Vim, vi e venci

Júlio Cesar, 47 AC

Por Nelson Menda

A decisão de nos radicarmos nos Estados Unidos foi influenciada pela posição firme assumida por minha filha mais velha, Ana, durante sua adolescência. Ao retornar de Columbus, Ohio, onde passou seis meses em um programa de intercâmbio, ela foi categórica: “Pai, quero viver nos Estados Unidos”.

Entrei em uma sinuca de bico, pois a duras penas tinha conseguido me firmar profissionalmente na cidade em que sempre tinha sonhado viver, o Rio. Foi um enorme desafio, mas não havia como negar-lhe essa justa aspiração, especialmente pelo fato de pertencermos a uma família acostumada a enfrentar – e vencer – as maiores adversidades.

Se, por um lado, a preparação para o intercâmbio já estava praticamente mastigada pela empresa que administrava o programa no Brasil, a próxima etapa iria exigir um esforço muitas vezes maior. Fomos beneficiados pela realização de uma feira patrocinada por universidades norte-americanas que acontecia uma ou duas vezes por ano em um tradicional hotel do Rio. Passamos quase um dia inteiro trocando informações com os representantes de diversas instituições de ensino superior dos Estados Unidos presentes ao evento.

Chegamos em casa com uma coleção de folhetos ilustrativos, cada qual tecendo os maiores elogios a uma determinada escola. Afinal, eram elas que estavam patrocinando e arcando com os custos dessa feira. A próxima etapa a superar seria a seleção e escolha da universidade onde ela gostaria de se matricular e, caso fosse aceita, passar a frequentar pelos próximos anos. Estávamos na era anterior à internet e tudo precisava ser realizado manualmente, por intermédio de correspondência enviada e recebida pelo sistema postal, ou seja, com um dispêndio enorme de tempo.

Fomos auxiliados, nessa fase, pela orientação de um familiar que já residia há algum tempo nos Estados Unidos e conhecia as sucessivas etapas para permitir o ingresso de um jovem em uma escola de ensino superior naquele país. Foram conselhos preciosos que ajudaram a selecionar, dentre o material recolhido na feira e recomendações pessoais, seis instituições para as quais iríamos requerer ou aplicar, como preconiza o jargão para essas situações.

Solicitamos, por carta, para o “admissions office” de cada uma dessas instituições, a relação de documentos e comprovantes necessários ao pedido de ingresso. Não havia uniformidade, pois cada faculdade, denominada College, tinha sua própria sistemática. Era preciso estudar, de forma individual, o que cada uma delas exigia para o acesso aos seus bancos escolares.

Essa tarefa nos ocupou por um ano inteiro. Sentávamos, eu e ela, após a janta, todo santo dia, para ler, traduzir e entender o emaranhado de informações e documentos que teríamos de providenciar. Tanto a respeito da escolaridade prévia, nível de conhecimento do inglês, situação de saúde do candidato, prática de atividades desportivas e, principalmente, a respeito de quem iria bancar os custos com a universidade selecionada. Regra geral, as melhores faculdades eram as mais onerosas e, caso os familiares ou o próprio país do candidato não se dispusessem a bancar as despesas com o curso escolhido, ele deveria possuir qualificações excepcionais na área acadêmica ou desportiva.

Estou me referindo ao que acontecia há três décadas e é possível que muita coisa tenha mudado de lá para cá. Lembro, todavia, de alguns fatos que chamaram minha atenção à época. Um deles se referia ao tratamento diferenciado oferecido aos alunos provenientes da China, que tinham a preferência sobre as demais nacionalidades. A China ainda não era o gigante econômico dos tempos atuais e, verdade seja dita, muito deve ao apoio recebido dos Estados Unidos para a qualificação de seus estudantes. Também chamou minha atenção a existência, no estado de West Virginia, de uma universidade japonesa inteira, para que os alunos provenientes daquele país se familiarizassem, desde cedo, com os hábitos de vida e consumo dos norte-americanos. Afinal, seriam eles que iriam adquirir, no futuro, automóveis e eletrodomésticos Made in Japan, que acabaram cedendo a vez para os produtos Made in China da atualidade.

Selecionadas as seis universidades em que a Ana tencionava aplicar, o próximo passo seria enviar para cada uma delas as informações e documentos solicitados e procurar agendar encontros presenciais para conhecer as instalações dessas escolas. Foi uma sábia decisão, pois muitas vezes uma instituição de ensino intensamente incensada não passava de uma faculdade pp, ou seja, pagou, passou. E não foi só uma vez que isso aconteceu. Portando toda a documentação, marcamos uma viagem com destino aos States para o mês de janeiro, período de férias de verão no Brasil e pleno inverno naquele país. Iniciamos o périplo norte-americano por Nova Iorque, tendo de enfrentar frio, chuva e neve e, algumas vezes, não se conseguia, sequer, abrir a maçaneta do carro, por estar congelada.

