Rua do Arvoredo

Por Nelson Menda

Nasci no Hospital São Francisco, em Porto Alegre, tendo residido, nos primeiros anos de vida, nas ruas Fernando Machado e Demétrio Ribeiro, na Cidade Baixa. Meus avós paternos também moravam na Fernando Machado, onde está localizada a única Sinagoga Sefaradi de Porto Alegre, o Centro Hebraico Riograndense, chamado de Kal por seus frequentadores.

A própria Fernando Machado já se chamou Rua do Arvoredo e era assim que era tratada durante minha infância e adolescência. Pois foi exatamente nessa Rua do Arvoredo, até os dias de hoje uma pacata artéria residencial, que aconteceu um dos mais bárbaros e horripilantes crimes que chocou não apenas seus moradores como também personalidades do mundo todo, como o renomado cientista Charles Darwin.

No número 707 da Fernando Machado, a apenas uma quadra da casa onde meus avós viriam a residir sessenta anos depois, quando chegaram ao Brasil, morou o casal José Ramos e Catarina Palse. Ele, natural de Santa Catarina e ela, da tristemente famosa Transilvânia, terra natal do Conde Drácula. Ramos, apesar de seu passado obscuro, pois havia sido acusado de assassinar o próprio pai e buscado refúgio no Rio Grande do Sul, acabou sendo contratado como Inspetor de Polícia em Porto Alegre.

José Ramos e Catarina Palse formavam uma dupla bastante peculiar. Apreciadores de música erudita e poesia, eram habitués do Theatro São Pedro, fazendo questão de se relacionar com pessoas da melhor sociedade local, mas com objetivos inconfessáveis. Catarina, jovem e bonita, procurava se insinuar sensualmente para homens de posses, convidando-os a ir à sua casa, com a promessa de uma noite de amor, onde o esposo já os aguardava, faca em punho, para degolá-los, com um golpe preciso e certeiro. A intenção do casal era se apossar dos pertences da vítima, mas o que fazer com o corpo depois de consumado o crime?

A solução, proposta pelo açougueiro Carlos Claussman, amigo do casal e proprietário da casa onde a dupla residia, seria dissolver em ácido o que não pudesse ser aproveitado e, pasme, utilizar a carne para a produção de… linguiça! Quem desossava e preparava a carne das vítimas era o próprio açougueiro que, além de dominar os segredos da fabricação de embutidos, vendia as linguiças em seu estabelecimento comercial, no centro da cidade. Asseguram os jornais da época, por volta de 1863, que o produto era de muito boa qualidade e satisfazia os mais exigentes paladares.

Estava tudo indo muito bem até o dia em que, como sói acontecer em muitas sociedades, os proprietários se desentenderam, partiram para o confronto pessoal e Ramos levou a melhor. Deve ter sido, como asseguram meus conterrâneos gaúchos, uma autêntica “briga de foice no escuro”, pois tanto Carlos Claussman quanto José Ramos eram hábeis magarefes e sabiam manejar facas como ninguém.

Com a morte de Claussman o negócio se desfez da noite para o dia, pois além de saber carnear as vítimas, era ele quem produzia e comercializava a linguiça no seu açougue. A polícia, que já andava desconfiada com o sumiço de tantos homens de negócio na capital gaúcha, decidiu realizar uma batida na casa da dupla, onde encontrou, além dos restos mortais de seis vítimas, o próprio cadáver de Claussman, dentro de um poço abandonado. Após a descoberta dos crimes seus autores foram presos e processados. Ramos, condenado à morte, teve a pena comutada em prisão perpétua e a mulher, precursora da delação premiada, abriu o bico, contou tudo o que sabia e que estava transcrito em seu diário, recebeu uma pena bem mais suave: treze anos de reclusão.

Esse e outros casos similares, que continuam repercutindo no imaginário popular do mundo todo, inspiraram a criação de um musical de sucesso na Broadway sobre o enigmático personagem londrino Sweeny Todd, um barbeiro que atraía suas vítimas para o salão mas, ao invés de escanhoá-los, utilizava sua afiada navalha para matá-las, despejando seus corpos no subsolo por intermédio de um engenhoso mecanismo acoplado à cadeira. Só que, na versão londrina, as carnes das vítimas não eram utilizadas para encher linguiça, mas preparar deliciosas tortas, as afamadas meat pie dos ingleses.

Quando visitei Londres, há um bom par de anos, acompanhado pela Fernanda, minha filha caçula, ela fez questão de contratarmos um tour de horror para percorrer o trajeto onde Jack, o Estripador, tinha atraído e assassinado suas vítimas. A última parada do grupo era em um tradicional Pub, em Fleet Street, onde o criminoso se encontrou com a última delas. Do próprio Pub o guia apontou para duas casas, do outro lado da rua onde, segundo ele, teria residido o escritor Charles Dickens e, bem ao lado, seria a casa onde teria funcionado o mencionado salão de barbeiro de Sweeny Todd. Além da história, real ou fantasiosa, desse barbeiro londrino, o episódio inspirou a realização de um filme de Tim Burton que ganhou um Oscar, em 2008, com o ator Johnny Depp no papel principal.

Mas a realidade, verdade seja dita, é que as nossas linguiças elaboradas com carne humana em Porto Alegre não eram ficcionais, pois o macabro episódio aconteceu de verdade.

Quem tiver curiosidade – e estômago – para conhecer mais detalhes sobre os crimes da Rua do Arvoredo, que já rendeu livros, filmes e séries na TV brasileira, pode assistir o curta abaixo:

7 thoughts on “Rua do Arvoredo

  • 12 de agosto de 2020 em 23:34
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    História de horror muito bem contada pelo Nelson

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  • 12 de agosto de 2020 em 23:44
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    Que horror, Nelson! Quanto à maneira de contar : irretocável! Abraço da Cecilia.

