Fogo! Fogo! Fogo!

Por Nelson Menda

As recentes queimadas na Costa Oeste, que atingiram os estados de Washington, do Oregon, onde resido, e também da vizinha Califórnia, me obrigou a procurar refúgio, junto com filhas, netos e três cachorras de estimação em uma localidade onde não houvesse fogo e o ar estivesse menos poluído.

Em Portland, onde as chamas dos incêndios já tinham chegado às cercanias da cidade, estava ficando cada vez mais difícil respirar por causa da densa fumaça. Tínhamos duas opções: tentar pegar um avião para Las Vegas, no Estado de Nevada, cujo céu estava limpo, mas não sabíamos se o aeroporto de Portland estaria operativo, ou ir de carro até Astória, no litoral do Oregon, a duas horas de distância.

Astória venceu a parada e acabamos permanecendo não três, como tínhamos planejado, mas seis longos dias até que uma abençoada chuva conseguisse apagar os diversos focos de incêndio e limpar o ar da fuligem que dominava toda a região. Astória é uma pequena cidade histórica e turística localizada na foz do caudaloso Rio Colúmbia, que banha os estados limítrofes de Washington, a Norte, e Oregon, ao Sul.

O Colúmbia é o segundo maior rio dos Estados Unidos, atrás apenas do Mississipi. O embate constante entre o poderoso fluxo de água doce que desce do Colúmbia em direção ao mar e se choca com a vasta massa hídrica representada pelo Oceano Pacífico, à semelhança da nossa pororoca, criou uma barreira natural difícil de ser transposta pelos barcos que tentavam subir o rio. Esse obstáculo retardou bastante a colonização e o povoamento do interior dos dois estados a partir do litoral. As tentativas para adentrar o Colúmbia pela via marítima ocasionaram, nesses últimos duzentos anos, nada menos de dois mil naufrágios na foz daquele rio, com enormes perdas humanas e materiais. O Museu Marítimo de Astoria expõe em um grande painel os nomes das embarcações que foram a pique e as datas de cada um desses naufrágios.

Astória, por isso mesmo, além de seu valor histórico, é um estratégico porto marítimo e importante centro pesqueiro, pois as frias águas do Pacífico se constituem no habitat ideal para a reprodução do salmão, do halibut, do bacalhau e de outras valorizadas espécies marinhas. No período de tempo em que permanecemos na cidade, à espera de melhoria na qualidade do ar em Portland, nosso cardápio não variou muito, pois almoçamos e jantamos, praticamente todos os dias, “fish and chips” ou “clam chowder soup”, pratos tradicionais da culinária litorânea norte-americana.

Além do seu rico patrimônio cultural e turístico, Astória foi a única localidade do território norte-americano atacada pela marinha japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Vale a pena realizar uma análise retrospectiva para que se possa entender melhor o que aconteceu naquela região. As ilhas de Atu e Kiska, integrantes do Arquipélago das Aleutas, um gigantesco colar constituído por 14 grandes e 55 pequenos acidentes geográficos no gelado Círculo Polar Ártico já tinham sido atacadas, ocupadas pelos japoneses e reconquistadas pelos americanos por mais de uma vez durante aquele conflito. Face à inexistência de aeronaves militares com grande autonomia de voo, a estratégia expansionista japonesa era ir conquistando ilha por ilha, como em um jogo de dominó, até conseguir alcançar o Alaska e, a partir daí, as cidades de San Francisco e Los Angeles.

O governo americano já tinha se dado conta dessa vulnerabilidade e iniciado, a partir de 1940, um ano antes, portanto, do ataque a Pearl Harbor, a erguer poderosas bases militares nas ilhas de Adak, Dutch e Fort Glenn, no Arquipélago das Aleutas. Montou nessa região um cinturão defensivo quase inexpugnável com 1.900 km de extensão, equipando-o com esquadrilhas de bombardeiros e aeronaves de observação.

As forças japonesas continuaram à procura de um ponto vulnerável no Pacífico e julgaram tê-lo encontrado, bem mais ao sul. O ataque surpresa dos japoneses à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, na manhã de 7 de dezembro de 1941, um domingo, representou um divisor de águas que praticamente obrigou os Estados Unidos, até então neutro, a entrar com todo seu poderio na Segunda Guerra, já no dia seguinte. A agressão à base americana representou, em questão de horas, nada menos de oito navios atingidos, 300 aviões destruídos, 2.400 militares mortos e um saldo de 1.000 feridos. Além de Pearl Harbor o Japão atacou e ocupou, nesse mesmo dia, a Malásia, Filipinas, Guam, Java, Tailândia, Hong Kong e Borneo, que vieram se somar à Manchúria, China e Indochina, atual Vietnam, anteriormente conquistados.

Os combates na chamada Guerra do Pacífico, entre as forças navais japonesas e norte-americanas que se seguiram a Pearl Harbor foram de uma incrível ferocidade e a revanche americana teve início em 18 de abril de 1942, quando 16 bombardeiros B-25 atacaram Tóquio. Três semanas depois, na Batalha do Mar de Coral, a força aérea norte-americana derrubou, em um único dia, 75 aviões japoneses e afundou dois de seus porta-aviões. Todavia, o golpe de misericórdia na até então invencível marinha nipônica aconteceu nas batalhas aeronavais de Midway, travadas de 4 a 7 de junho de 1942. Comandadas pelo Almirante Charles Nimitz, reconhecido por sua capacidade tática, as forças americanas afundaram, em apenas três dias, nada menos de quatro porta-aviões e um cruzador pesado japonês, além de ter derrubado 275 aeronaves. Com tantas baixas, a sorte do Japão estava praticamente selada e só restaria aguardar a rendição, que levou três longos anos para acontecer, depois do país estar praticamente destroçado pelos maciços bombardeios diuturnos de seu território e do lançamento de dois ataques atômicos às cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Exatamente duas semanas e um dia após o 7 de junho de 1942, data que simbolizou o aniquilamento da espinha dorsal das forças navais japonesas, o único recurso que restaria à agonizante marinha nipônica seria a realização de ataques pontuais ao adversário. Sem condições de enfrentar grandes forças aeronavais, o Japão decidiu desferir um golpe em pleno território continental norte-americano, o que nunca tinha acontecido anteriormente. Assim, em 22 de junho de 1942, o submarino I-25, da classe Type B, com um pequeno hidroavião acoplado ao seu dorso, recebeu a missão de bombardear uma fortaleza militar americana na região litorânea de Astória. O ataque falhou, pois as bombas não conseguiram atingir os alvos.

Uma nova investida, menos de dois meses depois, em 15 de agosto, dessa feita com balões e bombas incendiários, tentou provocar gigantescas queimadas nas densas florestas do Oregon. Os incêndios foram controlados pelas forças terrestres americanas e as únicas vítimas do fogo foram alguns poucos civis. Essa ideia de utilizar balões incendiários para provocar queimadas parece ter conquistado adeptos entre extremistas de outras regiões do globo. Só que esses grupos não se deram conta que o fogo pode representar uma arma de dois gumes, pois basta o vento mudar de sentido para que o feitiço se volte contra o feiticeiro. Essas mal sucedidas investidas militares japonesas no Oregon foram as únicas ocasiões em que o território americano foi diretamente atingido naquele conflito.

Atualmente, na área em que ocorreu o frustrado bombardeio, existe uma casamata de concreto inteiramente preservada, no centro de um belo parque emoldurado por pinheiros nativos, por sinal bastante visitado por turistas japoneses. Pelo menos foi o que constatei, há poucos dias, quando estive no local. Teria sido uma simples coincidência ou os visitantes, bastante jovens, seriam descendentes de militares nipônicos que participaram do embate? É uma pergunta que, provavelmente, vai ficar sem resposta, pois me limitei a observar, à distância e do interior do carro, até mesmo porque as antigas fortificações estavam fechadas à visitação, por causa da Covid.

Estados Unidos e Japão, superadas as hostilidades e cicatrizadas as feridas do passado, atualmente são amigos e aliados incondicionais e Astória é uma localidade fantástica que merece ser visitada. Pouca gente sabe, mas o Brasil e o Japão nunca entraram em guerra, até mesmo porque não houve qualquer agressão ou hostilidade entre os dois países. O Brasil declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista depois que nossos navios mercantes começaram a ser torpedeados por submarinos desses dois países, provocando a morte de milhares de inocentes vítimas civis. É importante salientar que a entrada dos Estados Unidos na guerra, depois da desastrada intervenção das forças japonesas, praticamente mudou o curso daquele conflito, que até então apontava para uma possível vitória das forças do Eixo. Nesse particular, podemos concordar com o ditado de que há males que vem para o bem.

Foto: Steve Morgan (Wikimedia Commons)

3 thoughts on “Fogo! Fogo! Fogo!

  • Pingback: Fogo! Fogo! Fogo! - Rede Israel

  • 4 de outubro de 2020 em 20:42
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    A narrativa da região está sumamente interessante e atrativa. Depois de saber de tudo isto, quando a pandemia acabar, acredito que irei conhecer a região. Nelson também é cultura! Adorei!
    Abs.

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  • 5 de outubro de 2020 em 00:01
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    Oi, Vani. Vcs. vão adorar Astória.

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