Igor Robin, de Haifa, escreve a um amigo

Tradução: Marcos L Süsskind

Quem me conhece sabe que eu não sou especialista em posts, e certamente não em posts longos e certamente não em histórias de suspense… Mas nesta semana aconteceu uma história incrível que eu quero compartilhar com você…

Como você sabe, eu tenho um filho que mora na Bielorrússia e vem para cá a cada 6-7 semanas para visitas.

Ele tem 6 anos e, desde os 5 anos, voa sozinho (com um comissário de voo que o acompanha no avião). O Corona mudou os planos de todos nós, e meu Danny ficou na Bielorrússia. O problema é que a Bielorrússia é um dos poucos países do mundo que não fazem nada na guerra contra a Corona. A vida continua como sempre, a liga local de futebol e de hóquei continuam como sempre, com multidões e transmissões para todo o mundo… lá não é um lugar seguro para estar, e certamente não para uma criança.

Sexta-feira passada, vi que no Domingo haveria um voo direto de Minsk para o aeroporto Ben Gurion, comprei uma passagem para meu filho e comecei a arrumar a casa.

Como você sabe, no Sábado um voo de Nova York aterrissou no aeroporto Ben Gurion e todos os passageiros se dispersaram sem supervisão do Ministério da Saúde para suas casas sem encaminhamento para um hotel de isolamento, então, no Sábado, emitiram uma nova diretiva que todos os residentes que retornam a Israel devem entrar em isolamento em um hotel.

Pensei em saber no Domingo como uma criança de 6 anos ficaria sozinha isolada num hotel, mas Sábado à noite meu cunhado me ligou e disse: “Vi em um dos posts do Facebook o número de telefone do Ministro dos Transportes Smutrich. Talvez você possa ligar para ele e perguntar o que fazer com o garoto?” Eu respondi cinicamente a ele: “Você devia me conseguir o número do Bibi para eu ligar.”

Claro que levei algumas horas para escrever para Bezalel Smutrich, – escrevi para ele na quarta-feira às 22:59, e apenas poucos minutos depois recebi uma resposta dele que ele entende a situação e que vai falar com o Ministério da Defesa sobre o meu problema e me pediu para falar no dia seguinte com o chefe de gabinete do Ministro da Defesa, Itai Hershkowitz… Para mim, como um simples cidadão, certamente teria sido estranho receber respostas em tempo zero de altos funcionários – acho que cada um de nós se sentiria semelhante nesse tipo de situação – e este é apenas o começo da história…

No dia seguinte, Domingo, escrevi para o chefe do Ministério da Defesa, Itai Hershkovich, e algumas horas depois ele fez uma teleconferência comigo e com os funcionários da Defesa da Retaguarda. Estranharam saber que uma criança estava voando sozinha… mas prometeram resolver o problema. Até aqui estou calmo, esperando meu filho e preparando-me para ir ao aeroporto Ben Gurion para buscá-lo.

E agora a história…

O voo para Israel estava programado para decolar no domingo às 19:10, e quando a criança voa sozinha, o acompanhante o busca na área de check-in quando o embarque começa, como você sabe, cerca de 30 a 45 minutos antes da decolagem. A mãe de Daniel chega com ele ao balcão e recebe a notícia de um representante da companhia aérea BELAVIA de que a criança não poderá embarcar no voo, pois há uma nova diretiva para que os que chegam a Israel se dirijam a um hotel e a companhia aérea não se responsabilizará por essa situação da criança. Ela explica a eles que a questão já está resolvida e que em Israel estão cientes da situação e ainda que o problema foi resolvido no nível mais alto possível. Eles seguem se recusando a levar a criança para o voo, alegando que ninguém os ajudará, rindo de sua cara, dizendo que nem mesmo o CEO da BELAVIA pode ajudar.

A mãe de Daniel corre para o CEO do aeroporto e recebe a mesma resposta dele.

Às 18:45, com todos os passageiros no avião esperando para decolar, ela me liga e diz que não há nada a fazer, a criança não vai voar.

Muitas vezes na vida nos deparamos com situações de injustiça, muitas vezes desistimos porque não há escolha, muitas vezes ouvimos “melhor ser feliz do que ter razão” e muitas vezes apenas levantamos os braços e nos rendemos… Me senti totalmente injustiçado e que, naquele momento, estava abandonando meu filho em um país que não sabe avaliar quanto vale uma dor na alma.

