Me engana que eu gosto

Por David S. Moran

O impasse político em Israel perdura há muito tempo, mesmo antes da primeira eleição que elegeu o Netanyahu, em 1996. Três anos mais tarde, ele foi batido pelo Ehud Barak. Infelizmente, nos últimos 18 meses, os israelenses foram às urnas três vezes e, agora, estão na véspera das quartas eleições. Na quarta (2) foi aprovada a moção para preparar a lei da dissolução da Knesset.

O 35⁰ governo constituído em Israel nos seus 72 anos não teve decisão e o mago político, Benjamin Netanyahu, conseguiu fazer o impossível. O partido Kachol Lavan, liderado pelo novato político e ex-Comandante das Forças Armadas de Israel (Tsahal), General Beny Gantz, obteve 33 deputados, contra 36 do Likud e apenas 132.000 votos os separam da primazia.

Israel teve um mago mundialmente famoso como Uri Geller e ilusionista como Lior Suchard. Mas Benjamin Netanyahu, sem dúvida, é o maior mago-ilusionista político de Israel. Com sua retórica excepcional, ele conseguiu desmontar partidos e montar governos, que nem o escritor Maquiavel, da Idade Média, conseguiria imaginar (seu livro, O Príncipe, foi escrito em 1513).

Netanyahu, que fala inglês polido e quer imitar a política americana, que conhece muito bem, pois estudou no prestigioso MIT e foi diplomata em Washington e Embaixador de Israel na ONU, só não segue a Constituição americana, que permite o Presidente governar por oito anos no máximo.

O atual governo foi constituído depois de longas semanas de impasse. O líder do Likud, Benjamin Netanyahu conseguiu dividir o Kachol Lavan, que concorreu com o Yesh Atid, para sanar a política israelense, pois não admitiam que um Primeiro Ministro israelense, concorra ao posto, com indiciamento de três graves acusações por fraude, suborno e favorecimento para empresas de amigos.

Já que o COVID-19 estava assolando o mundo, a convocação foi para formar um governo de emergência que combata a pandemia. O Kachol Lavan de políticos novatos foi salvar a Pátria. Numa época de emergência, constituíram o maior governo da história de Israel, com 35 ministros, 16 vice-ministros e muitos gastos dispensáveis.

Netanyahu até disse concordar em fazer rodízio na chefia do governo. Gantz aceitou e sugeriu que ele fosse premier, na primeira metade do mandato, enquanto o Netanyahu se prepararia para seus julgamentos. Netanyahu disse que iniciaria o governo e em novembro de 2021, lhe passaria o posto.

Gantz e seus políticos novatos aceitaram a proposta que totalmente contradisse um dos seus pontos de sua plataforma eleitoral. Caíram na armadilha que a raposa política do Netanyahu lhes colocou, a de continuar governando, tentando postergar, ou mesmo cancelar os seus julgamentos. O Primeiro Ministro que deve dar exemplo a todos, riu das acusações, dizendo: Não há nada nelas, pois elas não aconteceram.

Este governo, de menos de oito meses, nasceu em pecado e como gostava de dizer minha amiga Batia Z”L, em diversas ocasiões: “me engana que eu gosto”. Os dois políticos, e todos a sua volta, sabiam que não haveria rodízio no cargo e cada partido culpava o outro por não cumprir o que assumia.

Netanyahu, que nomeou o Procurador Geral, General (Res.) Dr. Avichai Mandelblit, que foi seu Secretário de Governo, ex Chefe da Justiça Militar e de sua inteira confiança, agora quando o indiciou por supostas violações criminais, tornou-se “esquerdista”. O mesmo ocorreu com o ex-Vice Diretor da Shabak, Roni Alsich, que Netanyahu trouxe para ser o Comissário da Policia de Israel, prometendo-lhe depois tornar-se o Diretor do Mossad. Roni, como Mandelblit, é religioso-nacionalista e vivia em um assentamento. Quando levou a sério as investigações contra o Primeiro Ministro, tornou-se “hostil” e seu mandato não foi renovado. Israel está há dois anos sem Comissário da Policia. Muitos acreditam que a nomeação não vem, para que os oficiais em exercício no cargo, sejam dóceis ao premier. Muitos altos oficiais da Polícia, inclusive envolvidos nas investigações das acusações que pairam sobre Netanyahu, já se demitiram.

O país está numa crise da coronavírus e o governo adota medidas certas de quarentena que, no inicio, deram bons resultados. Mas o Netanyahu, que gosta de ser o valentão, esmorece e não impõe as sanções que vigoram para todos quando os ultraortodoxos o ameaçam, porque estes estão acostumados a fazer cerimônias com muitos participantes e mais seguem seus rabinos do que as instruções do governo.

A crise econômica também não influencia o governo. Como já dito, é o maior governo com muitos ministros e cargos, que ninguém conhece e principalmente muitos gastos desnecessários. O Primeiro Ministro Netanyahu pediu um avião de passageiros exclusivo, Air Force One de Israel. O Boeing custa cerca de 800 milhões de shekalim e não tem tanta utilização. Da manutenção ninguém fala, mas custa muito. Sua esposa e filhos conseguiram obter carros blindados e seguranças, que nenhum familiar antes tinha.

Ele tenta evitar sentar no tribunal de Jerusalém como acusado e faz de tudo para não ter estes julgamentos. Trocou mais de 22 advogados da primeira linha. Quer que o Estado lhe pague as despesas judiciais.

