A Partilha da Palestina em 1947 e suas consequências no mapa do Oriente Médio

Por Marcos L Susskind

A Comissão Peel havia proposto a divisão da Palestina em dois Estados Nacionais, um judaico e outro árabe – fato não aceito pelo lado árabe. A situação de confronto não diminuiu e então, dez anos mais tarde, em maio de 1947 a recém-criada Organização das Nações Unidas formou a UNSCOP, um comitê para propor solução para os conflitos. Os países árabes não viram a UNSCOP como instituição legal e se abstiveram de cooperar.

A ONU, sob a direção do brasileiro Oswaldo Aranha, se reuniu em 29/11/1947 para decidir o futuro da região após o fim do Mandato Britânico. Era sua reunião de número 128 e nela foi apresentado o Plano de Partilha, composto por quatro partes. A 1ª parte exigia o rápido fim do Mandato Britânico, que deveria ocorrer até 01/08/1948. Os britânicos aceitaram e se anteciparam, deixando o país em 14/05/1948. O plano propunha a divisão da Palestina a oeste do Rio Jordão em dois países, traçava as fronteiras e propunha uma união econômica entre eles, bem como exigia a proteção das minorias. A ONU tinha 57 membros, 56 dos quais votaram. 13 países votaram contra a solução proposta, a esmagadora maioria (9 votos) sendo países islâmicos. Os votos contrários foram de: Afeganistão, Arábia Saudita, Egito, Irã, Iraque, Líbano, Paquistão, Síria, Iêmen e quatro países não Islâmicos, Cuba, Grécia, Índia e Peru. Assim, sob o nome Resolução 181, foi aprovada a Partilha da Palestina.

O mapa aprovado daria ao Estado Árabe a parte central e oeste da Galileia, a Cidade de Akko, a região da Judeia e Samaria, o enclave de Jaffa e uma faixa costeira desde Ashdod em diante, englobando a atual faixa de Gaza e um pequeno pedaço do Neguev. O Estado Judaico seria composto pela Galileia Oriental, a faixa costeira de Haifa a Rehovot e o Neguev. Cabe notar que o Estado Árabe proposto contaria com 10.000 judeus que se tornariam cidadãos (1% da população do Estado Árabe) enquanto o Estado Judeu abrigaria 498.000 Árabes (45% da população do Estado Judaico).

A Agência Judaica que representava o lado sionista aceitou o plano, apesar de suas imensas limitações geográficas no que dizia respeito ao proposto Estado Judaico (73% do país seria deserto com extrema dificuldade de ser habitado).

Já o Alto Comissariado Árabe, representando os locais bem como os países árabes em geral, rejeitaram totalmente a ideia da partilha, afirmando que apenas a existência de um Estado Árabe em toda a área da Palestina seria consistente com suas demandas.

Nos preparativos para a votação houve muita pressão, tanto por parte dos simpáticos a Israel como dos que se alinhavam com o lado árabe. No entanto as ameaças árabes de perseguição maciça aos judeus em seus domínios trouxe à baila os horrores da recém terminada II Guerra Mundial. O Primeiro Ministro do Iraque, Nuri al Saíd disse que caso a solução fosse aprovada “medidas severas serão tomadas frente a todos os judeus nos países árabes.” Ele disse ainda: “nós esmagaremos o país com nossos canhões e vamos extirpar qualquer local onde os Judeus tentem se refugiar”. Por outro lado, Jamil Husseini, que representava os árabes da Palestina no Alto Comissariado Árabe afirmou: “o sangue correrá como rios no Oriente Médio”. Declarações similares vieram de diversos outros embaixadores árabes na ONU.

Uma vez aprovada a resolução, houve grande júbilo por parte dos judeus, com uma pequena minoria se colocando contra a forma da partilha – os revisionistas se opuseram sob a alegação que um Estado pequeno e com contornos tão estreitos seria indefensável e que seria necessária uma expansão territorial. A posição deles, em contraste com a posição da maioria liderada por David Ben Gurion criou uma ruptura que duraria muitos anos.