Minhas mãos tremiam, mas naquele momento peguei um telefone e liguei para Hershkowitz novamente.

São 18:46 e explico que meu filho não vai voar. Ele me diz: “Mas nós já arrumamos para ele todas as licenças na chegada”, respondo: “Os bielorrussos não o deixam entrar no voo. Se você ligar agora para o Embaixador de Israel na Bielorrússia, ele ligar para o CEO da BELAVIA e o CEO ligar para o balcão deles no aeroporto isso tudo daria ao meu filho a chance de pegar o voo”.

Não sei onde eu tive coragem ou o desplante de pedir uma coisa dessas, mas a coisa mais surpreendente foi que ouvi do outro lado da linha “eu vou cuidar disso”.

E então percebo sozinho que pedi algo imbecil e, como qualquer pai que pense no bem estar de seu filho, entendo que a situação não é boa e não tenho meios de influenciar a situação.

A mãe de Daniel liga chorando ao telefone, Daniel não entende o que está acontecendo.

Às 18:53, recebo um telefonema de Itai Hershkowitz: “Falei com o Embaixador agora. O Embaixador conversou com o CEO da BELAVIA. O CEO ligou para o balcão no check-in do aeroporto. Seu filho está neste voo”. Respondi chocado: “Mas são 18:55, faltam só 15 minutos para o voo decolar”, recebi uma resposta curta e grossa dele: “Este avião não levanta voo sem o seu filho”.

Naquele momento, metade do aeroporto em Minsk se aproximou do meu filho Daniel, atrasaram o voo e o colocaram em Business. Quando o garoto pousou em Israel, eu perguntei como foi o voo, ele respondeu: “Como sempre, só hoje eles mudaram o cardápio do avião”… trouxeram um monte de comida, como é comum em Classe Executiva.

Estou com meu filho saudável e seguro no aeroporto, e cerca de uma hora depois recebo uma ligação do Itai: “Está tudo bem?”

Não preciso dizer que rapidamente entramos em meu carro, fomos para casa e, claro, Daniel e eu entramos em confinamento por duas semanas.

Assim, termina a história de resgate de uma criança israelense por parte de pessoas que seguramente lutam frente ao Covid 24 horas por dia e que não lhes faltam tarefas imensas em uma guerra contra um inimigo invisível.

Pessoas que não me conhecem, não conhecem Daniel, mas sabem o que é a dor na alma.

Enquanto escrevo essa história, ainda sinto arrepios e muitos de vocês podem pensar que é apenas algo pessoal, mas não. Nesses momentos, sinto orgulho de ser um cidadão de Israel!

Eu imigrei para Israel aos 15 anos no projeto “Naale 16”, servi nas Forças de Defesa de Israel, e nunca senti tanto orgulho de ser israelense como agora.

Então, por que eu escrevi essa história toda? Não encontro outra maneira de agradecer ao ministro dos Transportes, Bezalel Smutrich e ao Chefe de Gabinete do Ministro da Defesa, Itai Hershkowitz, pela ajuda e tratamento que recebemos.

“Quem salva uma alma é como se salvasse um mundo inteiro.”

De fato.

Senhor Ministro de Defesa Naftali Bennett, por favor, transmita minha mais profunda gratidão e reconhecimento a Itai Hershkowitz, que me respondeu em uma mensagem privada quando agradeci a ele: “Este é meu trabalho ”

Feliz Festa da Liberdade (NT: Pessach, a Páscoa Judaica)

Eu, Igor, pai de Daniel, que tenho orgulho de ser israelense!

2 thoughts on “Igor Robin, de Haifa, escreve a um amigo

  • 16 de abril de 2020 em 21:35
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    Uma situação extremamente delicada! Como deixar uma criança de 6 anos viajar sem a companhia de alguem adulto? Se fosse outro país talvez ñ tivesse sucesso para ambos!

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    • 16 de abril de 2020 em 22:18
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      Não sei se o governo brasileiro teria a mesma celeridade ; enlouqueceria se acontecesse o mesmo com o meu Abhner !

      Resposta

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