A semana difícil do Netanyahu

Por David S. Moran

Alguns leitores me perguntaram como é possível que com tantas críticas e dificuldades, as pesquisas de opinião pública ainda dão a Benjamin Netanyahu e ao seu partido, o Likud, a primazia para formar um novo eventual governo. Não tenho boa resposta para isto. Talvez seja sentimentalismo, talvez seu carisma e retórica, mas não há dúvida de que o Netanyahu está perdendo terreno.

Há um programa de TV em que o locutor inicia contando: “Já se passaram 59 dias da formação deste governo de Reconciliação, mas a Comissão de Reconciliação, ainda não se reuniu”. As rivalidades e as rixas entre Netanyahu e o líder do Kachol Lavan, Benny Gantz, o desgaste do público ao ver que nada, ou quase nada, é feito e ainda por cima o coronavírus voltou pior do que no começo da pandemia.

Já naquela ocasião, o Ministro da Defesa, Naftali Bennett, pediu para liderar o combate, pois o Exército tem uma grande unidade, “Comando da Retaguarda” (Pikud Ha’Oref), que tem todos os meios e pessoas para lidar com isto. Netanyahu não quis deixar a primazia para o rival do Partido Yemina. O mesmo ocorre agora, pois se o Ministro da Defesa e o Premier Suplente Gantz for bem sucedido no combate ao coronavírus, são pontos perdidos para o Netanyahu.

Na noite de Sábado (10) houve uma grande manifestação de autônomos preocupados com o fechamento dos negócios e a grande taxa de desemprego (22%) – cerca de 900 mil pessoas. Na manifestação participaram entre 10 a 30 mil pessoas, furiosos pela situação. Pior ainda, promessas do governo de depositar nas suas contas até cerca do equivalente a 1.500 dólares, o que não foi concretizado.

Rebeldia. O público em geral está perdendo a confiança de que as ações do governo são após estudos, ou se são lançadas conforme a pressão de certos grupos. Um dos exemplos é o de fechar piscinas e ginásios de clubes, mas deixar abertos os dos hotéis. Surpreendentemente, até a líder da Comissão da Corona no Knesset, deputada pelo Likud, Yfat Sacha-Biton, não acatou a instrução do seu líder e, apesar das ameaças de destituição, realizou a votação, contrariando a instrução do governo. O mesmo ocorreu com os aliados ultra-ortodoxos do Netanyahu. Estes reclamaram que as quarentenas são impostas mais facilmente em concentrações de ultra-ortodoxos e os haredim organizaram manifestações enfrentando a policia. Chegou ao ponto que Arie Deri, Ministro do Interior (Shas) desligou o telefone na cara do Netanyahu e o líder da Comissão das Finanças, Moshe Gafni (Yahadut Hatorá), não compareceu a um encontro dos líderes da coalizão. Os dois queriam mostrar seu desgosto pelas ações governamentais, do qual fazem parte.

Charge de Shlomo Cohen-jornal Israel Hayom, 14/5/2020

O Primeiro Ministro entendeu que tem que nomear um “czar” para concentrar e lidar com o COVID-19. Escolheu o Major-General (Res.) Roni Numa. Este após entender que não teria autonomia de ação recusou o convite. Impressionantemente, o Netanyahu tenta concentrar tudo em suas mãos e mesmo ante o apelo de proeminentes personalidades para deixar o “Pikud Ha’Oref” lidar e combater o coronavírus, ele recusa. O Major-General (Ref.) Amos Yadlin, que chefia o Instituto de Pesquisas da Segurança Nacional (INSS, em inglês) e entre outras foi oficial piloto da F.A.I e chefe do Serviço de Inteligência do Exército, implora: “Deixe o Tsahal (abreviação em hebraico do EDI) vencer. Israel está num combate complexo, uma grande guerra que não tivemos, desde a Guerra do Yom Kipur, em outubro de 1973 e parece que o governo ainda não aceita o fato. Lutamos em três frentes: da saúde, economia e social. Há em Israel uma só organização que sabe planejar, incorporar e implementar algo tão complexo. A excelente capacidade do Comando da Retaguarda junto com o Serviço de Inteligência, unidade 8200, Sayeret Matcal (unidade de Comando de Elite) e o Alto Comando ajudaram a vencer na primeira onda e agora não se aproximam. É impedida por motivos políticos e não estratégicos. A politica nos mata. Desabafa dizendo: “dá para imaginar que a startup nation e da alta tecnologia, que há poucos dias lançou um satélite ao espaço, coloca 27 enfermeiras armadas com lápis e papel para tentar conter a contaminação?”

Na terça-feira (14) foi “Dia da Bastilha” e milhares de manifestantes enfrentaram a Polícia, perto da residência oficial do Primeiro Ministro, em Jerusalém. Com anarquistas penetrando, depois de algumas horas houve quebra pau com a polícia e mais de 50 manifestantes foram detidos.

No dia seguinte, no horário nobre, em cadeia na TV, o premier Netanyahu expôs seu plano de ação para movimentar a economia. O governo depositará para cada individuo 750 shkalim, um casal com um filho receberá 2.000 shkalim, com dois filhos 2.500, com três ou mais filhos 3.000 shkalim. Para a surpresa geral, este plano não foi aprovado ainda no Knesset e pior foi duramente criticado pelo Governador do Banco de Israel e altos funcionários no Ministério do Tesouro. O Governador do Banco de Israel, Prof. Yaron disse que não foi consultado e só soube do plano pelos meios de comunicação.

O governo ao mesmo tempo declara que haverá confinamento nos fins de semana, de sexta à tarde até sábado à noite. Há uma desorientação e a população não sabe como agir. Muitos pensam que conforme vai chegando a data do julgamento do Netanyahu – 26 de julho – poderá haver mais bagunça e naturalmente como o próprio Netanyahu disse, quando foi o caso do Olmert: “Primeiro Ministro que será questionado no tribunal não tem mandato público e moral de tomar decisões tão importantes para o Estado de Israel” (Canal 2, em 2008).

O Ministro da Saúde, Yuli Edelstein já disse que é contrário ao fechamento das praias nos finais de semana, que é um dos poucos lazeres que a população tem e é ao ar livre. Terão que manter distância e não se aglomerar.

Enquanto uns discutem com os outros e ainda não se sabe quando teremos uma vacina para combater este vírus, que todos são unânimes em dizer que vai ficar, os números de novas pessoas que contraíram o COVID-19 atingem recordes no país. De quarta para quinta foram 1.898, totalizando desde o início da pandemia em Israel 44.714. Estão em estado grave 204 pessoas, das quais 56 entubados. 380 mortos. A guerra contra este mal já devia estar em andamento.

Foto: Alex Kolomoisky/Pool

One thought on “A semana difícil do Netanyahu

  • 17 de julho de 2020 em 11:34
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    “as pesquisas de opinião pública ainda dão a Benjamin Netanyahu e ao seu partido, o Likud, a primazia para formar um novo eventual governo. Não tenho boa resposta para isto” Mas a resposta e muito simples: Nao existe hoje ninguem que possa substituir Benjamin Netanyahu para governar israel! E isso a maioria dos cidadaos concordam, com excessao dos esquerdistas de plantao…

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