Capicuas

Por Nelson Menda

Estarei me despedindo da capicua 77 antes do final deste mês e a próxima, pelo jeito, ainda vai demorar um bom par de anos para acontecer. Para quem não conhece o significado dessa estranha palavra, aí vai uma ajudinha. Capicua nada mais é do que a duplicação de um determinado algarismo, como 11, 22, 33 e assim por diante. Como meu aniversário vai cair no final deste mês de novembro, pretendo deixar o conforto dos 77 bem vividos anos para mergulhar, dentro de poucos dias, na aventura das 78 primaveras. Tenho de aproveitar o finalzinho desta, pois ainda vão ficar faltando onze longos anos até a capicua dos 88.

Como sempre tem acontecido na minha vida, estou cheio de planos para os próximos meses, a começar pela transferência da acolhedora casa da minha caçula, onde estou hospedado desde que cheguei a Portland, para um apartamento localizado, Baruch Hashem, em uma das áreas mais atraentes da cidade. Sempre valorizei o privilégio de poder descortinar uma bonita vista da minha própria janela e tenho tido a sorte de encontrar lugares paradisíacos para residir, sem ter sido preciso dispender uma fortuna para isso.

Minha diáspora pessoal, ao fazer as malas e embarcar em um fusquinha do meu saudoso Rio Grande do Sul em direção ao Rio, parece que vai se encerrar com um Happy End, como nos clássicos de Hollywood. Oxalá esse próximo apartamento represente um autêntico repouso do guerreiro, ao agregar espaço e conforto a um panorama deslumbrante. Sem mencionar o sistema de climatização ideal, de aquecimento central para enfrentar o frio do inverno e “ar refrigerado para os dias de calor”, como naquela antiga marchinha de carnaval. Tudo isso, acreditem, por um valor bastante acessível. Qual o segredo?

Depois de morar em uma série de apartamentos em Coral Gables e Miami Beach, na Flórida, os chamados Condos, dessa feita vou residir, pela primeira vez, em uma Coop. Tanto os Condos quanto as Coops possuem suas próprias idiossincrasias. Uma delas é não permitir a presença dos chamados melhores amigos do homem, mais conhecidos pela denominação científica de Canis familiaris. Minhas filhas sempre tiveram cães e a solução, para driblar a proibição, foi alegar a necessidade de um cusco, como essas criaturas são chamadas no dialeto gauchês. A mais velha descobriu a existência de uma lei que torna obrigatória o respeito à presença de um animal para a sacrossanta missão de prover “emotional support” aos moradores de uma residência. Suporte emocional que tanto pode significar a presença de um passarinho quanto um gato, um papagaio ou, e aí vem o mais importante, um cachorro.

Só que as Coops tem algumas regras bastante peculiares. Graças a essas peculiaridades poucos bancos se dispõem a financiar a aquisição de uma unidade nesse prédio, o que acabou facilitando minha vida, pois grande parte dos norte-americanos depende de financiamento para adquirir um imóvel próprio. Estarei me mudando para um edifício extremamente bem localizado e administrado, com uma vista deslumbrante para os bosques e montanhas que circundam a cidade de Portland, por um valor bastante razoável.

Não vou poder contar com a companhia de um cachorro, como a Lucy, gigantesca e dócil Newfoundland, a Luna, Labradora que só pensa em comer ou a pequena Sally, uma mistura de Maltese com Terrier, por sinal a mais inteligente das três. Vou poder matar as saudades desses bichos quando visitar minhas filhas.

Para ser aceito pelos demais moradores precisei me submeter a uma entrevista com todos os componentes do Board, pelo Zoom, que estava meio empatada até o momento em que mencionei este Blog. Meus futuros vizinhos se encantaram ao saber que iriam compartilhar o espaço com um “escritor”. Expliquei-lhes que o Blog era redigido em português, mas uma simpática senhora afirmou que não haveria problema. Bastaria enviar os textos para o eficiente administrador do prédio, que ele trataria, com auxílio do Google Translator, de encaminhá-los, já vertidos para o inglês, aos demais moradores. É o que já vem acontecendo há algumas semanas, o que significa que meus comentários e as observações de alguns leitores já estão sendo compartilhados com os futuros vizinhos do prédio.

D. Pedro II, ao partir para o exílio, fez questão de levar um punhado de terra do Brasil. Para amenizar o “banzo” optei por escolher madeira nativa de Pindorama como revestimento do piso do novo apartamento. Apesar do escritório do meu pai ter prestado serviços de contabilidade para diferentes fábricas de móveis de Porto Alegre, nunca tinha escutado o nome dessa árvore. Trata-se da Cumaru, nativa do Centro-Oeste e Extremo Norte do Brasil e muito resistente a fungos, parasitas e cupim.

Iniciei este texto com a palavra capicua, para aproveitar a oportunidade de encerrá-lo pela expressão cupim, que nada mais é do que um termo de origem indígena desconhecido em Portugal, onde é chamado caruncho. O mesmo, por sinal, que se utiliza no sul do Brasil, provavelmente trazido pelos colonizadores açorianos que povoaram Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.

