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Ano novo para nossa nação: Inovação ou Renovação?

Por Beny Rubinstein

O mês de setembro é repleto de feriados no calendário judaico. Para muitos, eles representam uma oportunidade para descanso e lazer. Para outros, além de “férias”, o mês de setembro – e em especial os 10 primeiros dias do mês de Tishrei (entre o Rosh Hashaná e o Yom Kipur) – representam uma oportunidade para fazerem um “Hit Refresh” em suas vidas (para fazer referência ao livro de Satya Nadella, CEO da Microsoft). Mas o que significa isso? Será realmente possível dar um “CTRL-ALT-DEL” ou “Restart” em nossas vidas? Como fazê-lo e como esse processo chamado “Teshuvá” funciona?

Desde minha infância no Rio de Janeiro, acompanhava com curiosidade (e com algum ceticismo, confesso, aproveitando a proximidade do Yom Kipur) os “rituais” (que muitas vezes aparentavam ser apenas “superstições”) na orla de Copacabana: desde pular 12 vezes em um pé só (fazendo um pedido para cada dia do ano), até vestir-se de branco para atrair a “paz” (ou de amarelo para atrair ganhos financeiros). Para muitos, barquinhos enviados com oferendas a Iemanjá na virada do ano (além de flores lançadas ao mar) têm um significado profundo em sua fé. Para outros, não representa um valor consistente com seus princípios e crenças. Uma coisa parece ser certa: muitos seres humanos (oriundos de diversos backgrounds religiosos) vislumbram no “Ano Novo” (que pode ser celebrado em datas diferentes de acordo com seus calendários) uma oportunidade para renovação.

Agora voltemos a um tópico ainda mais fascinante: a relação entre ciência, filosofia, religião. Confesso que, durante meus cinco anos de graduação em Engenharia de Computação da PUC-Rio, fiquei fascinado com um curso obrigatório (que por sinal a grande maioria dos meus colegas julgava ser inútil para nossa formação): Filosofia da Ciência. Para muitos estudantes (judeus ou cristãos), parecia um paradoxo que um engenheiro, ou cientista, tivesse que estudar “Cristianismo”, “Ética Cristã” ou “O Homem e o Fenômeno Religioso” (cursos que, ainda que como judeu eu não pratique o Cristianismo, me ajudaram a adquirir uma visão mais ampla de como pensa e evolui a humanidade).

Para chegarmos ao tema da Inovação e Renovação, convém entendermos um pouco da vida, obra e pensamento de um dos judeus que mais “renovaram” a visão periférica do judaísmo: Maimônides.

“DE MOISÉS a Moisés ninguém surgiu igual a Moisés”. Muitos judeus reconhecerão esta descrição críptica como dito de admiração pelo filósofo, codificador e comentador judeu do Talmude e das Escrituras, do século 12, Moisés ben Maimon, também conhecido por Maimônides e por Rambam (Rambam é um acrônimo hebraico, nome formado pelas letras iniciais das palavras “Rabi Moisés ben Maimon).

Maimônides nasceu em Córdoba, na Espanha, em 1135. Seu pai, Maimon, que lhe deu grande parte de seu primeiro treinamento religioso, era um renomado erudito duma distinta família rabínica. Quando os almóadas conquistaram Córdoba, em 1148, os judeus se viram confrontados com a escolha de se converter ao islamismo ou de fugir. Assim começou um longo período de peregrinação para a família de Maimônides. Em 1160, estabeleceram-se em Fez, no Marrocos, onde ele recebeu treinamento médico. Em 1165, sua família teve de fugir para a Palestina.

“Palestina” nunca foi o nome de uma nação ou estado. É na verdade um termo geográfico utilizado para designar uma região abandonada ao descaso desde o século II d.C. Milhares de anos antes dos romanos criarem o termo “Palestina”, a região era conhecida como Canaã. Leia: HISTÓRIA E SIGNIFICADO DE “PALESTINA” E “PALESTINOS” | Ensinando de Sião (ensinandodesiao.org.br).

Porém também lá a situação era instável. A pequena comunidade judaica enfrentava o perigo tanto dos cruzados da cristandade como das forças muçulmanas. Cerca de seis meses após sua chegada, em meio a muita turbulência, Maimônides e a família finalmente encontraram refúgio em Fustat, a Cidade Velha do Cairo, no Egito. Foi ali que os talentos de Maimônides foram plenamente reconhecidos. Em 1177, ele se tornou o chefe da comunidade judaica, e em 1185 foi nomeado médico da corte de Saladino, o famoso líder muçulmano. Maimônides reteve ambas as posições até a sua morte em 1204. Sua perícia médica era tão renomada, que se diz que o Rei Ricardo Coração de Leão, da distante Inglaterra, fez tentativas para fazer de Maimônides seu médico particular (Fonte: https://wol.jw.org/pt/wol/h/r5/lp-t – Biblioteca On-line da Torre de Vigia).

Mas o que um médico e rabino que viveu há quase mil anos tem a ver com inovação e renovação? Maimônides era um escritor prolífico. Enquanto fugia da perseguição muçulmana, escondido e como fugitivo, ele compilou a maior parte da sua primeira grande obra, Comentário da Mishná. Escrito em árabe, elucidava muitos dos conceitos e termos da Mishná (primeira grande redação na forma escrita da tradição oral judaica, chamada a Torá Oral), às vezes passando para explanações da filosofia de Maimônides sobre o judaísmo.

Maimônides procurava definir a ordem lógica de todas as coisas: quer físicas, quer espirituais. Ele rejeitava a fé cega, exigindo explicações para tudo à base do que ele considerava serem provas racionais e a lógica. Esta inclinação natural levou à escrita da sua obra-prima, Mishneh Torah. Maimônides passou então a escrever outra grande obra, o Guia dos Perplexos (recomendo a leitura). Em vista da tradução dos clássicos gregos para o árabe, mais judeus ficavam familiarizados com Aristóteles e com outros filósofos. Alguns estavam perplexos, achando difícil conciliar o sentido literal de termos bíblicos com a filosofia. No Guia dos Perplexos, Maimônides, que muito admirava a Aristóteles, procurava explicar a essência da Bíblia e do judaísmo duma forma que se harmonizasse com o pensamento e a lógica filosóficos. Além dessas grandes obras e de outros escritos religiosos, Maimônides escreveu com autoridade nos campos da medicina e da astronomia.

Renovação tem origem no vocábulo latino renovatĭo. O termo está associado à ação e ao efeito de renovar (tornar algo no seu estado inicial, deixá-lo como novo, reestabelecer algo que se tinha interrompido, substituir uma coisa velha por outra nova da mesma categoria ou natureza, substituir algo). É habitual que a noção de renovação seja aplicada relativamente às mudanças físicas que se desenvolvem sobre uma coisa ou à substituição de algo concreto. Maimônides não alterou o judaísmo; porém como um grande inovador, Maimônides, através de seu “growth mindset” rejeitou o “dogma” de que religião, filosofia e ciência são “irreconciliáveis” ou “incompatíveis” – e que razão e religião não podem coexistir – analisando assim a Torá e os textos sagrados dentro de um contexto e uma perspectiva mais ampla. Maimônides talvez possa ser considerado como homem da Renascença que viveu antes dela. Sua insistência em que a crença seja coerente com a razão ainda é um princípio válido. Como qualquer inovador, Maimônides a muitos influenciou – e não a poucos incomodou.

O falecido Prof. Leibovich, um dos maiores estudiosos do Rambam, da Universidade Hebraica de Jerusalém, declarou: “Maimônides é o personagem mais influente na história do judaísmo, desde a era dos Patriarcas e dos Profetas até a presente”. A Enciclopédia Judaica observa: “A influência de Maimônides sobre o desenvolvimento futuro do judaísmo é incalculável. C. Tchernowitz vai ao ponto de afirmar que, se não fosse por Maimônides, o judaísmo se teria desfeito em diversas seitas e crenças. Sua grande consecução foi unir as diversas correntes”.

Voltando às “vacas frias”: o que exatamente devemos esperar do novo ano que se inicia (5782)? E mais: o que exatamente significa “Teshuvá”? Como fazer desta mudança no calendário uma verdadeira transformação e renovação em nossas vidas?

Um artigo de 2008 da Revista Exame já dizia: “Renovação (e não inovação) é a chave do sucesso”. Tendo atuado intensamente nos últimos 15 anos em organizações verdadeiramente inovadoras e em iniciativas de transformação, um dos maiores aprendizados vêm de Albert Einstein: “Nós não podemos resolver um problema, com o mesmo estado mental que o criou”. Nossa tradição de milhares de anos tem muito a nos ensinar, porém não é à toa que todos os anos recomeçamos a leitura dos cinco livros da Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) a partir da Parashá Bereshit (a criação do mundo). Faz sentido ler e reler o mesmo capítulo todo ano? Será que podemos aprender algo novo ao reler o mesmo capítulo todos os anos? Bem, já dizia Heráclito (filósofo grego): “Um homem não entra no mesmo rio duas vezes”. Pois, parece ilógico, não? Acontece que na segunda vez, aquele rio já não é o mesmo rio, e aquele homem já é um outro homem. E neste ano, quando eu reler a Parashá Bereshit, certamente suas palavras estarão escritas da mesma forma, mas possivelmente encontrarei significados e contextos diferentes para sua aplicabilidade pois o ano que passou muito me ensinou, inclusive sobre quem quer ser e o que quero fazer no próximo ano.

