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Vim, vi e venci

Por Nelson Menda

Não lembro o ano ao certo, mas deve ter sido lá pela década de setenta do século passado. Eu já tinha me mudado de Porto Alegre para o Rio, que na época ainda se chamava Estado da Guanabara. A capital do país tinha sido transferida, alguns anos antes, da Cidade Maravilhosa para Brasília, mas o Rio ainda conservava uma aura de centro político, cultural e diplomático do país.

O Rio possuía uma série de hospitais públicos federais de primeira grandeza, herança dos antigos institutos de aposentadoria e pensões, em que os louros pertenciam ao IPASE, dos funcionários públicos, ao IAPB, dos bancários e ao IAPC, dos comerciários. Eram consideradas as estrelas de primeira grandeza da ampla constelação de hospitais públicos sediados naquela cidade. Trabalhar, como médico, em um desses hospitais era o prêmio maior que um profissional recém formado poderia almejar.

Em função de um dos muitos Atos Institucionais promulgados pelo governo militar estavam suspensas as admissões e demissões no serviço público federal e essa situação perdurou pelas próximas décadas. Face à ausência de concursos, a única possibilidade de fazer parte do corpo clínico de um bom hospital seria dispor de uma indicação política, jocosamente denominada, pelos cariocas, de Q.I. Mas Q.I., nesse caso, não se referia a coeficiente intelectual, mas sim a Quem Indica.

Como Médico Perito no mais afastado posto de benefícios da Previdência Social do Rio tinha de enfrentar 50 km de viagem, na ida, e outros 50, na volta, para ir e vir entre o apartamento de Ipanema, que compartilhava com um paulista que tentava, sem sucesso, ingressar na carreira diplomática. O Itamaraty ainda não tinha se transferido para Brasília e os melhores profissionais dessa área, tanto brasileiros quanto estrangeiros, continuavam lotados no Rio. A cidade era considerada, pela diplomacia mundial, como fazendo parte da chamada constelação “Elizabeth Arden”, que incluía, além dela, nada menos do que Londres e Paris. É doloroso constatar que, em apenas uma geração, o Rio entrou em um acelerado processo de decadência, mas não é esse assunto que tenciono abordar neste texto.

Eu não tinha a menor intenção de permanecer, pelos próximos anos, no distante Posto de Perícias Médicas da Av. Meriti, no bairro do Quitungo, longe de tudo e todos. Reconheço ter sido bafejado pela sorte, felizmente por mais de uma vez. A fase favorável teve início quando atendi, no Hospital Pedro Ernesto, onde fazia residência, um paciente que acabou mudando, para melhor, minha vida, e que se transformou em meu padrinho de casamento alguns anos depois.

Esse paciente estava com 60 anos, era portador de artrose da coluna cervical, que além das dores no pescoço e membros superiores, o impediam de trabalhar. Ele estava perdendo, pouco a pouco, a força e o controle das mãos. Estava decidido, em suas próprias palavras, a pôr fim à própria vida. A solução para seu problema era relativamente simples, apenas algumas sessões de fisioterapia, à base de tração cervical. Os cardiologistas que o assistiam, todavia, tinham contraindicado, formalmente, a realização de tração-cervical, que poderia, segundo ele me relatou, provocar a morte. Apesar da minha pouca experiência médica, eu já tinha indicado e assistido vários outros pacientes com patologias e indicações terapêuticas semelhantes e nunca havia presenciado ou tomado conhecimento de nenhum caso de óbito provocado por tração cervical, um procedimento fisioterápico corriqueiro. Para tranquilizá-lo, me ofereci acompanhá-lo durante o tratamento fisioterápico, realizado em um prédio anexo do Pedro Ernesto, em Vila Isabel. O bairro era mais conhecido por estampar, em suas calçadas, a pauta musical de “Feitiço da Vila”, de Noel Rosa, e por sediar a escola de samba do mesmo nome. Acompanhei o paciente durante toda a duração do tratamento e ele conseguiu ficar livre tanto das dores no pescoço quanto da limitação de movimentos dos membros superiores.

