O racismo aos judeus nas línguas latinas

Por Marcos L Susskind – Focando especialmente na língua Portuguesa

No artigo anterior, A destruição dos judaísmo espanhol, descrevi o caminho que levou ao fim do judaísmo espanhol em 1492. Neste artigo veremos como algumas palavras usadas para humilhar ou para discriminar judeus durante o período entraram nas línguas latinas e são usadas por nós, Judeus, sem que atentemos para as nefastas origens das mesmas.

1 – O termo “israelita”. 

Durante a Inquisição o termo judeu era vergonhoso, humilhante porém havia Judeus que deveriam ser preservados para o bem do Reino. Cria-se então o termo “israelitas”, atribuído a quem não abdica de sua fé, segue todas as normas judaicas mas são “judeus necessários”. Então eles perdem a designação judeus para serem chamados de “israelitas”, um termo “aceitável” e que preserva os interesses dos poderosos. Muitos destes judeus, usando sua relativa importância, batalham duramente para salvar seus irmãos porém a força e o domínio que Torquemada exerce sobre o casal real lhes dá pouco espaço de atuação em prol da maioria judaica perseguida e forçada à conversão.

Note que este termo só existe nas línguas latinas. Em todos os países que usam o inglês,  você verá os seguintes nomes de nossas instituições: Jewish Federation, Jewish School, Jewish Historical Society, etc. Já em países que usam o alemão: Hochschule für Jüdische Studien, Jüdisches Reform-Realgymnasium, Zentralrat der Juden in Deutschland. Em sueco Judiska Centralrådet, Judisk Krönika. Na Noruega, Jødene Hjem. Na Tunísia, Communauté Juive de Tunisie. Já na França temos por um lado o Conseil Représentatif des Institutions Juives – e por outro, a maioria das entidades usando o termo israélite tal como em  Association des Médecins Israélites de France.

Como se vê, na França a maior comunidade judaica de língua latina, prevalece o israelita, tal como na Argentina (AMIA,  Asociación Mutual Israelita Argentina) no  Chile: Comunidad Israelita de Valparaíso, Colômbia: Centro Israelita de Bogotá, Brasil, CONIB – Confederação Israelita do Brasil.

É claro que em todos estes países há instituições que usem o termo francês juive, espanhol judia, português judaica – mas são a minoria. Infelizmente nós nos rendemos à palavra que nos definiu como “judeus aceitáveis”. Israelita não ofende, judeu sim….

2 – O termo judiação

Sinônimos desta palavra: atormentar, maltratar, judiar, fazer maldade, tratar com escárnio. Diversos autores entendem o termo como “tratar aos demais como os Judeus foram tratados” – inclusive o falecido Rabino Henry Sobel, Z”L. Já outros autores, com os quais eu me identifico, consideram exatamente o contrário. Para estes, judiação significaria “ação de judeus” e sua origem viria também da época da Inquisição.

Para estes autores, o termo teria sido inspirado em Judas, que traiu Jesus, levando-o à tortura e à morte – a “ação de judeus”. No entanto fica uma questão religiosa a responder. Judas (Yehudá) era um dos discípulos de Jesus. Os demais apóstolos, são todos judeus, sem sequer uma exceção. Pedro por exemplo, é um apelido. Seu nome real era Simão (Shimon). Tiago é a versão do nome Jacob (Yaakov) que sofreu as seguintes mutações: Yaakov, Yako, Sant Yako, San Tiago. João é Yochanan (irmão de Yaakov/Tiago); André é Andreas (irmão de Simão/Pedro); Felipe é Philipus Tzeida; Bartolomeu é o sobrenome de Netanael Bar Talma; Judas Tadeu é Yehuda Taama e assim segue. O próprio nome de Jesus é Yehoshua, nome marcantemente judaico.

Então porque judiação vem de Judas? E de qual dos Judas pois há dois Yehuda entre os apóstolos – Judas Tadeu e Judas Iscariotes (Yehuda Ish Kraiot). Segundo o Cristianismo. o Iscariotes teria traído Jesus. A Igreja, a partir do Século IV, associa o nome de Judas a judeus, “esquecendo” que todos os demais, Jesus incluído, era judeu e nunca renegou sua fé. Daí à culpa geral do povo judeu foi um pequeno passo para um inominável sofrimento de 2000 anos. É neste contexto que o termo judiação entra no léxico latino.

