A guerra que ele escolheu

Por Deborah Srour Politis

Hoje estamos no 18º dia desta insana guerra da Rússia contra a Ucrânia. Durante a noite, Putin lançou mísseis na base de Yavoriv que fica a apenas 24 km da fronteira com a Polônia e bases da OTAN. Neste ataque até agora 35 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.

Isto é uma escalação importante da violência pois se qualquer míssil entrar no território polonês isso acionaria a cláusula 5 da OTAN, mobilizando todos os países membros contra a Rússia.

Mas a escalação não ficou aí. Vendo a completa falta de vontade do mundo de entrar em um outro conflito, a China ameaçou ontem qualquer nação que ofereça apoio militar a Taiwan prometendo “as piores consequências”. O discurso foi proferido um dia depois que o presidente chinês Xi Jinping se encontrou com representantes da Austrália na tentativa de reparar as relações internacionais. O ministro da Defesa, Peter Dutton, disse que a Austrália fará “o que puder” para impedir a China de agredir Taiwan. O Ministério da Defesa Nacional da China replicou dizendo que “ninguém e nenhuma força” poderia impedir Pequim de submeter Taiwan ao seu controle.

Tem mais. O Irã, sentindo-se colocado de lado, lançou 12 mísseis balísticos em direção à embaixada americana em Erbil, capital do Kurdistão no norte do Iraque. Não houve nenhum morto ou ferido mas os Estados Unidos chamaram o ataque “ultrajante”. Para se livrar das condenações, vejam só, o Irã disse que tinha alvejado bases secretas do Mossad.

As cobras levantam a cabeça quando o facão se distancia.

Este ataque ocorreu justo quando as negociações para ressuscitar o infame acordo nuclear entre o Irã, o Ocidente e a Rússia foram suspensas. É inimaginável que a América estivesse até esta semana sentada lado a lado com a Rússia negociando com o Irã um acordo ainda pior. Um que daria ao Irã a capacidade de desenvolver a bomba nuclear em três anos, mísseis balísticos e encher os cofres para sustentar grupos terroristas ao redor do mundo.

A Rússia tentou usar as negociações com o Irã para obter mais concessões dos EUA em relação às sanções contra ela por causa da Ucrânia. Isso irritou o Irã porque os aiatolás querem alívio das suas sanções o mais rápido possível. E agora estão tomando um chapéu da Rússia no último momento. Mas o Irã também está aprendendo com a Rússia sobre como lidar com o Ocidente, já que a invasão da Ucrânia, até agora, só demonstrou que há impunidade. Aonde chegamos?

Ontem à noite, o Presidente Trump num rally na Carolina do Sul, disse que durante sua administração, a mídia e os democratas histericamente gritavam que a personalidade dele iria causar a terceira guerra mundial. Trump corretamente afirmou que foi a personalidade dele que justamente manteve o mundo longe de uma guerra. E ele tem razão. E isso cala aqueles que ainda acreditam na conspiração russa para eleger Trump. Putin não se mexeu um centímetro quando Trump era presidente. E vejam onde estamos hoje com estes dois incompetentes na Casa Branca.

Se olharmos para a história e suas lições, vemos que a Rússia teve várias vitórias decisivas. A vitória sobre Napoleão, um gênio militar com mais de 700 mil soldados, foi tão improvável que se tornou um marco do nacionalismo russo. Foi ela que inspirou a Abertura 1812 de Pyotr Ilyich Tchaikovsky com suas trombetas, sinos e fogos de canhão. A vitória da Rússia sobre a Alemanha nazista também foi um triunfo monumental. Ambas estas vitórias foram obtidas em guerras defensivas e talvez este seja o ponto em comum entre a resiliência russa e a resiliência ucraniana, ao defenderem seu país.

Mas a Rússia também teve algumas derrotas espetaculares, e algumas delas lembram esta aventura de Putin na Ucrânia.

Em 1853, a Rússia invadiu a Crimeia e as terras otomanas na Moldávia e na Romênia de hoje. Esta guerra terminou com todas as conquistas russas perdidas junto com cerca de 400.000 soldados, enquanto os exércitos britânicos e franceses acampavam em solo russo. Não só a Rússia não conseguiu realizar seu objetivo de guerra, de ser reconhecida como guardiã dos cristãos do Império Otomano, mas seu exército perdeu o status de que gozava desde 1812, como o mais forte do mundo.

Em 1905, a derrota da Rússia para o Japão foi pior quando a Rússia enviou uma frota do Mar Báltico até o Extremo Oriente, onde foi rapidamente destruída pelos japoneses. Mas a Rússia não A derrota, a primeira de europeus pelos asiáticos em sete séculos, chocou o mundo e é vista como um prenúncio da queda da Rússia czarista na década seguinte. desistiu de suas ambições.