Quando este Blog estiver sendo veiculado pela Bras.il já terei assinado o closing (escritura) e recebido as chaves do novo apartamento. A bem da verdade, não tão novo assim, pois o prédio foi construído em 1960, mas felizmente, por contar com um excelente serviço de manutenção, encontra-se em impecável estado de conservação. É a vantagem desta Coop, onde todos os moradores são proprietários de suas respectivas unidades e devotam um carinho todo especial pelo prédio.

Aprendi com minha mãe, Z”l, que a tradição judaica recomenda, quando alguém se muda, ocultar um naco de pão dormido em algum compartimento da nova casa, para garantir sorte e felicidade. É o que pretendo fazer para não interromper essa antiga corrente. Além, é claro, de afixar uma Mezuzá do lado direito da porta de entrada, para que os bons ventos continuem soprando não só para mim e meus familiares como também para os amigos, os futuros vizinhos e os fiéis leitores deste Blog.

Foto: Ana Menda

8 thoughts on “Capicuas

  • Pingback: Capicuas - Rede Israel

  • 19 de novembro de 2020 em 13:31
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    Segundo o Talmude, o fetiche da sorte é, ao entrar na nova morada, é dito ser judaico: “levar consigo, escondido na bolsa, um naco de pão ou um punhado de trigo, um pote de mel, uma colher de sal, e um cestércio de ouro”! para que não falte a comida, a vida doce (como o mel que significa a felicidade e a abundância), a purificação (o sal) e a riqueza! Na Beira e em Trás-os-Montes (em Portugal) e nos Açores, existe o mesmo dizer, só que o “um cestércio” é trocado por uma “moeda” de ouro. E a moeda, na geração do meu pai, era quando ia cumprir o serviço militar (o pai dava ao filho) ou no casamento (a mãe dava um fio de ouro à filha). E a moeda era (e ainda é, para quem pode) a libra esterlina. Nos Açores a libra de ouro era dada no nascimento da criança, ou no baptismo, apenas aos rapazes. O primogénito herdava a moeda do pai, avô, bisavô, etc., tal como o fio de ouro circulava na genealogia feminina. Ainda assim é, quando se deixa a casa paterna, e se leva “a bolsa com o pão seco ao sol, o mel, o sal e a moeda), que se conserva e se renova sempre que se muda de casa!
    Pela moeda, o cestércio, o costume vem do tempo da dominação romana da Ásia Ocidental.
    Então, você só tem de trocar o cestércio de ouro por um dólar americano, em ouro!
    No entanto, eu acho que é originário da Ásia Central (os nómadas mongóis traziam na bolsa pão ou cereal, mel e sal) que chega ao Médio Oriente (os nómadas persas trazem tâmaras, mel e sal) e aos beduínos do norte de África (os nómadas saharianos trazem tâmaras, alfa=cereal e água; algum sal, que ficava do que vendiam).
    Os árabes e persas islâmicos, oferecem sal, mel ou tâmaras, à saída das mesquitas, onde se deve deixar uma moeda para os mais carenciados. Daí a minha interpretação, de ser um costume dos povos nómadas dessas regiões áridas.
    BOA SORTE no seu novo ninho, seja o que for que leve na bolsa, bem escondida. Leve também um saco grande cheio de saúde, que dê, pelo menos, até às próximas capicuas!
    A vista de outono é magnífica.

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    • 19 de novembro de 2020 em 19:45
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      Obrigado, Eugénia, pela aula. É impressionante como certos hábitos, aparentemente familiares e relativamente recentes, tem origem milenar. Bjs. Nelson

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  • 20 de novembro de 2020 em 15:17
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    Mas bah, Nelson! Sempre tiveste sorte e bom gosto nos lugares que moraste. Continuas assim e te parabenizo. “Mazal bueno ke tengash”. Eu também me despeço da capicua/palíndroma, só que um pouco mais tarde, março do ano que vem – rumo aos 88, 99 e, depois, só 111!!! Para encerrar, não tem uma vaguinha prá mim aí no Eden?

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  • 21 de novembro de 2020 em 01:32
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    Oi, Davi e Ana. Será um prazer recebê-los em Portland, mas recomendo evitar os meses de inverno quando, além do frio, amanhece tarde e anoitece cedo, uma espécie de Porto Alegre piorada. Abs. Nelson

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  • 21 de novembro de 2020 em 17:46
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    Nelson querido, como sempre, adorei ler vc!
    Fico muito feliz em saber que a família está agora toda reunida em Portland, segundo a Aninha eu gostaria muito da cidade, é montanhosa , fria e calma, parecida com Tere.
    Quem sabe um dia poderei ir visitar vcs?
    Beijo grande, rume para o WhatsApp, vamos nos ver mais!

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  • 21 de novembro de 2020 em 21:22
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    Oi, Sandra. Vc. tem razão, pois Portland e Teresópolis se parecem. Quando quiser pintar por aqui, será um prazer recebê-la. Bjs. Nelson

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  • 26 de novembro de 2020 em 21:26
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    Parabéns pela nova aquisição! Te desejo muita sorte e felicidades na nova morada, e, agora, a partir de hoje, já na próxima contagem rumo aos 88 com saúde e paz! Que disfrutes!
    Bj grande a todos da família.

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