Das seis universidades visitadas ela foi aceita em cinco e optamos pela de Connecticut, onde fomos muito bem recebidos durante a entrevista. O curioso é que a “Ohio State”, a Universidade pública da cidade de Columbus, onde ela havia realizado intercâmbio e já possuía um círculo de amizades, foi a única que não aceitou seu pedido de ingresso, talvez por duvidar da sua capacidade. Perdeu a oportunidade de abrigar em seus quadros uma conceituada profissional, não por ser minha filha, mas por seus próprios méritos, como veremos a seguir.

É importante mencionar que o fato de ser pública não significa que o ensino seja gratuito, como no Brasil. O sistema de ensino superior dos Estados Unidos poderia servir de modelo para nós, brasileiros, pois investia nos alunos mais capazes, independente de sua origem e nacionalidade. Usei, intencionalmente, a expressão no passado, pois o governo que acabou de ser derrotado nas urnas por aqui criou barreiras para a ascensão dos filhos de imigrantes. Oxalá o atual retome a tradição de hospitalidade norte-americana, que fez do país a nação líder do mundo.

Voltando à UConn, a Universidade de Connecticut, onde ela foi aceita e estudou por um bom tempo, o Campus de Storrs da instituição fica a duas horas de Nova Iorque por carro ou trem. Foi lá que ela frequentou o College, conheceu seu futuro marido e pai do meu neto mais velho, Noah, que já está com 16 anos.

Principiando pelo College, foi convidada a cursar o Mestrado, com bolsa integral e, a seguir, já na Universidade de Miami, para o Doutorado, também como bolsista. Atualmente ela leciona nessa conceituada Universidade, à distância, pois quando a pandemia suspendeu as aulas presenciais era uma das professoras que dominava o ensino online.

Além da Ana, a primogênita, chegou a vez da Fernanda, a caçula, que estudava Farmácia em uma Universidade pública no Brasil. Alguém assoprou no seu ouvido a respeito de um acordo, guardado a sete chaves, entre essa Universidade e prestigiadas escolas de ensino superior de diferentes países. Fernanda se interessou pela Universidade de Oklahoma, também nos Estados Unidos, uma das poucas que possuía o curso de Farmácia.

Também foi preciso reunir uma enorme papelada, mas já estávamos craques nesse campo e a vantagem é que poderíamos entregar a documentação pessoalmente, não mais em seis diferentes cidades norte-americanas, mas logo ali, do outro lado da Baía de Guanabara. Documentação preparada e entregue, toca a esperar uma resposta, que não chegava nunca.

Como macaco velho escolado na burocracia e malandragem verde-amarela, e já desconfiado de que a documentação deveria estar dormindo no interior de alguma gaveta, informei que iria viajar para Oklahoma em breve e poderia levar a papelada em mãos. Foi tiro e queda, pois acabei descobrindo que as vagas para realizar intercâmbio, sem custo, em diferentes universidades do mundo, estavam reservadas para os amigos do rei, ou seja, filhos e filhas de professores e funcionários da instituição.

Quando, finalmente, consegui chegar a Oklahoma, depois de uma acidentada viagem, minhas dúvidas foram confirmadas, pois a papelada, que tinha dado um trabalho enorme para organizar, nunca tinha saído do Brasil. Fomos bafejados pela sorte mais uma vez, por incompetência de uma funcionária, dessa vez, da própria Universidade de Oklahoma. A essas alturas já existia Internet, mas muitas pessoas não estavam familiarizadas com seu funcionamento. Levei comigo uma cópia da documentação que tinha sido entregue e continuava mofando em Niterói.

A responsável pelo Departamento de Estudantes Estrangeiros da Universidade de Oklahoma encarregou uma funcionária para tentar esclarecer o que teria ocorrido. Essa funcionária procurou, procurou e, como não encontrou nada, enviou um e-mail para sua chefe, sem se dar conta de que estava copiando a mensagem para mim. Escreveu, textualmente, “I dont know what this guy want”, uma forma grosseira de tratamento que corresponderia, em português, a “Não sei que m… essa cara está querendo”. Quando recebi a mensagem, me fiz de bobo e incluí, intencionalmente, o texto da funcionária incompetente e mal educada à Chefe do Departamento de Alunos Estrangeiros. Moral da história: a Fernanda não só foi aceita como aluna para cursar Farmácia na Universidade de Oklahoma, como também conseguiu, não um, mas dois semestres inteiros, arcando apenas com as despesas de hospedagem e alimentação.

Como existia, naquela época, um enorme déficit de farmacêuticos nos Estados Unidos, a contratação de profissionais do exterior estava permitida e ela conseguiu, após retornar ao Brasil e concluir a faculdade, um visto de trabalho, sonho dourado de todo aspirante a entrar legalmente e pela porta da frente na terra de Tio Sam. Enquanto aguardava, de volta aos Estados Unidos, resposta à solicitação de revalidar seu diploma de curso superior, aproveitou para cursar Mestrado em Ciências da Saúde na conceituada Universidade Saint Joseph, em West Hartford.

