Há que curar o coronavírus e a democracia em Israel

Geralmente o que acontece em Israel num dia, não acontece em outras partes do mundo em uma semana ou mesmo num mês. Desta vez, o mundo todo está preocupado (com razão) com esta maldita pandemia do Coronavírus e até parece que o mundo parou por alguns instantes.

Os noticiários só falam no avanço, na contração, nas medidas que a população tem que tomar para conter o vírus. Parece que não dá para falar mais de outra coisa, ou será que nada mesmo acontece fora o trato do Coronavírus?

Um bom lado que acontece é que num instante de mágica, o conflito árabe/palestino-israelense não mais interessa à mídia. Ninguém relata nada e graças a Deus não há o que relatar. As “marchas do retorno” estão suspensas até que o tempo melhore, na primavera. O lançamento de mísseis está parado, ninguém gosta de combater no inverno, com chuvas e frio e acima de tudo, o Coronavírus preocupa tanto os árabes quanto os israelenses e eles entendem que ninguém lhes dará ajuda, a não ser os israelenses. Tanto a Autoridade Palestina, quanto o regime da Hamas na Faixa de Gaza, estão coordenando forças para conter a disseminação nesta pequena região. Israel lhes fornece até aparelhos para detectar o vírus.

É tempo crítico para os políticos israelenses. O Likud conseguiu nas eleições de março com 36 deputados tornar-se o maior partido do Knesset, de 120 deputados. Por outro lado, no regime parlamentarista de Israel, isto não foi suficiente, o partido Kachol-Lavan do Gantz, conseguiu formar o maior bloco, de 61 deputados, contra os 58 formados pelo Likud. O seu partido recebeu a adesão da Lista Árabe Conjunta (LAC), Avodá-Guesher-Meretz e Israel Beiteinu. A grande divergência aconteceu na coalizão partidária do Avodá-Guesher-Meretz. A deputada Orli Levy Abukessis revoltou-se contra a intenção da coalizão centro esquerda, de formar bloco com a LAC. Ela que já foi do Likud, Israel Beiteinu, Guesher, etc pediu para se desligar da coalizão que integrou recentemente, com Avodá e Meretz. Outros dois deputados, Tzvika Hauser e Yoaz Hendel (foram muito próximos do Netanyahu e o deixaram), da ala direita do Kachol-Lavan, se recusam a aceitar apoio da LAC, que tem deputados abertamente apoiadores de terroristas palestinos. Ainda não se sabe se o Gantz, que recebeu no domingo (15) a incumbência do Presidente Rivlin (foto), de tentar formar um novo governo, terá o apoio desses dois deputados. Mesmo assim, o bloco do Gantz teria o mínimo de 59 contra 58 votos. No entanto este governo seria muito frágil e instável. Os deputados árabes poderiam torpedear muitas ações de represálias contra Hamas ou a AP e também fazer exigências inaceitáveis.

Benny Gantz,  e Reuven Rivlin

A população árabe-israelense tem direito de estar representada no Knesset e sua grande maioria quer se integrar ao Estado de Israel. Por outro lado, os deputados que elege não refletem o seu desejo e são criticados por eles mais representarem os palestinos dos Territórios Ocupados do que os seus eleitores árabe-israelenses. As ações e manifestações da LAC são revoltantes e se o Gantz formar governo de minoria, provavelmente seus dias serão curtos.

Netanyahu que continua a segurar-se nas cornetas do altar, aproveita-se da situação e pediu para formar governo de “emergência”, não de unidade. Depois de lançar tanta lama e difamação no rival, nenhum dos dois confia um no outro o que dificulta esta formação.

Avigdor Lieberman do Israel Beiteinu, diz que não haverá 4ª eleição. Já declarou há meses, que os dois grandes partidos deveriam formar governo de unidade, já que teriam 69 deputados e ele com seu partido (sete deputados) os apoiaria, mesmo se não entrasse no governo. Mas, ao mesmo tempo, diz: “Conheço o Netanyahu muito bem, concluí que sua chamada – para formar governo de emergência – não é real. Seu objetivo estratégico não mudou, ele quer Lei que suprima a Suprema Corte, mais a Lei Francesa [proíbe julgar o dirigente do país, no exercício da função]”.

