. Moran

Muito se fala em antissemitismo que, evidentemente, preocupa muito o povo judeu, já sofrido demais. Com menos destaque enaltecemos as pessoas, organizações ou mesmo governos que reconhecem os valores judaicos, são a favor deles e trabalham em prol de sua concretização.

Nesta segunda (1/6) fomos, com grupo de amigos, fazer uma visita à parte de Yafo, que era desconhecida para nós e nos deslumbramos. Escondido, num dos lugares mais exóticos de Tel Aviv, encontra-se a região chamada de Colônia Americana-Alemã, cuja história é mais fascinante ainda. A cidade de Yafo, no litoral do Mediterrâneo, é uma das cidades mais antigas do mundo. Seu porto está em funcionamento há 4.000 anos. Era a entrada principal de além-mar à Terra Santa.

O início do nosso passeio foi na Rehov Auerbach, 10, onde está de pé até os dias de hoje a casa de madeira, construída na década de 70 do Século XIX, com todos os componentes trazidos de Maine, EUA

Na foto acima: a casa original no lado direito, expandida na parte esquerda, hoje Museu.

Fomos recebidos pela simpática senhora Jean Holmes. Ela e seu falecido marido, Dr. Reed Holmes, vieram dos EUA e conseguiram salvar no último instante a destruição desta área que estava em ruinas e que daria lugar a novas e modernas construções.

A história destes evangélicos do Estado de Maine, EUA, é pouco conhecida. Voltemos na história. A Palestina, desde o Império Otomano, há mais de 300 anos, já era uma região desértica e não desenvolvida, apesar da sua riqueza religiosa, berço do judaísmo e também do cristianismo. Em 1865, o líder carismático cristão, George Jones Adams, acreditava no que constava das “escrituras” e queria concretizar a ideia de assentar os judeus em Eretz Israel. Junto com a sua comunidade, no Maine, fundou a “Associação de Emigração à Palestina”. Naquele mesmo ano, com um ajudante viajaram à Terra Santa e aportaram em Yafo. A cidade situava dentro de muros, assim como vemos atualmente a cidade velha de Jerusalém. Adams com o auxiliar, buscaram algum lugar fora dos muros, viram uma colina ao norte de Yafo e decidiram comprar uma área para construção de suas moradias e que serviria para a agricultura.

Em fevereiro de 1866, o reverendo Adams e Rolla Floyd pediram permissão ao Sultão para instalar uma colônia, não missionária, de agricultores e trabalhadores da terra. Após meses de preparação, em agosto de 1866, conseguiram congregar 157 americanos, dos quais a grande maioria eram crianças e jovens e que partiram de Jonesport, Maine, para a Terra Prometida.

Coincidência ou não, ao mesmo tempo, de 1882 a 1903, uma leva de cerca de 35 mil judeus da Europa e do Iêmen, emigraram a Eretz Israel, no que é chamada a “1ª Aliá”. Esta aliá, que praticamente dobrou a população judaica, fundou colônias e cidades novas, como Petah Tikva, Rishon LeTsion, Zichron Yaacov, Rosh Pina, Yessod Hamaala, Ness Tsiona e muitas outras. Grande ajuda econômica lhes deu o Barão Rotschild, que fundou vinhedos e até fábrica de garrafas em Tantura.

Em 1897, o Dr. Theodor Herzl, conseguiu reunir o Primeiro Congresso Sionista, na Basileia, Suíça, com 208 delegados de 16 países europeus e com importante cobertura jornalística. O final do Congresso foi festivo e emocionante, com os delegados citando: “Beshaná haba’á be Yerushalaim” ( No ano que vem em Jerusalém).

Os colonos americanos trouxeram do seu país as casas de madeira desmontadas e material agrícola. Foram provisoriamente instalados na terra desértica, ao norte de Yafo, em condições terríveis que provocaram muitas mortes, principalmente de crianças e jovens.

Muitos não resistiram e voltaram aos EUA. Por fim, as casas foram construídas, no que seria chamada a “Colônia Americana”. Sua intenção seria de ajudar os judeus a retornar para a sua terra. Como na inscrição abaixo:

Casa de Amizade Maine”. Atestado de Intenções. Fundado por americanos cristãos, porque “acreditamos que já é hora que o Povo de Israel retorne à sua pátria, a terra dos seus ancestrais, do seu longo período na Diáspora”. “Não temos intenções de intervir na sua crença religiosa… não temos objetivos missionários”.

As condições da terra, que não era fértil, e do clima, não ajudaram os colonos americanos e com o passar do tempo a grande maioria deles acabou por retornar ao Maine. Os cristãos amantes de Sion e dos habitantes naturais da Terra Santa, os judeus, não resistem às condições e retornam aos EUA.

Hoje mesmo, Jean Holmes, que mantém o Museu da Amizade do Maine, enfatiza que a crença deles é o povoamento da Terra de Israel com os judeus. De maneira alguma, tentar convertê-los ao cristianismo, como pregam algumas outras correntes do protestantismo.

Um dos líderes do grupo, Rolla Floyd, inicia transporte coletivo de Yafo a Jerusalém, nas costas de cavalos. Depois em carroças, chegando a traçar a linha férrea, mas esta não saiu do projeto. Ele foi o pioneiro na Palestina na criação do transporte coletivo. Tempos depois até foi agente da maior agência turística do mundo, a Thomas Cook. Sua casa original está atrás do Museu.

O fato de eles tentarem se estabelecer, onde em 1909, seria fundada a cidade de Tel Aviv e não conseguirem, prova as dificuldades que passaram os halutzim (pioneiros) judeus que enfrentaram doenças, como a malária, o clima e os combates com os árabes. Apesar disso, os sionistas estavam dispostos a enfrentar todas as barreiras e criar um Estado Judeu que serviria de modelo ao mundo.

As casas deixadas pelos cristãos sionistas americanos foram adquiridas pelos templários alemães que na metade do Século XIX se desligaram do protestantismo luterano e se auto proclamaram “o novo povo de Israel”. Chegaram a Haifa em 1868 e anos depois a Yafo. Construíram casas em Sarona, em 1871 (onde, até hoje, preservam suas casas restauradas, ao lado do Quartel General do Exército de Defesa de Israel). Em 1873, parte se estabeleceu em Jerusalém. Em todos estes lugares, são chamados de “Colônia Alemã”.

Depois da conquista da Palestina pelo exército inglês, parte deles foi expulsa por serem alemães. Com a subida do partido Nazista ao poder na Alemanha, suspeitava-se que elementos templários seriam simpatizantes do nazismo. Assim, em 1939 foram considerados pelos ingleses, “hostis”. A maioria foi expulsa, migrando para a Austrália. Em 1948, só pouquíssimos templários ficaram em Israel. A grande maioria deixou a região.

Entrelaçado no tempo com o Movimento Sionista, mas sem terem conexões, os judeus começam a retornar a Sion e, em 1906, planejaram a criação da primeira cidade judia, que não seja apenas um bairro judeu. Três anos depois foi colocada a pedra fundamental da cidade de Tel Aviv que se tornou a maior cidade de Israel e anos depois anexou o bairro de Yafo, passando a chamar-se Tel Aviv-Yafo. Tel Aviv perdeu a primazia para Yerushalaim depois da Guerra dos Seis Dias (1967), com a grande afluência populacional à Capital de Israel.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *