Decifra-me ou devoro-te

Por Nelson Menda

A mitologia greco-romana sempre inspirou escritores, com destaque, no Brasil, para o genial Monteiro Lobato, insuperável no relato das histórias que tivemos o privilégio de ler ou escutar na infância e adolescência. E, os mais jovens, pela fantástica série “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, exibida pela televisão.

Aqui nos Estados Unidos não é muito diferente, pois criança que se preze adora histórias e meus netos de 5 e 6 anos podem ficar horas a fio escutando os relatos do personagem juvenil Percy Jackson, criado pelo escritor Rick Riordan. O autor conseguiu misturar ficção à própria ficção ao agrupar figuras da mitologia grega ao jovem Percy, filho de Posseidon, soberano dos mares e de uma suposta mãe de carne e osso. Para temperar as aventuras o escritor incluiu, intencionalmente, relatos de hipotéticos personagens mitológicos com acontecimentos corriqueiros do dia-a-dia, ao transferi-los do Olimpo para cidades como Nova Iorque, São Francisco e outras. Deu certo, a ponto de seus livros, vídeos e DVDs terem atingido a casa de milhões de cópias e os filmes serem exibidos, com sucesso, na TV e demais mídias. Meus netos adoram escutar, extasiados, essas histórias, sinal de que o escritor acertou no alvo.

Lobato utilizou a mesmísima mágica há várias décadas, ao transpor deuses e demônios mitológicos da antiga Grécia para um sítio no interior de São Paulo. Mesclou-os com Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Rabicó, Dona Benta e a inesquecível Tia Nastácia. Seria pura coincidência ou o escritor norte-americano teria se inspirado no brasileiríssimo Lobato? Que, por ironia do destino e suprema falta de bom senso, um negacionista de Pindorama tentou imputar-lhe a pecha de racista, por ter chamado Tia Nastácia de negra. Deveria ter lido o conto “Negrinha”, do mesmo autor, para conhecer a posição liberal e profundamente anti-racista do talentoso descendente de judeus José Bento Monteiro Lobato. Em que o nome Bento nada mais é do que a versão aportuguesada da palavra hebraica Baruch, ou seja, Abençoado.

A Mitologia não inspirou somente escritores, pois nosso patrício, com justificado orgulho, Sigmund Freud, usou e abusou de personagens como Édipo e Eletra para analisar as variáveis do comportamento humano.

Mas não pretendo me estender sobre Zeus, Posseidon nem os Complexos de Édipo ou Eletra neste Blog. Vou abordar a fantástica lenda a respeito da Esfinge, mitológico personagem híbrido constituído por um corpo de leão adornado por uma cabeça humana que aterrorizava os habitantes da legendária cidade de Tebas com uma pegadinha quase irrespondível: “De manhã tem quatro pés, ao meio-dia, dois e, à tarde, três”. E concluía com uma terrível ameaça: “Decifra-me ou Devoro-te”. Deve ter se empanturrado com a legião de vítimas que não conseguiu decifrar a charada.

Até que, em um determinado dia, Édipo, outro amargurado personagem do fantástico mundo da mitologia, conseguiu acertar a resposta. Livrou-se da morte e, de lambuja, assegurou uma boa qualidade de vida para este que vos escreve e todas as demais pessoas que já estão na fase três da referida profecia. Édipo conseguiu decifrar o enigma ao relatar à Esfinge que o “de manhã tem quatro pés” nada mais era do que a imagem figurada de uma criança engatinhando. “Ao meio-dia, dois”, a de um adulto bípede e o “à tarde, três”, de uma pessoa idosa – e sábia – que necessita de um bastão para se apoiar. Antes de me alongar sobre a fase três é importante relatar que a despeitada Esfinge, inconformada com a resposta correta de Édipo, resolveu pôr fim à vida, jogando-se de um penhasco, em uma genuína tragédia grega.

Como Ortopedista que passou algumas décadas orientando idosos a evitar quedas e fraturas, estou utilizando, em benefício próprio e dos demais leitores, todos aqueles ensinamentos que repeti, anos a fio, aos meus pacientes. Com destaque para as vantagens da utilização de bastões, bengalas e outros recursos de proteção a quem já dobrou o Cabo da Boa Esperança. Uma das regras de ouro para evitar quedas em pessoas de mais idade, que costumam ocorrer à noite, é orientá-las a levantar da cama em dois tempos, para que a circulação cerebral retorne, pouco a pouco, ao normal e elas não percam o equilíbrio. Outra dica importante é a utilização de bengalas, muletas, andadores ou outro recurso que propicie segurança ao caminhar.

Dos primitivos bastões da mitologia a ciência evoluiu para sofisticadas bengalas que não só permanecem em pé por conta própria como também, em alguns casos, auxiliam a própria locomoção. Todavia, chega uma fase – ou idade – em que as bengalas não são suficientes para garantir a estabilidade dos, digamos assim, menos jovens. É o momento de deixar a vaidade de lado e passar a utilizar os andadores. À medida que fui adentrando na idade passei a utilizar diferentes modelos de andadores, denominados walkers em inglês. Reservei um, convencional, para utilizar dentro de casa e adquiri um outro, leve e dobrável, para transportar no carro. No caso dos andadores, pode-se aplicar a máxima de uma antiga campanha publicitária: “não saia de casa sem ele”. Fomos premiados, pela própria evolução da ciência, a viver duas a três décadas a mais do que as gerações que nos antecederam. Então, toca aproveitar, gente, com tanta coisa legal para fazer, mesmo em tempos de pandemia.

Quanto ao Édipo, não queiram imaginar a maldição que os deuses despejaram sobre sua cabeça. Matou, acidentalmente, o próprio pai, Laio e acabou casando, sem saber, com Jocasta, sua mãe. Os nomes de muitos desses heróis e anti-heróis da mitologia tem ajudado não só a abastecer a Psicanálise, ao batizar os diferentes complexos que acometem os seres humanos, como também a ilustrar a vida e os palcos teatrais com personagens que continuam atuais, para gáudio dos atores e espectadores e a felicidade geral dos Psicanalistas.

Foto: Pikist

4 thoughts on “Decifra-me ou devoro-te

  • 22 de outubro de 2020 em 22:47
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    Nelson, acabei de voltar de uma consulta com um ortopedista. Dor nas mãos. Creio que, de tanto teclar, acabei com ela. Abraços.

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  • 22 de outubro de 2020 em 23:59
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    Grandes Max e Mauro. Quando eu atendia, no consultório, algum(a) paciente com um probleminha banal, como esse do Mauro, fazia uma cara séria e afirmava: “Vai morrer com isso, mas não vai morrer disso”! Troque a digitação do teclado pela locução e as dores vão embora, mas nada supera um texto bem escrito.

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    • 1 de novembro de 2020 em 02:41
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      Excelente texto. Rico nas abordagens históricas aplicadas ao nosso quotidiano atual. Grandes dicas de saúde para todos nós que mais cedo ou mais tarde estaremos chegando lá.
      Nelson, você é brilhante!
      Abs.

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