A relação médico-paciente evoluiu para uma amizade que perdurou pelos anos seguintes. Ele tinha participado ativamente de vários episódios importantes na história do Brasil, assunto pelo qual sempre demonstrei interesse. Após a realização de uma série de sessões fisioterápicas o paciente adquiriu um novo ânimo e me surpreendeu com uma pergunta à queima-roupa: em que hospital eu gostaria de trabalhar? Tomei um susto, pois eu era um recém-chegado ao Rio e, além disso, as contratações para o serviço público estavam suspensas por causa do malfadado Ato Institucional. Eu não sabia, até aquele momento, que o paciente era amigo de infância do então Ministro da Previdência, que tinha o poder de nomear quem ele indicasse para o serviço público. Respondi, de supetão, que caso pudesse escolher, gostaria de ser lotado no Serviço de Ortopedia do Hospital de Ipanema, considerado um dos melhores da cidade. Foi tiro e queda e poucos dias depois pude trocar uma cansativa viagem de 100 km (50 de ida outros 50 da volta) por uma saudável caminhada de 15 a 20 minutos entre meu apartamento e o local de trabalho.

Essa indicação para o Hospital de Ipanema, onde trabalhei por décadas, mudou, para melhor, minha vida. Conheci pessoas que passaram a fazer parte do meu rol de amizades e onde permaneci até me aposentar. Por uma ironia do destino, aquele hospital maravilhoso foi se deteriorando, pouco a pouco, como grande parte do que acabou acontecendo no restante do país.

E o que ocorreu com esse paciente que mudou, para melhor, minha própria vida? Ficou fazendo parte, junto com sua família, do meu círculo pessoal de relacionamento. Foi um dos meus padrinhos de casamento religioso na Sinagoga da ARI, a Associação Religiosa Israelita do Rio. Aos poucos, consegui agregar minha atividade no serviço público à montagem de uma clínica particular, que funciona até os dias de hoje, sob a direção de um colega de especialidade.

Após a aposentadoria, por sugestão de uma das minhas filhas, casada com um norte-americano, requeri, respectivamente, um visto de residência e, a seguir, de cidadania, nos Estados Unidos, onde vivo há vários anos. Neste mês de novembro devo comemorar meu aniversário de 80 anos. Não tenho do que me queixar, pois a vida, Baruch Ha’shem, tem sido generosa comigo. Com uma das filhas residindo em Miami e a outra em Portland, no Oregon, gozo do privilégio de poder desfrutar o melhor tanto da Costa Leste quanto da Oeste do maior país do mundo. Aquele gurizinho de calças curtas da Leal e Valerosa Porto Alegre não poderia exigir mais da vida.

Minhas filhas torcem para que eu prorrogue minha estada no reino dos vivos e chegue, firme e forte, até os 95, mas como não sou exigente me contento com um pouco menos. Por incrível que possa parecer, apesar de aposentado tenho um rol enorme de compromissos para cada dia da semana, inclusive o sagrado dever de redigir e encaminhar este Blog para os leitores fiéis da Revista Bras.il. Foi por isso que denominei este texto com a máxima do imperador romano Júlio Cesar, que espelha com fidelidade o sentimento de gratidão à própria vida, especialmente às pessoas que tive o privilégio de conhecer e o prazer de conviver nesses 79 bem vividos anos.

2 thoughts on “Vim, vi e venci

  • Lenita

    Eu vou comemorar 82 anos em novembro. Também não imaginava chegar a tanto.Nós dois precisamos cantar como a Mercedes Sosa: ” Gracias a la vida que me a dado tanto” .E ,sobretudo , dar graças a Deus por Sua generosidade para conosco.

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  • Magale Dorfman

    Sempre aprendo muito com suas crônicas.Beleza de trajetória pessoal e profissional daquele gurizinho de calças curtas…Como já entrei nos oitenta, posso te assegurar que não dói…saúde e paz por esta data! As meninas estão lindas..
    ótima foto! Parabéns

    Resposta

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