Como se nota, ninguém confia em ninguém. Enquanto isto, parece que o Netanyahu se prepara para a quarta rodada de eleições. Há uma semana que aparece diariamente em cadeia de TV nacional, no horário nobre para falar do Coronavírus, o que poderia ser feito pelo Ministro da Saúde, ou seu Diretor Geral.

Ao mesmo tempo, seu fiel “Sancho Pança”, Ministro da Justiça interino, Amir Ohana, na madrugada de segunda baixou portaria de que as cortes não se reuniriam esta semana. Assim adiou o julgamento do Netanyahu que teria inicio em 17 de março para 24 de maio, “sem que tivesse intervenção política”, completou.

Outro fato antidemocrático foi a aprovação na calada da madrugada, do uso dos meios cibernéticos do Serviço de Segurança Geral (Shabak), invadindo a privacidade dos cidadãos para ver quem infringiu a ordem de confinamento devido ao Coronavírus e com quem se encontrou. Ao mesmo tempo o presidente do Knesset, deputado Yuli Edelstein, do Likud, não convoca sessão do plenário, para escolher as novas comissões do Knesset e pelo fato que Kachol Lavan quer trocá-lo por deputado seu. É que o presidente é quem convoca as sessões e as coisas a serem discutidas. Entre outras, querem passar leis como a que determina que deputado enfrentando julgamento criminal, não poderá ser nomeado para o posto de primeiro ministro. O Likud quer evitar a aprovação desta lei.

O impasse político continua e agora o Gantz recebeu 28 dias para tentar aprovar seu governo. Na terça (17) os deputados do 23º Knesset fizeram seu juramento. Pelas medidas preventivas, foi em 40 rodadas de três deputados cada. Na foto (de Gideon Sharon/Knesset Spokesperson), Netanyahu e Gantz, com Rivlin e Edelstein.

Enquanto isso, o Coronavírus foi se disseminando e agora temos 529 casos (19/3).

Grande parte do povo teme algumas ações antidemocráticas na única Democracia do Oriente Médio com estas medidas: não reunir os tribunais, alegando a causa do Coronavírus e adiando mais uma vez o julgamento do Bibi Netanyahu, o governo regulamentar o monitoramento dos cidadãos, pela primeira vez, não por motivo de segurança nacional e sem a vigilância parlamentar, a paralisação do Knesset e recusa do seu presidente, Edelstein – eleito em segundo lugar na bancada do Likud – no que se entende defender o Netanyahu de enfrentar a justiça e a deslegitimação da Justiça e da Policia.

O jornal francês Le Monde acusou ontem que: “Netanyahu usa a Coronavírus para paralisar o Parlamento”. Um dos mais conceituados comentaristas políticos, Nachum Barnea escreveu (19) no seu jornal Yediot Ahronot: “Com todas as fraquezas do regime em Israel, uma coisa foi preservada: respeitar as eleições. Rabin entregou a cadeira ao Begin, Shamir passou ao Rabin, Peres a passou ao Netanyahu, este a passou ao Barak. Barak a entregou ao Sharon, Olmert a entregou ao Netanyahu. Nenhum deles gostou do momento que teve de fazer suas malas da residência oficial, mas cada um entendeu que não tem alternativa. O que está na pauta, não é só a lei, a justiça, as regras do jogo, senão a confiança do público no regime, no Estado”. No que expressou Netanyahu esta semana em outro assunto: este não é o jogo.

A isto se adiciona o fato de uma caravana de carros, em que israelenses foram espontaneamente convocados, a viajar para Jerusalém, com bandeiras de Israel e negras protestar em frente ao Knesset. Centenas de carros viajaram ordenadamente e na subida para a Capital a polícia os deteve e impediu que chegassem a Jerusalém. Houve discussão e ninguém quis assumir a responsabilidade deste ato policial.

Também foi difícil explicar a revelação de que o Mossad trouxe para Israel 100 mil kits de testes para Coronavírus e logo depois de trazê-los, na madrugada da quinta (19). Pela pressa da revelação e ao mesmo tempo de dizer que trará mais quatro milhões. O vice Diretor Geral do Ministério da Saúde, Prof. Itamar Groto ofuscou um pouco a alegria dizendo: “isto não é o kit que precisamos”. Logo depois, Netanyahu o contradisse: “este é o equipamento necessário e é essencial”. Aí veio o Diretor Geral do Ministério da Saúde e alegou: “são kits importantes e bons. Agradeço ao diretor do Mossad”. Este é Yossi Cohen, cogitado para ser o sucessor do Netanyahu na politica. Só que o Chaim Tomer, que foi diretor do Departamento de Relações Exteriores com outros órgãos de Segurança Internacionais, mostrou-se surpreso. “Já que não foi revelação do Mossad, alguém teve este interesse, para que publicar?”, questionou. Ele serviu 30 anos no Mossad e deixou a organização em 2014 e nunca viu revelação similar. Parece que tudo gira em torno da politica.

