Os desafios externos do governo Bennet-Lapid

Por Janine Melo

73 anos após seu estabelecimento, o Estado de Israel ainda luta pela legitimidade de seu próprio estabelecimento como um Estado judeu e democrático. Hoje, por incrível que pareça, a luta pela legitimidade também é travada contra seu melhor aliado: os Estados Unidos.

Nos últimos anos, Israel se comportou como o melhor amigo dos Estados Unidos sob a administração de Trump e, em grande medida, como Shimrit Meir escreveu no jornal Yedioth Ahronoth, como o braço do Partido Republicano no Oriente Médio. Essa conduta afetou diretamente o outro lado da política americana em relação a Israel: desde que Trump chegou ao poder, a ala progressista do Partido Democrático floresceu. Se no passado Benny Sanders era o único que falava sobre a necessidade de se opor à assistência de segurança a Israel, ou pelo menos condicioná-la de certas maneiras, hoje essas ideias são mais ouvidas dentro do partido.

Na recente operação “Guardião das Muralhas”, a lacuna entre os dois partidos parece ter se tornado enorme: enquanto 61% dos republicanos acreditam que o governo Biden não apoiou Israel o suficiente durante a operação, apenas 10% dos democratas pensam assim.

O caminho que se abriu para trazermos Israel de volta aos bons olhos do público americano, em ambos os lados da política, se vê na futura formação do “governo de mudança”, que irá ocorrer no próximo domingo. O governo Bennett-Lapid terá que lidar com os muitos desafios deixados pelos 12 anos de governo de Netanyahu, tanto em assuntos internos quanto externos.

Um exemplo disso é o tratamento das investigações contra Israel no Tribunal Penal Internacional em Haia. Outro exemplo, que é mais ouvido no discurso público, é a volta dos Estados Unidos ao acordo nuclear com o Irã. Nesse caso, Washington entende que o governo novo também se oporá ao retorno do acordo, e até espera que este se oponha a ele. A dúvida, porém, está no tom que o novo governo usará contra o acordo nuclear. Segundo Nadav Eyal, um conceituado jornalista israelense, esta é uma decisão significativa para o novo governo porque se este usar um tom extremista e violento, Israel poderá prejudicar suas relações com os Estados Unidos, e se apresentar uma posição fraca, o governo não alcançará as mudanças de segurança que pode e deseja, como compensação pelo acordo.

Por enquanto, devemos esperar e ver como as importantes relações entre os dois países serão restauradas e se a posição pública nos Estados Unidos mudará a favor do Estado de Israel. Esperemos que sim.

Fotos: Wikimedia Commons