No lado árabe a rejeição à partilha foi unânime. O Comitê Político da Liga Árabe reunido em Sofar (Líbano) conclamou os árabes a lutarem contra “este e qualquer outro plano de partilha que nada mais é que uma agressão que deve ser combatida sem piedade”. Imediatamente após a aprovação, todas as delegações árabes na ONU declararam não se sentirem obrigadas a respeitar a resolução e abandonaram a plenária, acompanhadas pela delegação da Índia. A posição árabe já era esperada desde um mês antes, quando o Secretário Geral da Liga Árabe, Azzam Pasha, declarou: “Espero que os Judeus não nos forcem a entrar em guerra pois será uma guerra de eliminação e haverá um massacre que a história registrará da mesma forma que o massacre mongol ou o massacre dos Cruzados. Nós varreremos os judeus para o fundo do mar”. Também a liderança árabe na Palestina se mostrava hostil à partilha. Haj Amin El Husseini, a principal liderança muçulmana na Palestina declarou, às vésperas da Guerra de Independência, em março de 1948: “seguiremos lutando até aniquilarmos o último dos sionistas”.

Havia alguma dissidência entre os árabes locais. A importante família Nashashibi defendia a partilha e a formação de uma Federação entre o futuro Estado Árabe e a Transjordânia, ideia apresentada pelo rei Abdullah I da Transjordânia, que, seria assassinado em julho de 1951, enquanto orava na Mesquita de El Aksa, sob a acusação de ser um traidor que faria a paz com Israel. Muitos árabes locais também viam com bons olhos uma colaboração com os judeus que traziam oportunidades de trabalho, novas técnicas agrícolas e uma embrionária indústria local. No entanto a liderança de Al Husseini prevaleceu. No dia seguinte à resolução da ONU houve uma emboscada contra dois ônibus transportando judeus e três dias depois da resolução começaram matanças de judeus em Jerusalém bem como tentativa sem sucesso no Kibutz Efal. O último soldado britânico saiu de Israel à meia noite de 14/05/1948. Horas antes o Conselho Nacional Judaico proclamou a independência do Estado Judaico que recebeu oficialmente o nome de Israel. Já nas horas seguintes os exércitos de sete países árabes atacaram o recém-criado Estado de Israel: Egito, Transjordânia, Síria, Iraque, Arábia Saudita, Líbano e Iêmen a uma milícia local denominada Exército de Liberação Árabe.

A Guerra de Independência durou 10 meses (com interrupções de cessar fogo). O resultado foi dramático em diversas áreas. Houve 6373 Judeus mortos (2400 civis), 4700 soldados árabes mortos e cerca de 5500 árabes palestinos (tanto milicianos como civis). Mas a parte mais dramática foi a perda dos árabes locais.

Como resultado da guerra, Israel manteve a totalidade das terras designadas pela ONU como seu território e ainda conquistou cerca de 50% do território destinado ao Estado Árabe. A Transjordânia conquistou 45% do território, a Judeia e a Samaria que acabou incorporando a seu território em 1950, quando mudou o nome do país para Jordânia enquanto o Egito conquistou e anexou a Faixa de Gaza.

É fundamental ressaltar que os árabes locais, a partir de 1948, em nenhum momento reivindicaram sua independência na Judeia e Samaria até 1967. Os movimentos que promoviam o terror desde lá buscavam estabelecer um país árabe em todo o território de Israel. A Organização de Libertação da Palestina foi fundada em 1964 e seu estatuto original, promulgado em 28 de maio de 1964, declara que a “Palestina, com as fronteiras que existiam no tempo do Mandato Britânico, é uma unidade regional integral e indivisível” (artigo 3) e que o objetivo da organização é “proibir a existência, a presença e a atividade do sionismo que é um movimento ilegal” (artigo 20). Chama ainda mais a atenção a redação do artigo 24: “Esta Organização não exerce qualquer soberania regional sobre a Cisjordânia do Reino Hachemita da Jordânia, na Faixa de Gaza ou na área de Himmah. Suas atividades serão no nível nacional popular nacional na busca da liberação, da organização, no nível político e financeiro”.

Na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, Israel enfrentou os exércitos do Egito, Síria, Jordânia e Iraque e, marginalmente, do Líbano. Como resultado desta guerra, Israel conquistou, a Oeste, a faixa de Gaza e o Deserto de Sinai, a Leste as áreas de Judeia e Samaria (cujo nome havia sido mudado para Cisjordânia quando incorporada ao território da Transjordânia, em 1950) e a Nordeste as montanhas do Golan.

Com o acordo de paz com o Egito, Israel devolveu os territórios conquistados, porém o Egito se recusou a receber a Faixa de Gaza. Em 1988 a Jordânia renunciou à área da Cisjordânia, seus habitantes perderam a cidadania Jordaniana e a região da Judeia, Samaria e Faixa de Gaza passaram a ser reivindicadas como área do futuro Estado Palestino pela OLP e o Fatah. Por outro lado, o Hamas e a Jihad Islâmica, forças majoritárias na Faixa de Gaza, seguem buscando a eliminação de Israel.

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