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  • 13 de agosto de 2020 em 18:58
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    Nelson: perfeito teu relato sobre o tema, tão conhecido por nós que moramos na Fernando Machado (Rua do Arvoredo). Porto Alegre também tem o seu “Tour do Horror” e evidentemente o ponto culminante das visitas se dá próximo ao local deste evento tão trágico. Curiosamente, quando morei num sítio em Gravataí, bem próximo à minha casa tinha um pequeno mercado/açougue. O proprietário: José Ramos. A rua: Santa Catarina. José Ramos, Catarina, que fantástica e dupla coincidência! Deva-se acrescentar o fato de eu ser vegetariano, isto me “livrou” de comprar linguiça do homônimo da Arvoredo. Mas o pessoal que comprava (e comia), propagandeava que era de excelente qualidade. A bem da verdade, nos 20 anos que morei no sítio, foram poucas as pessoas que desapareceram na região…

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    • 13 de agosto de 2020 em 20:23
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      Oi, Davi. Existe uma teoria de que certos fatos acontecem, simultaneamente, em mais de uma localidade. Quando estive em Londres e o guia turístico mencionou a história do barbeiro que matava os clientes para utilizar sua carne como alimento, fiquei com a pulga atrás da orelha, pois já tinha escutado esse mesmo relato, só que ocorrido na nossa Muy Leal e Valerosa Porto Alegre. Fiquei com a sensação de que alguém estaria plagiando alguém e procurei me aprofundar no assunto. Para meu desencanto, descobri que os assassinatos originais ocorreram, realmente, na nossa cidade natal e, mais sério, na rua onde nossas famílias e o próprio Kal se estabeleceram. Ou seja, nesse trágico episódio os louros são nossos e os ingleses apenas copiaram o que leram em algum jornal da época, sofisticando o acepipe de linguiça para torta de carne e faturando uma fábula com o turismo. O pitoresco é que a casa ainda está lá, com algumas pequenas modificações na fachada e a retirada de uma placa que mencionava o lamentável fato. Eu e a Susana, quando íamos, a pé, da nossa casa na Demétrio para o Paula Soares passávamos na frente do 707 tanto na ida quanto na volta. Você, especialista em números, calcule, por alto, dois anos de Jardim de Infância + seis de Primário – as férias de Julho e de Verão, o número de vezes em que cruzamos pela calçada em à referida casa. Para finalizar, uma leitora e grande amiga quer saber a razão da rua ter se chamado “do Arvoredo”. Aproveito para fornecer uma informação que poderá intrigá-lo. Imagine onde funcionava o açougue suspeito? Se pensou na rua da Igreja das Dores, acertou na mosca. E outro fato que nos une ao episódio é a frequência do estranho casal ao Theatro São Pedro. Por sorte tudo se passou em 1863/65, quando os Mendas residiam na pacata Lulé Burgás e nem pensavam em migrar para o Brasil. Se vc. tem amigos junto ao governo do Rio Grande do Sul, proponha o tombamento dessa casa e a instalação de um museu interativo relacionado aos “Crimes da Rua do Arvoredo”. De lambuja, o tombamento do prédio do Kal e a instalação de um espaço dedicado à presença judaica no RS. Abs. Nelson

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  • 13 de agosto de 2020 em 23:15
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    Como morei muitos anos na rua Demétrio Ribeiro, também conhecida por rua da Varzinha, ouvi muitas vezes esse relato macabro. Ouvi, inclusive, que a polícia invadiu o local logo após uma queixa de uma pessoa que havia encontrado um dedo humano numa linguiça. Esse dedo foi a gota dágua porque sobravam denúncias e relatos de desaparecimentos. O trabalho “duro” era realizado por dois ex-escravos, encarregados “sumir” com o que sobrava dos corpos enlinguiçados. Também estudei no colégio Paula Soares e passava na frente da casa da linguiça duas vezes por dia. Minha irmã Ana sempre atravessava a rua para usar a outra calçada. Tinha medo de uma reabertura da fábrica!

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  • 16 de agosto de 2020 em 01:22
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    Muitas vezes escutei esta história, mas esta narrativa com nomes e fundamentos fáticos está incrível! Minha mãe mora na rua do Arvoredo e de agora em diante quando passar na frente da dita casa, saberei que o que considerava um boato, foi de fato uma história real. Brilhante narrativa! Bjs

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    • 16 de agosto de 2020 em 04:40
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      Oi, Vani. Lembro que, certa vez, comentaste comigo a respeito dessa casa, mas depois da ida a Londres fiquei intrigado sobre a estranha coincidência de ter ocorrido, naquela cidade, uma sucessão de crimes bastante semelhantes aos de Porto Alegre. Essa dúvida ficou ruminando na minha cabeça durante quase trinta anos, até ter chegado o momento de esclarecê-la. Afinal, com quem estaria a verdade? Ao pesquisar o assunto, pude constatar, horrorizado, que a verdade estava com os episódios passados no Rio Grande do Sul. Por uma série de coincidências a Rua do Arvoredo ocupa um destaque especial na minha história pessoal e familiar. Foi nela que nasci, onde meu pai adquiriu sua primeira residência, onde meus avós paternos residiram quando chegaram ao Brasil, onde meus tios e primos moraram e por aí afora. Ou seja, tenho uma ligação umbilical tanto com essa rua quanto à própria Cidade Baixa, onde conquistei tantos e tão queridos amigos e amigas, entre os quais você, que senti ter chegado o momento de relatar esses fatos. Bjs

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