Ortodoxos interrompem novamente orações no Kotel

Milhares de jovens estudantes de yeshivot cercaram um grupo de 100 mulheres e uma dúzia de homens que acompanhavam uma adolescente americana durante sua cerimônia de bat mitzvah no Muro das Lamentações.

Os manifestantes ortodoxos tentaram interromper a oração dos não ortodoxos um mês depois que um grande incidente chamou a atenção da liderança política de Israel

Não houve feridos ou prisões durante o confronto de sexta-feira, que ocorreu após crescentes tensões nas orações de Rosh Chodesh, nos últimos meses.

A polícia e os seguranças contratados pela Western Wall Heritage Foundation, a organização, financiada pelo Estado que administra o local sagrado, não apareceram para fazer cumprir a lei de Israel que proíbe a perturbação das orações, um crime que pode levar a uma pena de até três anos em cadeia.

Lucia da Silva, de Seattle, que veio a Israel com seus pais e padrinhos para comemorar o seu bat mitzvah, não se deixou abalar pelos tumultos.

“Eu os via como fãs que vinham me animar”, disse Lucia sobre a comoção que a cercava enquanto lia as escrituras em um dos locais mais sagrados do judaísmo.

Todo mês, o grupo Mulheres do Muro tenta ler a Torá no Muro das Lamentações, onde a oração igualitária é proibida, exceto em uma ala especial.

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Os seguranças da Western Wall Heritage Foundation tentaram direcionar as mulheres para um caminho que levava à parte cercada, mas as Mulheres do Muro se recusaram. Em vez disso, elas se dirigiram para o centro da seção feminina, adjacente à seção masculina do Kotel, para realizar seu serviço.

Grupos de garotas atacaram as mulheres, chamando-as de prostitutas e hereges e gritando que deveriam queimar no inferno. Quando confrontadas por ativistas do Mulheres do Muro e perguntadas por seus nomes, três das meninas em uníssono responderam: “Sou menor”. Outros sopravam apitos para evitar que as mulheres orassem em voz alta.

A seção feminina desce em direção ao Muro. Da seção masculina, acima das mulheres, milhares de jovens as insultavam com gestos grosseiros e insultos.

Alto-falantes situados na seção masculina adjacente, mas voltados para a seção feminina, gritavam orações destinadas a abafar as vozes das mulheres.

A advogada Orly Erez-Likhovski, diretora do Centro de Ação Religiosa de Israel e nova presidente do Mulheres do Muro, descreveu a seção feminina como um “poço sem lei, desprovido de qualquer tipo de regra”.

“Eles nos veem como provocadoras”, disse ela, apontando para os policiais parados perto da entrada da seção feminina, “não como cidadãs exercendo seus direitos”.

Anat Hoffman, atual presidente da organização, protestou que a recusa da polícia em exigir a identificação de qualquer um dos agressores tornava qualquer reclamação futura discutível. “Os casos são encerrados antes de serem abertos”, disse Erez-Likhovski.

Os últimos meses foram marcados por uma escalada significativa na violência dirigida a homens e mulheres não-ortodoxos que rezam no Muro.

Pelo menos cinco cerimônias de bar mitzvah realizadas na parte sul do muro, determinada como igualitária, “Ezrat Israel”, foram alvo de violência nas últimas semanas, principalmente a de Seth Mann, de Las Vegas, cuja mãe, Sari Mann, é a diretora do AIPAC do estado de Nevada, o lobby pró-Israel.

Após o incidente, o pai de Seth, Joel Mann, escreveu que ficou inicialmente aliviado quando viu policiais chegarem à cerimônia de seu filho, que estava sendo arruinada por adolescentes charedim soprando apitos e gritando “goys” para os celebrantes.

“A polícia fez pouco ou nada para impedir a perturbação e os ataques violentos que ocorreram. A polícia israelense ficou lá enquanto os adolescentes charedim atacavam os judeus”, escreveu ele.

“Foi nesse momento que meu coração se partiu”, continuou Mann. “Percebi que nem mesmo no Estado de Israel, a pátria do povo judeu, posso rezar livremente e com segurança. Meu filho, em seu Bar Mitzvah, é informado de que não é judeu”.

O primeiro-ministro Yair Lapid chamou a família para expressar sua consternação e, mais tarde, ordenou que as barreiras que separam homens e mulheres em locais de cultos judaicos tradicionais sejam proibidas na seção igualitária do Muro das Lamentações. As barreiras, chamadas mechitza, têm sido usadas recentemente como instrumentos de violência contra os fiéis.

No caos desta sexta-feira, Lucia da Silva, a jovem que realizou seu bat mitzvah, não ficou abalada com as agressões. Para ela este foi o culminar de um ano inteiro de estudo dos textos sagrados e da língua hebraica. O bat mitzvah, ela disse, estava entre os destaques de sua viagem a Israel, junto com o Mar Morto e a praia.

De volta para casa em Seattle, Ada Danelo, a mãe de Lucia, disse que ela e sua esposa, Cara Stoddard, às vezes se sentiam atacadas por seu sionismo. Em Israel, eles foram “atacados por serem… judias”.

Fonte: The Jerusalem Post
Foto (ilustrativa): Canva

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