3 – O termo “carapuça”

São inúmeras as vezes nas quais nós “vestimos a carapuça”, significando que aceitamos a culpa, aceitamos a acusação ou nos identificamos com algo ruim. Na maior parte das vezes a expressão vestir a carapuça  é usada quando uma pessoa se sente atingida por algum comentário (que pode não ter sido feito direcionado à ela) e por causa disso, acaba entregando a sua culpa em algo sem querer, aceitando uma indireta. Mas o que é mesmo a carapuça?

Carapuça é um chapéu ridículo, em forma de cone que era dado aos judeus ao se dirigirem ao Tribunal do Santo Ofício, a corte da Inquisição. Ao “vestir a carapuça”, o judeu assumia as culpas que lhes eram imputadas ou considerava que estava sendo acusado de alguma coisa. Com a carapuça e o sambenito (tipo de poncho), os judeus eram julgados.

Felizes os que eram condenados à fogueira porque seus sofrimentos, embora físicos, cruéis e dolorosos logo se findavam, após seus corpos serem consumidos pelo fogo em praça pública.

Infelizes os que escapavam da fogueira. A estes o sofrimento se prolongava por serem condenados a usar em público, para a posteridade, aquela vestimenta que denotava humilhação e maculava a imagem do condenado e toda a sua família e seus descendentes.

Era obrigatório o uso da carapuça aos acusados de práticas “judaizantes”. Era imenso o sofrimento psicológico e humilhação dos condenados ao uso da carapuça. Eram alvos de zombarias pelas ruas, as pessoas costumavam cuspir e atirar pedras, até mesmo fezes e urina, enquanto os adultos proferiam xingamentos e evitavam o contato físico. A maioria entrava em profunda depressão e muitos preferiam recorrer ao suicídio por não suportar tanta dor psicológica.

4 – O termo “judiar”

“Judiar”, bem como “judiação” têm uma imensa carga antissemita. O uso de “judiar” no sentido de “maltratar, torturar, infligir sofrimentos” é clara e associa Judeus e maus-tratos. No item 2 descrevo como atribuem ao verbo judiar o significado de “tratar a outro como os judeus foram tratados”l.

Entendo judiar no sentido de maltratar alguém, fazer alguém sofrer, como sendo “ato dos judeus” e quem maltrata, tortura ou faz alguém sofrer está agindo como judeu. É a absurda consequência de transformar os judeus – que eram perseguidos e maltratados – em algozes e causadores de sofrimento. Afinal, desde a Inquisição os judeus são acusados de perseguir Jesus, espoliar através de juros, envenenar poços e até matar crianças para usar seu sangue em rituais.

No mesmo sentido racista: judiada – pessoa maltratada, abusada, brutalizada.

5 – O termo Marrano

Marrano é um termo que se origina na Espanha e em Portugal, sendo designação injuriosa que se dava aos judeus batizados, suspeitos de se conservarem leais ao judaísmo – designados na literatura como conversos. O sinônimo original de marrano é porco mas o com o tempo, a palavra marrano passou a ter os sinônimos: imundo, excomungado, gado de má qualidade, porco, cristão novo.

Importante lembrar que bem antes da inquisição, em 1391, houve uma maciça conversão forçada de judeus mas a maioria seguiu praticando o judaísmo no interior de seus lares. Assim, há quem advogue que antes de ser incorporada às línguas latinas, tratava-se de uma designação usada entre os judeus, em hebraico para identificar os conversos contra a vontade – mumar-anus. Mumar é o termo hebraico para convertido. Anus significa forçado, violentado. Assim, Mumar Anus significa “convertido à força”. É possível que a evolução tenha sido: mumar anus para mumaranus, maranus, marranos. Neste caso, a associação com porco torna-se ainda mais ofensiva.