Ao contrário de Júlio Cesar, que precisou de seus fiéis legionários para vencer a Batalha de Zela, em 47 AC, tive a felicidade de contar com a dedicação e o esforço acadêmico de minhas duas filhas, cada qual em uma área específica do conhecimento. Era só uma questão de tempo, portanto, para que chegasse a minha vez de fazer as malas e me incorporar ao restante do grupo.

Foi um longo processo, que durou quase três décadas e exigiu um enorme esforço de todos nós, mas que valeu a pena, pois hoje estamos todos reunidos. Não mais no Rio, nem em Connecticut, na Costa Leste, estado que nos recebeu de braços abertos, muito menos em Oklahoma, no Centro-Sul, mas no Oregon, litoral do Pacífico. Guardo, de Connecticut, as melhores recordações possíveis, pois além de ter sido nossa porta de entrada nos Estados Unidos foi onde conheci pessoas maravilhosas e solidárias. Portanto, o que posso aconselhar a quem deseja estudar ou trabalhar no exterior é seguir o legado de Júlio Cesar, ou seja, vir, ver e vencer, como forma de transformar seus sonhos e aspirações em uma concreta realidade.

11 thoughts on “Vim, vi e venci

  • 10 de fevereiro de 2021 em 23:17
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    Excelente, Nelson!

  • 11 de fevereiro de 2021 em 02:44
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    Tio Nelson querido, acompanhamos de perto essa trajetória, mas foi uma delícia seguir o seu relato, tão bem escrito e cheio de detalhes.
    Saudades de todos vcs, beijos.

  • 11 de fevereiro de 2021 em 04:48
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    Minha intenção foi provar que, quando se deseja atingir um determinado objetivo, é preciso manter o foco e seguir em frente. Se bem que o mérito maior, no nosso caso, foi das meninas. Eu fui atrás, apoiando e, dentro do possível, oferecendo sustentação financeira. Houve um momento em que elas é que tiveram de segurar a minha barra. No frigir dos ovos dá para concluir que valeu a pena.

    • 13 de fevereiro de 2021 em 21:39
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      Nelson , saudades de vc. Delícia ler teus textos.Faço referência de vc e de uma crônica tua em um livro ,na realidade, um compêndio que estou concluindo sobre a história da comunidade de Belém e suas segulot.

  • 11 de fevereiro de 2021 em 12:38
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    Muito bom. Bela epopeia.

  • 11 de fevereiro de 2021 em 21:53
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    Oi, Cacá. Vc. participou, com o casal de bonecos Hart e Ford, da história da Ana. Assim que ela concluiu o College, em Hartford, Connecticut, os estados que formam a chamada New England introduziu o espanhol no ensino fundamental. Como não existissem docentes de espanhol em número suficiente, os governos desses estados bancaram sua formação e a Ana, que tinha se graduado em Comunicação e Inglês, acabou conquistando, também, o título de Professora de Espanhol. O pitoresco é que ela ganhava muito mais como professora primária de espanhol em Connecticut do que como Mestre e Doutora na Universidade de Miami. O segredo? Todos os professores preferiam viver no calorzinho gostoso da Flórida do que nos gelados invernos da Nova Inglaterra. Demorou até que as crianças da escola primária onde ela lecionava, com o auxílio do casal de bonecos Made in Porto Alegre, descobrissem que os dois, quando agregados, formassem o nome da cidade onde eles residiam e estudavam, HartFord. Esses bonecos foram de grande utilidade na alfabetização, em inglês, das crianças, geralmente filhas de pais porto-riquenhos que só falavam, em casa, o espanhol. Vc. também fez parte dessa epopéia, Cacá. Nelson

  • 12 de fevereiro de 2021 em 05:23
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    Eu considero uma dádiva conseguir contar uma estória tão bonita de 30 anos em uma lauda e ainda ficar de agradável leitura! Parabéns, Dr. Nelson, pelos textos sempre primordialmente redigidos e pela singradura percorrida por mares nem sempre calmos. Não vejo a hora de ler o próximo!!! שלום

    • 12 de fevereiro de 2021 em 20:25
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      Oi, Marcelo. Vc. acompanhou essa história desde seus primórdios. Só está faltando, agora, incorporar-se ao grupo, juntamente com a Camila, Pedro, José e a Tuquinha, que também não é de brincar em serviço. Abs. Nelson

  • 13 de fevereiro de 2021 em 03:33
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    Otima descricao! Na epoca eu achava que voce estava se precipitando em achar que o processo estava parado, mas olhando para traz fico orgulhosa que sua astucia tenha deduzido que nada ia acontecer sem necessaria intervencao. Obrigada por tudo!!

  • 17 de junho de 2021 em 00:08
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    Prezado articulista Nelson Menda. Eu estou aqui no Brasil a procura do Medico David Nelson Menda que na década de 50/60 foi escoteiro no RGS. Gostaria de saber se é realmente você. Te agradeço de antemão a atenção e o retorno

    • 22 de julho de 2021 em 00:23
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      Uma vez escoteiro, sempre escoteiro, Antonio Carlos. Sou eu mesmo. E tu, guri, por onde andas?

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