O governo estreita as medidas contra o Coronavírus. Se no começo das ações de contenção, ordenou que não houvesse aglomerações de 5.000 pessoas, abaixou para 100 e depois para apenas 10 pessoas. Mesmo assim que tomem distância de dois metros um do outro, que não se abracem, beijem ou mesmo se toquem. O país está praticamente fechado e paralisado. Há licença de 65.000 trabalhadores palestinos de entrar no país, para dois meses, sem retornar à Cisjordânia. Quem pedir para voltar antes terá sua licença cancelada. Eles podem não pedir para voltar às suas famílias. Os hotéis israelenses estão com vagas e chamam os empresários para alojar os trabalhadores palestinos nesses hotéis que estão às moscas. Os dois lados ganhariam.

Um lado negativo é o comportamento de parte da comunidade ultra ortodoxa, Haredi. Enquanto as escolas, Universidades, teatros e lugares de aglomeração de pessoas estão fechados, muitas yeshivot haredim não acatam as instruções governamentais. Exemplo, o rabino Chaim Kanievsky, de 92 anos, instruiu seus alunos e seguidores a continuar estudando normalmente. Em Bet Shemesh, casamento de duas correntes hassídicas reuniu mais de 300 pessoas, numa clara desobediência. As consequências deste tipo de atos logo se notam. No subúrbio hassídico de Kiriat Yearim (Telz Stone) há uma família inteira de oito pessoas infectada e que a Coronavírus se espalhou para mais seis pessoas. O subprefeito ordenou quarentena de quase metade da população local. Assim o é na parte hassídica de Modiin e outras localidades. O incrível é que o Ministro da Saúde é Yaacov Litzman, ele próprio um hassid Belz, que é aliado do Netanyahu e junto com ele toda noite instrui a população para se isolar e assim conter a disseminação da pandemia da Corona. Até o momento, são atendidos parcialmente.

Benjamin Netanyahu  e Yaacov Litzman (Foto: AMMAR AWAD/REUTERS)

Outra comunidade desobediente é a árabe-israelense. Infelizmente, eles também não acatam as instruções das autoridades. Em muitas localidades suas, houve casamentos, festas, velórios e cidades com muitas pessoas aglomeradas, quando a instrução é fechar-se voluntariamente. Não aglomerar mais de 10 pessoas, quando cada um a pelo menos dois metros de distância.

Em Israel, estamos combatendo para evitar a dispersão do Coronavírus, mas este não é o único problema. O bonito na Democracia é a liberdade de expressão. O povo de Israel sempre teve mais de uma opinião. O Begin era um Democrata e Gentelman. Ele teria vergonha e não agiria na maneira que um dos seus sucessores no partido atua… A democracia israelense de que o país tanto se vangloria também está doente e há que curá-la.

One thought on “Há que curar o coronavírus e a democracia em Israel

  • 20 de março de 2020 em 11:31
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    nao entendo porque esta revista somente publica opinioes distorcidas de pseudos democratas que nao passam de esquerdistas disfarcados a bombardear o governo e a Bibi !! Pessoas como Moran ou Srour sao conhecidas esquerdistas que falam em democracia mas usam a liberdade deles para sabotar as iniciativas do governo de direita. Como neste caso em que por uma situacao de emergencia nacional de saude em que paises como a Italia, Espanha e outros perderam o controle total da doenca e estes miopes intencionais veem apenas o “perigo a democracia” e nao veem a saude da populacao em geral!
    O perigo e mundial e este governo esta fazendo o que e correto para evitar a doencase alastrar. Politica, interesses pessoais serao deixados para depois. Nao vai durar para sempre esta praga de virus, porem a praga de esquerdistas como estes anti-patriotas, anti-sionista e anti- religiosos infelizmente vai continuar depois, a nao ser que o virus pegue eles, o que provavelmente nao ocorrera ja que eles sao os primeiros a enfiar a cabeca no buraco para se salvar…

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