Dois pesos, duas medidas

Por Nelson Menda

Minha família paterna é constituída por judeus sefaradis provenientes da Turquia europeia, país que tem uma parte do seu território na Europa e outra na Ásia. Sua mais famosa cidade, Istambul, que já se chamou Constantinopla quando fazia parte do Império Romano do Oriente, também tem um pé em cada um desses continentes. Muita gente supõe que Istambul seja a capital da Turquia, mas a sede do governo fica em Ankara, que os turcos, inclusive da minha própria família, costumavam tratar, carinhosamente, por Angorá. Se o(a) amigo(a) leitor(a) imagina que o gato angorá provém de Ankara acertou, pois aqueles apreciados felinos tem, comprovadamente, sua origem genética na região da atual capital turca.

Os Menda, provenientes da Galícia espanhola – não confundir com a região de mesmo nome da Polônia, na Europa Central – foram recebidos como refugiados, de braços abertos, pelo Sultão Bayezid II. “São nossos irmãos”, teria afirmado o soberano turco, ao vislumbrar da varanda do magnífico Palácio Topkapi as centenas de embarcações que chegavam ao país conduzindo fugitivos da expulsão espanhola de 1492. Os Reis Católicos Fernando e Isabel, que imaginavam ser possível contar com uma Espanha totalmente cristã, foram os responsáveis pela desastrosa decisão de expulsar judeus e muçulmanos do recém unificado país.

Não era habitual, naquela época, que as pessoas do povo ostentassem nomes e sobrenomes. Utilizavam somente seus nomes, seguidos pela profissão, local de nascimento, alguma característica física ou, pura e simplesmente, filho/filha de fulano ou sicrano. Meus ancestrais, assim que conseguiram sair da Espanha e chegar, sãos e salvos, a um porto seguro na Turquia europeia, ao que tudo indica a cidade de Salônica, passaram a ser chamados, por exemplo, de Abrão, Isaac, Sara ou Ester …”de Menda”, como referência à aldeia espanhola de onde eram originários, prática conhecida como toponímia.

Com o passar do tempo e a adoção obrigatória de sobrenomes, o de Menda acabou se transformando em Menda, que ostentamos com orgulho até os dias atuais. Alguns deles permaneceram em Salônica (*), na época fazendo parte do Império Otomano e, atualmente, da Grécia, em uma espécie de jogo em que as cidades mudavam, a cada nova conquista, de domínio como se troca, hoje em dia, de roupa. Um ramo dos Menda se radicou na Bulgária, que também já fez parte do Império Turco. Meus ancestrais paternos se estabeleceram na localidade de Lule Burgás, na Trácia, Turquia Europeia, como já mencionei, onde permaneceram até às primeiras décadas do século vinte, quando uma parte migrou para o Brasil e, a outra, foi para Istambul.

Os judeus e cristãos que viviam no Império Otomano eram denominados dhimmis, ou seja, minorias protegidas pelos Sultões. Podiam viajar livremente por seu vasto território, possuir casas, terras, sinagogas, igrejas e ser donos de seus próprios negócios, mas eram obrigados a pagar ao governo um imposto mais elevado que o devido pelos turcos étnicos, ou seja, muçulmanos. Não podiam andar a cavalo, só em mulas e estavam terminantemente proibidos de envergar aqueles chapéus altos – e, na minha modesta opinião, bastante exóticos – que somente os turcos de raiz tinham permissão para utilizar. Todavia, é extremamente importante mencionar a existência de uma proibição formal aos dhimmis. Aos judeus e cristãos do sexo masculino era terminantemente vedado prestar o serviço militar, o que poderia representar, na realidade, uma verdadeira mitzvá (benção), como se diz em hebraico, para os pacifistas, pois os belicosos turcos viviam em permanente guerra com seus vizinhos.

Nessas cíclicas escaramuças era comum que os judeus hasteassem, na frente das suas residências, bandeiras da Grécia, Bulgária ou da própria Turquia, dependendo do exército vitorioso da ocasião e que o dono da casa, aos brados, gritasse para os soldados que passavam, a plenos pulmões, “yaudí, yaudí, yaudí”, ou seja, “judeu, judeu, judeu”. Era uma espécie de salvo-conduto para que ninguém se atrevesse a tocar em um fio de cabelo de seus moradores e, muito menos, nem sequer ousasse pensar em estuprar as moças daquela casa, como era costume nas guerras da época. Quem infringisse essas regras teria que prestar contas, no futuro, aos janízaros, os implacáveis e ferozes guerreiros do exército imperial turco.

Não era à toa, portanto, que o Haham Bashi, o Rabino-Chefe da Turquia, dispusesse de um trono bem ao lado da cadeira imperial ocupada pelo Sultão, claro que um pouco mais baixo, pois os dhimmis eram considerados turcos, mas de uma categoria inferior. Cabia ao Rabino-Chefe, entre outras tarefas, julgar as contendas envolvendo yaudís. Na Turquia dos Sultões os judeus eram, majoritariamente, de origem sefaradi ou romaniote (**) e suas principais comunidades estavam sediadas nas cidades de Istanbul e Izmir, que disputavam entre si o direito de indicar o nome do Rabino-Chefe do país.

Durante um desses períodos de indecisão, o trono do Haham Bashi ficou vago e o próprio Sultão teve de atuar como magistrado em uma importante contenda para julgar uma pendência sobre um assunto que, por coincidência, nós, brasileiros, conhecemos como a palma da mão. Tinha ocorrido uma licitação para escolher quem deveria fornecer os tecidos destinados à confecção dos uniformes para o exército imperial turco, assunto que envolvia muitas parás (dinheiro em turco). O dono da empresa que venceu a concorrência, de tanto ter de molhar as mãos dos funcionários do governo para conseguir aquinhoar o cobiçado butim, acabou sendo forçado a economizar na qualidade dos tecidos e condenado à morte por decapitação, pois os uniformes rasgavam à toa durante as batalhas. Depois desse trágico episódio, logo, logo as autoridades rabínicas do país resolveram fumar o cachimbo da paz e não permitir que o trono destinado ao Haham Bashi ficasse às moscas, mais para preservação dos respectivos pescoços do que o desejo sincero de selar a harmonia entre as duas coletividades.

Essa situação de relativa tranquilidade entre os judeus do Império Otomano perdurou por quase cinco séculos e acabou forjando o espírito alegre e descontraído que caracteriza os sefaradis turcos e seus descendentes até os dias de hoje.

Todavia, por essa mesma época as comunidades esquenazis da Europa Central passavam por provações de toda ordem, como o ocorrido com o ramo materno da minha própria família, originário da Bessarábia, atual Moldávia. Meus avós maternos, pequenos agricultores em Kaminka, precisaram construir, na sua propriedade, uma espécie de alçapão secreto para poder se ocultar durante os cíclicos Pogroms da Rússia Czarista e cristã.

Se os turcos, em tese, deveriam proteger as minorias não muçulmanas residentes em seu território, como explicar a implacável perseguição movida contra os armênios, que também eram dhimmis, e que se inicia, e segue em um crescendo, a partir de 1908? O que teria ocorrido para provocar a ira dos otomanos islâmicos contra a laboriosa, ordeira e pacífica coletividade armênia cristã que habitava a Turquia, ao mesmo tempo em que os judeus continuavam a ser considerados uma minoria que deveria ser protegida? Para quem quiser conhecer os detalhes dessa verdadeira tragédia recomendo assistir ao excelente filme “The Promise” – “A Promessa” em português, que acaba de ser lançado pela Netflix.

O que me motivou a redigir o presente texto foram exatamente as diferenças marcantes entre o que aconteceu, na Turquia, com os judeus e os armênios, vivendo em uma nação que tinha como compromisso autoassumido a proteção de suas minorias religiosas. É sabido que as histórias não se repetem, mas convém conhecê-las, para que os erros do passado não voltem a se repetir.

