Entre ciganos na Romênia e beduínos em Israel

Por Janine Melo

“É melhor assim”, disse N. depois de me contar que planejavam transformar Bir Hadaj de uma aldeia em um yeshuv (assentamento meio-urbano, meio-rural). “É melhor como está agora. Porque agora, quando eu quero eu saio de casa e tenho espaço ao meu redor. Em um yeshuv, todo mundo vê a vida de todos, todos moram colados uns nos outros. Agora eu posso sair, não tem casa ao meu lado, não tem gente. Se fosse em um yeshuv seria mais difícil. Tem homens, sabe, na religião do Islã não é proibido mas é recomendado que uma mulher não fique na frente dos homens. É difícil de explicar.”

Eu saio da casa da minha família anfitriã às 16h46, respiro o ar frio do deserto do Negev e penso na conversa que tive com N., minha amiga de Bir Hadaj, algumas horas antes. O céu cinza e um pouco rosado do pôr do sol ilumina o povoado beduíno que ainda não foi legalizado. Eu ouço a mesquita no fundo da paisagem desértica junto com crianças rindo, vacas mugindo, galos cantando e um bebê chorando. Eu fecho os olhos e por um momento consigo imaginar como é a vida em uma aldeia.

Aldeia, e não assentamento.

Neste último sábado eu assisti ao filme “Acasa, my home”, que fez parte do Festival Antropológico da Cinemateca de Jerusalém. “Acasa” é um filme sobre uma família de ciganos que vivem no meio de uma reserva natural na Romênia, perto de uma grande cidade, e que são obrigados a deixar sua cabana e se mudar para a cidade devido a transformação da reserva em um grande parque urbano.

O filme mostra com uma sensibilidade enorme os dilemas enfrentados pela família e pelos representantes das instituições sociais romenas: será que a mãe, o pai e os 9 filhos devem continuar morando no meio da reserva, em uma cabana pequena, sem água corrente, eletricidade e instituições sociais (como escolas)? Será que eles devem se mudar para a cidade grande e deixar toda a vida a que estavam acostumados para trás, uma vida de pesca, caminhadas ao ar livre, uma vida onde a estrutura familiar é o seu mundo inteiro?

Parece que desde a independência do Estado de Israel até hoje, perguntas semelhantes são feitas pelas várias partes que compõem a sociedade israelense. Por um lado, os representantes estatais reúnem a população beduína e os transferem para novas cidades construídas com uma estrutura urbana que não se adequa às necessidades das tribos e famílias. Por outro lado, há uma oposição clara até hoje por parte das pessoas de aldeias beduínas não reconhecidas legalmente em se tornar um yeshuv (assentamento). Isso, porque há um medo de que a transformação destas aldeias em assentamentos urbanos como os da população judaica leve à destruição da estrutura de vida que eles conhecem até hoje.

O filme sobre a família Enache termina de uma forma muito negativa. Os membros da família têm saudades de sua cabana, eles não passaram por um processo de integração na sociedade e, portanto, suas vidas se tornaram periféricas como a das outras pessoas da classe baixa na Romênia.

No entanto, esse fim não deve acontecer em todos os países onde minorias vivem de forma diferente da maioria dos residentes do país. Yaara Rozner-Manor (2013) escreve detalhadamente em seu trabalho de tese de mestrado sobre como os espaços rurais beduínos apresentam padrões de construção com uma ordem interna, e como isto apresenta ao Estado a possibilidade de desenvolver esses novos yeshuvim a partir dessa ordem interna de espaço.

A pergunta a ser feita, portanto é: será que as forças estatais aceitarão esta possibilidade ou irão rejeitá-la totalmente?

Leia o texto completo (em hebraico) em um site de antropólogos israelenses.

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