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Os judeus e a Turquia

Por Nelson Menda

Nasci em Porto Alegre, Brasil, filho, neto, bisneto, tataraneto – e por aí afora, pelo ramo paterno, de judeus turcos. A Turquia é um país de maioria muçulmana, mas não guarda muita semelhança com outras nações que também professam o islamismo. Vou explicar.

Durante o obscuro período da inquisição, tiveram início as perseguições e massacres aos judeus por parte dos dirigentes cristãos dos recém unificados reinos espanhóis de Castela e Aragão. Essa unificação, inspirada por Dom Isaac Abravanel, de Castela, e Abrão Seneor, de Aragão, ambos judeus, foi um tiro que saiu pela culatra, pois acabou atingindo os próprios israelitas. Os Reis Fernando e Isabel, de Castela e Aragão, tinham sido aconselhados a se unir em matrimônio, unificar seus respectivos reinos e expulsar os mouros de seus territórios, dando início ao que atualmente constitui a Espanha. O que ninguém poderia imaginar, em sã consciência, é que os soberanos iriam expulsar, além dos muçulmanos, também os judeus. Aproveitariam para dar o calote nas dívidas contraídas para o financiamento da guerra contra os árabes. Dom Isaac Abravanel, conselheiro real, homem de notável inteligência, decidiu se retirar com a família do recém unificado país, transferindo-se para a Itália, onde veio a falecer alguns anos depois.

A Rainha Isabel, de triste memória, que dentre outras bizarrices se orgulhava de nunca ter escovado os dentes, vivia na igreja, rezando e confessando seus pecados. Seu confessor era um sacerdote de moral discutível, Dom Tomás de Torquemada, que passou à história como um insaciável e cruel torturador. Teve início uma feroz perseguição aos chamados infiéis, que ficou conhecida como Santa Inquisição, que de santa não tinha nada. Em tese, a Inquisição deveria investigar e punir hereges, protestantes, bígamos e outras pessoas consideradas de moral suspeita, mas o que realmente interessava aos dirigentes do chamado Santo Ofício era se apossar dos bens dos denunciados. Esse fato estimulou muitos judeus a tentar sair do país, inicialmente para o país vizinho, Portugal.

Não tardou para que as perseguições também ocorressem em Portugal, onde o Rei, Dom Manoel, era considerado amigo dos judeus. Era a época dos grandes descobrimentos e D. Manoel precisava dos judeus, muitos dos quais médicos, geógrafos e navegadores, que além de elaborar diagnósticos e indicar tratamentos, sabiam se orientar pelas estrelas. Cientistas judeus tinham aperfeiçoado o astrolábio, instrumento ótico que permitia navegar tanto de dia quanto de noite. Os portugueses, por outro lado, tinham desenvolvido as caravelas, barcos de porte médio que podiam navegar mesmo com o vento em sentido contrário.

D. Manoel não queria perder a mão de obra judaica, altamente qualificada. Criou uma artimanha, divulgando que iria permitir a saída dos judeus, que sonhavam em viajar, por mar, a Israel. Um número expressivo de judeus se dirigiu aos cais de Lisboa e do Porto, na data marcada, com suas famílias e provisões para a longa viagem, de barco, até à Terra Santa. Todavia, ao invés das embarcações, o que os aguardava era uma legião de padres, munidos de água supostamente benta, que aspergiram sobre as cabeças dos ludibriados viajantes. Esse trágico episódio acabou entrando para a história como “O Batismo em Pé”.

A partir dessa ocasião, muitos judeus da Península Ibérica acabaram chegando à conclusão de que só conseguiriam alcançar a sonhada Terra Santa de Israel por seus próprios meios. Por essa época começaram a aportar a Constantinopla, então capital do Império Otomano, que sucedeu ao Império Romano do Oriente, legiões de barcos com fugitivos das perseguições inquisitoriais urdidas por Fernando e Isabel.

A Turquia era governada por sultões, que autorizaram os refugiados judeus a se instalar em seus domínios e a professar a religião mosaica. O Sultão afirmou que os recém chegados eram considerados irmãos, que coroou com a frase “O Rei Fernando – referindo-se a Fernando de Aragão – está empobrecendo o seu reino e enriquecendo o meu”. Nessa ocasião teve início um namoro cívico entre a Turquia e os judeus que durou vários séculos, dos quais minha família paterna é um exemplo vivo.

Na década de vinte do século passado meu avô paterno, David Menda, cujo irmão tinha feito fortuna em Cuba, decidiu que havia chegado a hora de migrar para o Novo Mundo. Negociaram os estabelecimentos comerciais que possuíam na localidade de Lule Burgás, na Trácia, dividiram o produto da venda entre as duas famílias e cada um deles tomou um rumo distinto. O irmão do meu avô, carinhosamente chamado de “El Tio León”, decidiu abrir uma “botica” (pequena loja) no Gran Bazar de Istambul, que cheguei a conhecer. Ao passo que meu avô, David Menda, do qual herdei um dos meus prenomes, decidiu migrar, com seis filhos, para o Sul do Brasil, onde já vivia um dos seus irmãos.

Quem pensa que a história da minha família termina por aí está redondamente enganado(a), pois fazemos parte daquilo que se convencionou chamar de nômades, ou seja, gente que não esquenta o lugar, pois vive se mudando. Não que eu goste desse tipo de vida, mas as circunstâncias me obrigaram a isso. Não aconselho ninguém a seguir o mesmo figurino.

Foto: Dosseman, CC BY-SA 4.0 (Wikimedia Commons)

6 thoughts on “Os judeus e a Turquia

  • Emanuel Zular Zveibil

    Por favor me informe o e-mail do Nelson Menda, gostaria de contata-lo

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  • Moysés Serfaty.

    Dos judeus sefaradim 150 mil rumaram ao Oriente e cerca de 15 mil se refugiaram no reino de Marrocos ( neste grupo está minha familia). Foram tolerados até o início do século XX, quando a maioria decidiu emigrar para a Amazônia( brasileira e peruana) aproveitando a riqueza advinda do ciclo da borracha e do comércio dos frutos da floresta amazônica.Até hoje há Comunidades em Belém e Manaus que cultivam a tradição judaica , seus costumes, religiosidade e culinária de seus ancestrais marroquinos e espanhóis.

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  • Moysés Serfaty

    A história do povo judeu coleciona uma sucessão de perseguições e expulsões, daí a necessidade da existência de um Estado judeu, Estado este que em seus 76 anos de vida tem enfrentado uma série de agressões que visam a destrui-lo; resiste bravamente e hoje é um pequeno porém poderoso gigante graças ao seu enorme desenvolvimento tecnológico e econômico, o que encomoda muitos dos seus invejosos vizinhos que não aceitam sua existência.

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  • Feliciano Mesquita

    Oi Nelson, interessante tua narrativa, muito bem redigida, como sempre, sobre tua descendência com pasagem pela turquia. Nunca me interessei em pesquisar minhas orígens, sou muito ligado no presente e acho que o que passou, passou. A única coisa que sei de meu passado é que morei em Passo Fundo nos 5 primeiros anos de vida!
    Grande abraço

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  • NELSON MENDA

    Oi Feliciano. Você me contou que seu pai ignorou, intencionalmente, a existência de uma lista de sobrenomes de famílias que não poderiam ser admitidas no Brasil. Esse fato, por si só, já é revelador da possível origem cristã-nova da sua família. Outra característica foi a opção pelo Kardecismo. Vá puxando o fio da meada e vc. vai acabar desvendando os segredos que o Coronel Mesquita soube preservar. Um abração, extensivo à esposa, filhos e netos.

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