Aqui fica um convite: ao fazermos o processo de Teshuvá esse ano, lembremos de que não é suficiente olharmos para trás e nos arrependermos dos erros que cometemos (este é um bom começo). Olhemos para frente, e tracemos um plano de renovação: de nossa fé, de nossa esperança, de nossos sonhos, objetivos, compromissos e propósito. Em hebraico a palavra תשובה, literalmente, significa o retorno; é a prática de voltar às origens do judaísmo, é um despertar espiritual, um desejo de reforçar a conexão entre o indivíduo e D’us. Logicamente, para cada indivíduo esta conexão pode se manifestar de formas diferentes; portanto o importante é achar a sua forma de renovação, para que esta passagem de ano, mais do que um ritual, represente de fato um passo concreto para a evolução e a inovação de cada um de nós.

As empresas – startups ou multinacionais – costumam fazer um “plano estratégico” para o ano seguinte. Recentemente ministrei uma palestra a cerca de 30 CEOs/fundadores de startups no México e em Honduras que participam do processo de aceleração do programa MassChallenge. A base deste planejamento estratégico (que lamentavelmente não recebe o devido cuidado na “pressa” por traçar já o novo plano) é a revisão do que se aprendeu no ano anterior, e como isso afeta a missão, a visão e os valores da empresa – seu propósito. Só assim pode-se “renovar” o plano estratégico para o ano que se inicia, e inovar.

Nós, inovadores, empreendedores, amantes da poesia, da criação, merecemos a nossa própria renovação, que pode se manifestar pela arte, pela ciência, pela prática religiosa, pela mudança de carreira, pelo estudo de um novo idioma e de muitas outras maneiras, não mutuamente exclusivas, exatamente como provou o grande rabino, filósofo, cientista e médico Maimônides, já que somos compostos de carne e osso, corpo e alma, espírito e matéria.

Neste Yom Kipur desejo a todos que renovem suas energias, suas esperanças e sua “bagagem” intelectual, material e espiritual – para que possam “viajar” a novos destinos, atingir suas metas e viver com cada vez mais propósito e alegria. No mundo empresarial, inovar é essencial. Seja você mesmo (ou mesma) a sua empresa, sua startup, seu empreendimento. Invista em si próprio. Arrisque. Ouse. Ouça. Pense. Aja. Erre. Acerte. Caia. Levante-se. Inovação, renovação e redenção – é preciso reflexão e ação!

“Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas” (Mario Quintana (Jornalista, escritor e poeta nascido no Rio Grande do Sul – 1906-1994)

12 comentários sobre “Ano novo para nossa nação: Inovação ou Renovação?

  • Parabéns pelo texto!
    Muito interessantes as analogias entre religião e o mundo dos negócios.
    E que foquemos na renovação em todos os aspectos neste novo ano quw se inicia.

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    • Amen! Obrigado, Daniel! Que aprendamos a viver com constante renovação e em modo “não binário”! Mente aberta, tudo converge…precisamos “apenas” to connect the dots 😉 Gmar chatima tova!

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      • Sensacional, Beny.
        Abordou de maneira brilhante, curiosa e instigante, assuntos que se cruzam de forma a conduzir o leitor a um nível elevado de percepções e conclusões. Parabéns!!

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  • Sempre aprendendo com você Beny!
    Texto impecável!
    Gmar hatima tova!

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    • Muito bom o texto! Gosto muito de como você consegue juntar argumentos sobre religião e ciência! Continue a escrever, seus textos me inspiram!

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  • Parabens Beny, achei seu texto inspirador e muito interessante.
    Voce sabe combinar ideias de fontes bem diversificadas de forma inovativa e coerente.
    Gmar Chatimah Tovah!

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    • Obrigado Hayim! Agradeço por suas palavras generosas…de fato admiro aqueles que conseguem “casar” várias ciências e até mesmo questões espirituais e materiais, pois vivemos em um mundo que não é mutuamente exclusivo e 1+1 às veses pode ser =3 (este é o segredo de parcerias estratégicas por exemplo!) – para isso precisamos às vezes olhar para algo estabelecido há séculos com uma ótica diferente para progredirmos! O novo livro do Miachael Eisenberg – Tree of Life and Prosperity – é um ótimo exemplo disso, combinar a sabedoria da Torá com business!

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  • Texto muito claro , objetivo não obstante terem tantas ideias diferentes, porém convergentes, de maneira inteligentemente orquestrada. Parabéns brother 🥰😘❤️ Chatimá tová! Te amo !

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    • Obrigado, muita saúde, paz e amor! Usaste as palavras-chave: diferentes porém convergentes quando/se orquestradas – um desafio que observo recentemente em um ambiente em que as pessoas cada vez mais esperam respostas rápidas (o que significa que muitas vezes as peças permanecem desconectadas).

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  • Super texto Beny, com analogias sempre pertinentes entre ciencia e religiao, eu adoro esse tema ja que como uma pessoa “de exatas”, tudo sempre me soa mais logico quando podemos ter uma prova, evitando simplesmente a crer em algo somente pela crenca sem explicacao. Ha muito tempo li um livro chamado Fe e Ciencia, com cartas que o Rebe Lubavitch recebia de seus seguidores e ele o transformou numa coletanea com seus comentarios. Achei fantastico e recomendo para os que gostam do tema. Gmar Chatima Tova!!!

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