Mais desconcertante foi o desempenho da Rússia em sua guerra com a Polônia em 1920. Ela foi desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Polônia e ocupação de Kiev na primavera daquele ano, uma ofensiva que foi seguida por um contra-ataque soviético que empurrou os poloneses de volta para a fronteira. Tudo bem até ai. Mas agora superconfiante e esperando usar o impulso para espalhar a revolução comunista para o oeste, Lenin ordenou a invasão da Polônia, sem consultar seu governo e ignorando o conselho de outro militante Leon Trotsky.

O Exército Vermelho, então avançou para o oeste, apenas para ser detido fora de Varsóvia e depois empurrado para além de sua fronteira original. Foi uma derrota total, tanto militar quanto politicamente para a Rússia. A invasão da Finlândia em novembro de 1939 terminou com a vitória técnica dos russos, quando os bravos finlandeses acabaram se rendendo. Psicologicamente, porém, o poderoso Exército Vermelho foi derrotado, tendo perdido em quatro meses quase 200.000 homens, 1.100 tanques e 684 aviões, enquanto os finlandeses, que não tinham tanques, perderam 25.000 homens e 61 aviões. Foi um desempenho terrível por parte de um exército que enviou um milhão de homens para enfrentar apenas 300.000 finlandeses, 80% dos quais eram reservistas.

Ao contrário do recuo americano do ano passado, o fracasso soviético no Afeganistão refletiu a falência econômica, a decadência social e a morte política de um império moribundo. O medo do poderio militar de Moscou foi quebrado, uma transição mental logo alimentou o sentimento antissoviético no bloco e foi um dos motivos do fim da União Soviética.

Hoje, elementos desses fiascos estão ressurgindo à medida que os líderes da Rússia sucumbem novamente ao aventureirismo militar.

Como Lênin quando invadiu a Polônia, Vladimir Putin invadiu a Ucrânia sem consultar ninguém, iludindo-se de que suas tropas seriam bem-vindas, apenas para encontrar uma fúria nacionalista para a qual ele não estava preparado.

Como Stalin quando atacou a Finlândia, Putin não considerou a capacidade dos ucranianos para lutar e sua prontidão para morrer. Como Brezhnev quando atacou o Afeganistão, Putin não levou em conta suas fraquezas econômicas. Como Nikolai II quando atacou o Japão, Putin não percebeu as limitações de sua força militar. E como Nikolai I quando atacou a Turquia, Putin falhou em avaliar a resposta do mundo exterior.

De maneira mais ampla e mais trágica, Putin não reconhece que as grandes vitórias militares da Rússia foram conquistadas em guerras defensivas. Sua campanha na Ucrânia não vai gerar a vontade de lutar no povo russo. De fato, Putin está cortando toda e qualquer informação sobre esta guerra, chegando a criminalizar qualquer um que mostre o que está realmente acontecendo, protestando ou chamando isso de guerra.

Se alguma coisa, os elementos da glória militar da Rússia são agora implantados pela própria Ucrânia que escolheu atacar. Não está claro quanto os ucranianos se prepararam para esta guerra. A julgar por seu fracasso em construir abrigos antiaéreos, eles podem não ter tido uma estratégia preparada. Ainda assim, não importa quando e como nasceu, parece que a Ucrânia agora usa a estratégia que a Rússia usou contra Napoleão.

Napoleão esperava encontrar o exército russo em uma colisão frontal que era sua especialidade. Os russos, no entanto, evitaram tal confronto e, em vez disso, o atraíram para o interior, sobrecarregando seu esforço logístico, e continuamente ferindo suas colunas com ataques de guerrilha.

E é isso que os ucranianos estão fazendo: evitando as batalhas abertas e os combates aéreos para os quais os russos se prepararam. Agora, não importa como essa guerra termine, a Ucrânia demonstrou espírito nacional, desenvoltura militar e sabedoria política suficientes para sugerir que, mesmo para a poderosa Rússia, ela é grande demais para digerir e espinhosa demais para mastigar.

É por isso que há motivos para acreditar que, como os czares de 1853 e 1905, como Lenin em 1920, como Stalin em 1939 e como Brejnev em 1979, Vladimir Putin escolheu travar esta guerra e obterá para a Rússia, novamente outra derrota.

Imagem: PxHere

One thought on “A guerra que ele escolheu

  • 16 de março de 2022 em 16:53
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    Texto brilhante e esclarecedor sobre as origens das divergências que custam milhares de vidas inocentes !!

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