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Mudanças

Por Nelson Menda

Nasci na cidade A, estudei na B, depois de formado me mudei para a C e, de escala em escala, acabei chegando à Z, onde me encontro atualmente: Portland, no estado americano do Oregon.

No fundo, posso estar transmitindo a falsa impressão de que curto esse estilo nômade de viver. Nada disso, foi a própria vida que me obrigou a arrumar as malas e ficar trocando, a toda hora, de domicílio. Na realidade, detesto ficar mudando de casa, de cidade e até mesmo de país, mas fui forçado a isso pelas próprias circunstâncias.

A última dessas mudanças, quando saí de Miami Beach, na Costa Leste dos Estados Unidos e peguei um voo, na companhia do Noah, meu neto mais velho, parecia mesmo uma viagem sem volta. A vacina para a Covid ainda não tinha sido aprovada e minha filha mais velha tinha providenciado, para a viagem aérea de Miami a Portland, duas máscaras, uma de pano e outra de plástico, além de luvas cirúrgicas e uma boa provisão de álcool gel. Eu já tinha permanecido no apartamento de Miami Beach, sem sair à rua, por vários meses e, quando as sacolas do supermercado, com mantimentos e produtos essenciais, eram entregues, precisavam ser higienizadas com álcool e descartadas, uma a uma. Por não se conhecer o mecanismo exato da transmissão do coronavírus as embalagens, depois de esvaziadas, eram cuidadosamente depositadas no lixo do prédio. Afinal, àquelas alturas – e olhe que não faz assim tanto tempo – não se tinha a menor ideia do que estava provocando aquela mortandade. A todo momento chegavam notícias de pessoas que tinham contraído a virose e, algumas delas, falecido. Perdi colegas e bons amigos nessa fase inicial da Covid, em que uma intensa boataria, por ingenuidade ou assumida má fé, mascarava a real situação do problema.

Sobrevivi, mas acabei radicado em local bem distante da cidade americana que curtia, pois Miami Beach, verdade seja dita, dá de dez a zero em Portland, onde estou morando atualmente. É preciso reconhecer que a Flórida também não é nenhum paraíso, pois costuma ser assolada, de tempos em tempos, pelos ventos da Hurricane Season, a temporada dos furacões, em que não se sabe, de antemão, os danos que poderão provocar. Todavia, depois que os engenheiros desenvolveram o Impact Glass – as portas e janelas de impacto – o problema foi minimizado, apesar de nunca se saber se a eletricidade será interrompida após a passagem de um furacão. Sem eletricidade não se pode cozinhar nem ligar os aparelhos de ar refrigerado, pois os furacões ocorrem no pico dos verões, que costumam ser escaldantes no sul da Flórida, onde Miami está localizada. Como os furacões são cíclicos, os mais precavidos já aprenderam a lidar com o fenômeno, estocando água e alimentos não perecíveis como medida de precaução. Os mais abonados embarcam no primeiro voo disponível e acompanham os estragos à distância, via TV.

O primeiro furacão, à semelhança de um antigo comercial de soutiens, ninguém esquece. O prédio em que eu morava, em Miami Beach, só instalou essas vidraças anti-impacto quando eu já tinha ido embora. Eu e uma das minhas filhas pretendemos ter um pezinho em Miami Beach, para fugir dos invernos de Portland, em que muitos dias são cinzentos e tristes. A mais nova está pensando em dispor de um apartamento no Rio, de preferência perto da praia, para curtir suas merecidas férias.

O inverno, aqui em Portland, não é dos mais rigorosos no que tange a frio, mas não é à toa que a cidade ostenta o título nada lisonjeiro de possuir o maior índice de suicídios do país. Especialmente no auge do inverno em que só costuma clarear pelas 9 horas da manhã e escurecer, muitas vezes, lá pelas 15h ou 15h30min. Quem tem condições, costuma passar os invernos no sul da Califórnia, em Las Vegas, no México ou até mesmo no Havaí.

O Havaí, cuja grafia em inglês é Hawaii, que passou a ser o 50º estado norte-americano, dista 1.200 Km de Portland, aproximadamente 6h de voo direto, com a agravante de não existir nenhuma alternativa de aeroporto no longo trajeto sobre as águas do Pacífico, o que não deixa de ser preocupante. Nunca fui ao Havaí, nem tive a menor vontade de conhecer o lugar, que sempre me pareceu bastante artificial com suas bailarinas se balançando ao som do hula-hula. Tudo muito cenográfico, para engambelar turistas.

Nesse interminável ciclo de mudanças que tive de enfrentar, acabei bolando alguns truques para contrabalançar o banzo, palavra que os escravos africanos introduziram, com muita propriedade, no idioma português e que significa, pura e simplesmente, saudades. Conservo, desde a primeira mudança, alguns enfeites de valor afetivo. Na realidade, alguns até anteriores ao meu nascimento, herdados do avô materno, que gostava de colecionar antiguidades. Para onde me transfiro, faço questão absoluta de carregar os objetos com os quais estou afeiçoado, além dos quadros e tapetes que vieram do apartamento carioca. São valiosos? Para mim, sim, pois permitem que me sinta cercado por artigos com os quais mantenho familiaridade. Desde as delicadas e coloridas cerâmicas nordestinas do Vitalino que adquiri há décadas em Recife, passando por uma pintura primitiva sobre compensado que comprei em Penedo, no Estado do Rio.

Eu, minhas filhas, genros e netos estamos planejando, se tudo der certo, nos revezar, nos próximos invernos, entre as costas do Atlântico e do Pacífico, para curtir esse período longe da gelada e cinzenta Portland. Peço desculpas aos calorentos, mas para mim o verão será sempre a melhor estação do ano, especialmente depois que aperfeiçoaram os aparelhos de ar-condicionado. Ainda é cedo para saber se o plano poderá ser concretizado, mas não custa nada sonhar. É o que tenho feito a maior parte da minha vida.

Foto: Vista aérea de Miami – br.depositphotos.com

10 comentários sobre “Mudanças

  • Então, só para o banzo não ser dos mais fortes, o calorão este ano veio com força total. E olhe que sou baiana, descendente de gente do deserto e adoro o verão. Sugiro programar as férias de vocês para os meses de abril/maio ou setembro/outubro. Tenham juízo! 😂

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    • Oi, Angela. Não sofro com o calor dos verões, mas sim com o frio e o mau tempo dos invernos. Por causa deles migrei do Rio Grande do Sul para o Rio. Quem poderia imaginar que acabaria em um lugar ainda mais gelado?

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  • É o que dá vida: sonhar, realizar, viajar, escrever ✍️, curtir a Família e agradecer a DEUS por tudo!!! Tenho saudades dos States, particularmente da Flórida. Quando o senhor for pra lá nos avise para tomarmos um café ☕️ brasileiro juntos!!!!

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    • Oi, Marcelo. Pelo jeito vc. decidiu incorporar o Aladin ao Souza Machado. Será um prazer tomar um café na sua companhia, mas onde??? No Rio, em Miami ou Portland?

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    • Oi, Ronete. Eu nunca gostei de me mudar, mas fui obrigado a isso pelas próprias circunstâncias. Por mim, continuaria morando em Porto Alegre, no Rio ou Miami.

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  • Achei a ideia espetacular! Grande solução para viver plenamente a vida sem mais frio!

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    • Oi, Vani. Vc. é uma felizarda, pois conseguiu se mudar para uma ilha paradisíaca.

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