Abobrinhas

Por Nelson Menda

Escrever, todas as semanas, um novo texto para este Blog não deixa de ser uma tarefa agradável, especialmente para quem está com a cabeça cheia de ideias, mas devo confessar que, desta vez, a coisa ficou um pouquinho mais complicada – e já explico a razão. O ideal, na minha concepção, seria alternar textos sérios com reminiscências do passado, mas meus dois hemisférios cerebrais estão enviando, simultaneamente, mensagens contraditórias.

Só me resta, nesse caso, abordar um assunto bastante interessante, a respeito da pianola, antigo instrumento musical que fez parte da minha infância e que nem todo o mundo teve a oportunidade de conhecer e escutar. E deixar para uma próxima oportunidade a redação de algum texto sobre a confusa situação do país, que se alterna a todo o momento. A pianola foi um instrumento que antecedeu à criação do sistema de reprodução musical por intermédio de cilindros magnéticos e discos de Thomas Edison.

Meu pai adorava ir a leilões e, graças a esse salutar hobby, minha infância pode contar, entre outras coisas, com uma coleção completa do Tesouro da Juventude, que ele deve ter arrematado em algum evento do gênero. Eram livros de capa dura e filetes dourados indicados, junto com as obras de Monteiro Lobato e Viriato Correia, para o público infanto-juvenil da minha geração. Junto com eles veio também uma Enciclopédia Universal em 20 volumes, que antecederam a criação do Google e ajudaram a saciar minha permanente curiosidade sobre tudo e todos.

Devido à moral conservadora da época não faziam a menor referência a qualquer assunto relacionado a sexo e sexualidade, que só consegui descobrir, a duras penas, quando encontrei, na prateleira mais alta da estante, os dois volumes do “Confissões de Um Médico de Senhoras”. Eram livros proibidos para menores, que abordavam mais as doenças e enfermidades ginecológicas do que a sexualidade propriamente dita. Freud, pelo jeito, demorou muito a chegar ao pampa gaúcho.

Além de uma completa coleção de dicionários, meu pai adquiriu em um leilão uma enorme e pesada pianola. Na verdade, um piano-pianola, pois tanto podia ser dedilhado de forma convencional como movido a pedais que insuflavam ar entre as ranhuras de rolos cilíndricos de papel. Cada rolo servia para a execução, ao piano, de uma peça musical distinta, geralmente do repertório clássico. Junto com a pianola chegou uma enorme coleção desses rolos, que formaram nossa primeira, não diria, discoteca, mas “roloteca”, com peças clássicas do repertório musical para piano.

Na parte inferior da pianola existiam dois pedais, cuja função era movimentar, de forma contínua, os tais rolos e impulsionar o ar pelos orifícios existentes nos mesmos. Cada orifício correspondia a uma nota musical e, à medida que se pedalava, as teclas do piano se movimentavam, como se estivessem sendo dedilhadas por alguma figura invisível, o que dava um aspecto meio mágico ao instrumento.

É forçoso reconhecer que era uma geringonça fantástica, pois além de prover, com perfeição, música da melhor qualidade, permitia a prática de uma saudável atividade física. Além do mais, servia para enganar os incautos, pois dava a impressão nítida de que a pessoa que estivesse pedalando fosse um verdadeiro virtuose do teclado.

Essa pianola foi companheira indispensável de distração e embromação de minha infância, juntamente com alguns dos meus tios e primos, que tiravam proveito com a chegada das visitas para fingir que tinham estudado piano e surpreendê-las com falsas apresentações musicais.

Tudo estava indo muito bem até o dia em que os foles de borracha, que serviam para dar vida ao complexo instrumento, pararam de funcionar e o único técnico que sabia consertar pianolas na capital gaúcha desenganou-a, pois não havia como repará-la. Uma lástima, pois deixei de “executar”, como fazia todo santo dia, a trilha sonora do “Barbeiro de Sevilha”, peça que me encanta até hoje, além de muitas outras do repertório musical. A pianola, despida de seus recursos mais criativos, se transformou em um piano convencional, que permaneceu por muitos anos em nossa casa.

Em paralelo, estudei violino por oito longos anos, o que me conferiu o título de, se não o pior, um dos piores violinistas do mundo, se bem que serviu para afinar o ouvido e me interessar bastante por música, hábito que cultivo até os dias de hoje.

O YouTube veio suprir, mais recentemente, a possibilidade de se escutar e assistir qualquer peça musical pelo número de vezes que se deseja, apesar da tradicional pianola bem que poderia retornar à vida nas Academias de Ginástica, como um complemento às atividades físicas. Enquanto estou pedalando na bicicleta ergométrica, mais por obrigação do que por prazer, faço questão de escutar, no laptop, minhas composições musicais preferidas, para passar o tempo, me distrair e não me dar conta da chatice e monotonia que representam, pelo menos para mim, as atividades físicas.

Na velha ACM, Associação Cristã de Moços, em Porto Alegre, as aulas de ginástica já eram cadenciadas por acompanhamento de piano ao vivo. Sem sombra de dúvida, a música representa um plus a mais para todos os momentos da vida, em especial para o período difícil que estamos atravessando.

Foto: MxAesir (Wikimedia Commons)

2 thoughts on “Abobrinhas

  • 18 de março de 2021 em 14:14
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    Saudades desta pianola. Quantas vezes sai de casa, dali da Fernando Machado, em direção a Demétrio Ribeiro, só pensando e antecipando o prazer de tocar na dita cuja. Era muito divertido e dava a sensação de se estar tocando mesmo. Bons tempos…

  • 18 de março de 2021 em 22:08
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    Um dos nossos tios, que infelizmente já nos deixou, organizava grandes saraus musicais com a presença de senhoras da melhor sociedade, para assistir suas performances cenográficas na pianola. Exagerava no gestual, sacudia a cabeça e impressionava o público. Lembro de uma delas comentar: “não sabia que o XXXXX tocava piano tão bem”. Qual o seu nome?

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