(*) Salônica, ao tempo da Segunda Guerra, fazia parte da Grécia e se constituía na maior e mais próspera comunidade sefaradi do Mediterrâneo. Os nazistas, ao invadir a cidade, transportaram seus habitantes em vagões de gado diretamente para o campo de extermínio de Auschwitz, poupando apenas os homens jovens para trabalhos forçados nos crematórios. Por não falar iídiche, mas grego e ladino, eles estavam impedidos de relatar aos demais prisioneiros o que se passava no interior do campo. O Museu do Holocausto, em Jerusalém, possui fotos e documentos de membros da Família Menda aprisionados em Salônica e mortos pelos nazistas, entre os quais de um casal jovem com seus dois filhos pequenos.

(**) Romaniotes eram os judeus aprisionados pelas tropas romanas depois da queda do Segundo Templo que, ao ser conduzidos, como escravos, para a capital do Império, o barco em que viajavam naufragou próximo à costa da Turquia. Já viviam há bastante tempo como refugiados, no Império Otomano quando ocorreu a expulsão dos judeus da Península Ibérica, em maior número. Os romaniotes falavam, originalmente, hebraico ou aramaico, ao passo que os sefaradis ibéricos o espanhol e o português, que deram origem ao ladino. As duas coletividades acabaram se mesclando e o ladino virou a língua comum dos judeus que viviam na Turquia.

Foto: GoTurkey (Sinagoga Beth Israel , Izmir)

6 thoughts on “Dois pesos, duas medidas

  • 3 de setembro de 2020 em 01:52
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    Como sempre, um excelente texto do querido amigo Nelson Menda. Abraço da Cecilia.

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  • 3 de setembro de 2020 em 03:24
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    Oi, Cecilia. Uma dúvida que me perseguia era a razão da diferença de tratamento que o governo turco propiciou aos “seus” judeus e armênios. Com exceção da fé, as duas coletividades sempre foram bastante parecidas, especialmente no que tange aos negócios. Meu pai, que nasceu e adorava a Turquia, tinha vários amigos e clientes armênios. Até hoje Istambul tem um bairro armênio e eu queria entender a razão a respeito dessa diferença de tratamento. Estou conseguindo compreender agora, quando comecei a pesquisar o motivo desse ódio mortal aos armênios, a ponto de ter ocasionado uma das grandes carnificinas da história, que acabou dando origem à palavra genocídio, por sinal criada por um historiador judeu. Um grande amigo que conquistei em Miami é um uruguaio de origem armênia, para quem fiz questão de encaminhar este texto que ele, por sinal, já leu e publicou seu comentário. Somando os seis milhões de judeus mortos no Holocausto ao milhão e meio de armênios no Genocídio, são sete e meio milhão de pessoas inocentes que, certamente, fizeram muita falta ao mundo. Bjs. Nelson

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  • 3 de setembro de 2020 em 20:39
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    Nelson, uma fantástica aula sobre a família Menda, sobre o Império Otomano, enfim, sobre os acontecimentos daquela época envolvendo os sefaradis.
    Parabéns.

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  • 4 de setembro de 2020 em 16:37
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    Outra pérola de esclarecimento sobre a comunidade judaica, Nelson. Primoroso o texto! Abraços.

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  • 6 de setembro de 2020 em 02:57
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    Gostei de sua narrativa, clara e didática.É natural que os judeus que viviam em várias partes do mundo, tenham sobrenomes relativos às suas origens. Hoje aprendi que Menda está relacionado à uma província da Espanha.
    Aquele bar que funcionava nas dependências do cinema Capitólio, mas com ligação direta para a Demétrio Ribeiro, era de propriedade de um armênio, Sr. Yosef Tarakadian. Certo dia, contou-me que saiu da Armênia porque não aguentou a perseguição dos Turcos. É um povo também muito perseguido.

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  • 6 de setembro de 2020 em 08:49
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    Oi, Feliciano. Atrás do açougue do sr. Eliseu, na Demétrio, existia uma vila de casas. Em uma dessas casas vivia uma família de origem armênia, cujo filho tinha mais ou menos a nossa idade e fazia parte da nossa turma de amigos. Os armênios, em geral, são empreendedores. Se vc. tiver NetFlix recomendo assistir o filme “The Promise”, que relata os pormenores da perseguição movida pelo governo turco a esse povo.

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