Netanyahu acusou, antes das eleições, o Kachol Lavan, que formaria um governo com os árabes-israelenses. Ele sabia que a Lista Árabe Unida não entraria em nenhum governo e só o apoiaria nas votações no Knesset. Agora, necessitando dos árabes, contatou o deputado Mansur Abbas, que é do Partido Islamista, um dos quatro partidos que compõe a LAU, para obter seu apoio. De fato, teve. Na votação de quarta (2), para a dissolução da Knesset, a LAU votou a favor, menos a agremiação do Abbas. Esta votação é só para apresentar a moção da dissolução, que tem que passar pelo voto na Knesset para ser aprovada. O resultado foi de 61 a favor, 54 contra.

Israel não tem orçamento deste ano que já está terminando e ainda não tratou de apresentar orçamento governamental para 2021. Quando foi formado o governo, os dois líderes comprometeram-se de trazer o orçamento para ser votado em 100 dias. Gantz, ainda se iludindo, deixou uma fresta e disse no seu discurso critico ao governo de que participa, que só se o Netanyahu trouxer um orçamento antes do dia 23 deste mês, ele ficará. Ele ainda continua acreditando que um dia será o Primeiro Ministro, feito “me engana que eu gosto”.

Evidentemente que Netanyhau fez também boas coisas pelo país, mas como diz o ditado “O Governo corrompe”. Netanyahu afastou todos os veteranos do Likud, cercou-se de pessoas que o servem, por depender dele. O líder do Partido Yemina (religioso-nacionalistas, da direita), Naftali Benett, que foi seu chefe de Gabinete, e junto com Ayelet Shaked o deixou, disse: “Netanyahu quer ao seu lado anões enfraquecidos, não pessoas de ideologia direitista fortes” (14.5.2020). Na quarta, disse que apoia a dissolução do Parlamento, pois “temos um governo que não se importa com o povo. Governo que pegou uma nação de Startup e a transformou numa nação de discórdias e brigas”. Ayelet Shaked, do Yemina, que foi seu Ministro da Justiça ( 2015-2019), disse na quinta (3): “este governo é doente e não tem cura, tem que se demitir”.

A maioria dos israelenses acha que Netanyahu é o culpado pela crise politica (52%), enquanto 25% põe a culpa no Gantz.

Acredito que os políticos, principalmente, o Primeiro-Ministro, tem que dar exemplo ao povo. Se tem graves acusações penais, tem que enfrentar as acusações e tomara que consiga convencer o tribunal de sua inocência. Desacreditar a polícia, a justiça e a mídia de o perseguir, não faz sentido. Como nos Estados Unidos, ou mesmo no Brasil, o chefe do Estado pode se eleger para dois mandatos e depois se aposentar. Ou Netanyahu poderia passear pelo mundo e apresentar Israel melhor do que qualquer um.

P.S. Desejo a todos os leitores e seus familiares, Chag Chanuká Sameach e que as luzes de Chanuká iluminem a todos.

2 thoughts on “Me engana que eu gosto

  • 6 de dezembro de 2020 em 10:47
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    Volta e meia voce tenta denegrir a imagem de Netanyau perante os leitores desta revista. Primeiramente as acusacoes que foram apresentadas sao sem nenhum embasamento legal porque nao existem provas. Segundo, voce as qualifica de “graves” quando so a esquerda doente deste Pais assim as coloca. Terceiro a lei israelense permite ao Primeiro Ministro responder as acusacoes exercendo o mandato dado pelo povo em eleicoes democraticas. Quarto, pelas pesquisas semanais o Likud, representado pelo Sr. Bibi Netanyau tem ainda a preferencia da maioria dos eleitores e a crise politica e porque os membros do partido do Gantz querem impor a forca politicas esquerdistas guela abaixo o que o Likud nao permite. Entao a colocacao que voce faz de que o responsavel pala crise politica e o Netanyau e ERRADA! E o Gantz que a todo momento ameaca de novas eleicoes se o Likud nao concordar com eles nas leis de orcamento, e outras tentativas absurdas de leis. E o faz publicamente, pela imprensa, ao inves de como todo governo racional faria, discutir isso em gabinete e chegar a um denominador comum o que els o Partido do Gantz nao o faz! faz acreditar que ou voce e o dono desta revista ou esta revista e esquerdista e tendenciosa…

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  • 7 de dezembro de 2020 em 18:14
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    Esta revista apresenta a opinião de quem quer que seja. Acho você reler o artigo e comentar se tem alguma afirmação errada. A maioria da população não está com o Sr. Bibi, ele obtêm cerca de 25% da preferência popular. O sistema politico de Israel requer coalizões. Veja o que dizem dele os “esquerdistas” que o conhecem de perto, como Naftali Benett ou Ayelet Shaked. Infelizmente, ele consegue fazer divisão no povo. Me mostre um fato da direita que ele cumpriu: abriu a mão da anexação, Não construiu nada nos territórios ocupados, A cidade em nome do Trump, ficou no papel, Jerusalém está sendo invadida pela influência -malígma- da Turquia , etc… etc…Eu amo este país e me importo com ele. É inadmissível, que mais de 500 altas patentes militares assinaram um manifesto e o dirigente, não se importa. É inadmissível ver a policia deixar certos segmentos da sociedade fazerem o que querem e bater nas pessoas que protestam contra o Primeiro Ministro. Hag Chanuká Sameach

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