6 – O uso racista do termo judeu

Judeu refere-se ao grupo étnico e religioso dos descendentes do Reino de Judá destruído por Tito no ano 70 da época atual ou a quem professe a fé judaica por ascendência ou conversão. No entanto, diversos dicionários dão os seguintes sinônimos: nômade, avarento, usurário, mau. Por quê? Vou analisar apenas estes quatro vocábulos.

Nômade: judeus eram obrigados a constantes mudanças geográficas devido a impossibilidade de sua fixação como judeus em diversas regiões europeias e, principalmente, devido às suas constantes expulsões . Alguns exemplos: Alexandria, 415 (por São Cirilo); Banu Kainuka, 624 (por Maomé); Mainz, 1012; Paris 1254 (Luiz IX), Inglaterra, 1290 (Eduardo I), Áustria, 1421 (Duque de Áustria); Espanha, 1492 (Fernando e Isabel); Portugal, 1496 (Don Manuel I); Itália, 1510 etc.Isto os fazia ir de um local a outro, forçados! Nômades sob coação!

Avarento, usurário: Aos judeus era proibido posse de terra, trabalho em “profissões honrosas” e então, sem outra opção, muitos dedicaram-se a atividades de câmbio, comércio e empréstimo (origem das atuais estruturas bancárias). No trato com dinheiro, a remuneração do capital são os juros  – proibidos aos cristãos medievais. Forçados a viver de usura, seus carrascos os taxam de usurários!

Mau: Origina-se nos famigerados ‘libelos de sangue’ e ‘acusações de assassinatos rituais’, difundidos pelos frades dominicanos: judeus eram acusados de práticas macabras, matar crianças cristãs para fazer matzot (pães ázimos), envenenar poços, disseminar doenças.

Conclusão

Seria importante eliminar estes termos racistas do léxico. Mas é primordial que judeus não aceitem que os significados impingidos a estes termos permaneçam. Para tanto, chamemo-nos de judeus e não de israelitas (que desapareceram, historicamente, em 736 Antes da Época Atual), deixemos de usar marranos para usar conversos e eliminemos o verbo judiar e todas suas variações.

Imagem: O Tribunal da Inquisição (óleo de Goya)

6 thoughts on “O racismo aos judeus nas línguas latinas

  • 22 de abril de 2020 em 10:06
    Permalink

    Não sou a favor da eliminação de nenhum desses termos.

    Primeiro, como demonstrado, o significado das palavras mudam com o tempo e o significado das palavras citadas mudaram ou perderam seu sentido original

    Segundo, ao empurrar para ‘debaixo do tapete’ fatos históricos é o mesmo que esquecê-los. E esquecê-los é o mesmo de não ter acontecido. E o ‘não ter acontecido’ abre espaço para acontecer novamente.

    Terceiro, quem define quem somos não são os outros e sim nós mesmos. Nós judeus não precisamos de ações Politicamente Corretas.

    Quarto, devido ao segundo e terceiro pontos, ‘esquecer os termos’ pelo desuso é mais uma tentativa de limpar a lígua dos algózes do que propriamente lavar a honra dos judeus.

    • 22 de abril de 2020 em 18:39
      Permalink

      Nossas opiniões divergem.
      Falar em Judiação é inferir que somos maus, vingativos, mordazes.
      Trocar o termo Judeu por Israelita é aceitar que “é feio ser Judeu”, ou pior ainda, que isto seria vergonhoso e assim por diante.
      Respeito sua posição mas discordo dela.

  • 22 de abril de 2020 em 17:22
    Permalink

    Muito bom o artigo. Só esqueceram de incluir “ladino”, que também é usado com uma conotação negativa.

  • 24 de abril de 2020 em 10:41
    Permalink

    Parece que qualquer coisa tem uma conotação negativa, até o termo judeu. Teremos que expluir este termo também. Assim seriamos referidos como os outros. Mas daí diriam que isso é racismo também.

  • 29 de abril de 2020 em 05:02
    Permalink

    Mas há mais termos de idêntico alcance, por exemplo na expressão “menino rabino”, significando criança endiabrada.

  • Pingback: Cidadania portuguesa para judeus ameaçada - Revista Bras.il

Fechado para comentários.

%d blogueiros gostam disto: