CONFARAD

Por Nelson Menda

A inspiração para organizar um evento que permitisse congregar pessoas interessadas na tradição e cultura da coletividade sefaradi foi baseada nos inúmeros congressos médicos de que participei. Nesses encontros científicos, regra geral, aconteciam grandes conferências sobre os temas principais, ao lado de sessões de temas livres onde costumavam ser relatadas observações e experiências pessoais de cada médico. Para as conferências principais costumavam ser convidados profissionais que se destacaram com seus trabalhos inovadores que, muitas vezes, representavam avanços científicos importantes na área médica. Desde cedo entendi a importância de assistir e participar de congressos médicos da especialidade a que me dediquei, a Traumato-Ortopedia.

Baseado nos inúmeros congressos médicos de que participei surgiu a ideia de organizar algo do gênero que pudesse ser aplicado às duas principais correntes do judaísmo, formadas por Esquenazis e Sefaradis. Esses termos estão relacionados às respectivas origens geográfica de cada um desses grupos, em que asquenaz se refere aos judeus que utilizavam o idioma alemão e línguas correlatas para se comunicar. Quanto a sefarad, é o termo utilizado para designar os israelitas originários da Península Ibérica, que tem no espanhol e português sua identidade linguística.

No meu caso específico, como filho de pai sefaradi e mãe asquenazi, observei que a balança cultural judaica pendia favoravelmente, verdade seja dita, para a coletividade asquenazi. Não que os sefaradis fossem desprovidos de riqueza cultural, mas os asquenazis, além de mais numerosos, tinham se destacado enormemente após a revolução industrial ocorrida nos países ocidentais. Além disso, sabiam divulgar melhor sua cultura, da qual participaram como destacados protagonistas. Ao mesmo tempo, era possível perceber que uma parte considerável das coletividades sefaradis, especialmente aquelas radicadas em atrasados países orientais, parecia estagnada do ponto de vista cultural, muitas vezes sofrendo abusos, perseguições e expulsões de toda ordem.

Pressenti que tinha chegado o momento de desvendar à coletividade judaica e à grande sociedade a riqueza da cultura sefaradi em relação à música, à poesia, à literatura, à culinária e, acima de tudo, uma característica própria dos sefaradis, à alegria de viver. Procurei um colega de especialidade e fraterno amigo, Dr. Marcos Musafir, de tradicional família sefaradi, que tinha um talento inato para a organização de grandes eventos na área médica. Pedi sua ajuda para organizar um congresso, não de natureza científica, mas dedicado à preservação e divulgação da cultura sefaradi. Ele não só compreendeu a natureza da proposta como se dispôs a colaborar com ideias e sugestões de grande valia.

Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de conhecer um destacado líder comunitário no Rio, Alberto Nasser, Z”l que, por sugestão da ativista Diane Kuperman, judia refugiada do Egito, seria a pessoa ideal para colocar essa idéia em prática. Nasser tinha sido Presidente da Conib, a Confederação Judaica do Brasil e desfrutava de grande prestígio junto às principais lideranças comunitárias do país. Após as devidas apresentações, Nasser se encantou com a idéia a respeito da realização de um Congresso Sefaradi, por mim batizado de Confarad.

O Primeiro Confarad foi realizado no Atlântica Business Center, um prédio recém inaugurado em um ponto nobre do Rio, a Avenida Atlântica, em frente ao mar de Copacabana. A divulgação desse primeiro evento contou com o apoio do SBT, emissora de TV de Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico Silvio Santos, ele próprio um sefaradi da melhor estirpe. Para ampliar a divulgação, foi possível participar do Programa do Jô na TV Globo, onde eu e Diane Kuperman fomos entrevistados, ao vivo, por Jô Soares.

Ao mesmo tempo, Nasser sugeriu organizar, no escritório que mantinha em dos mais sofisticados prédios comerciais do centro do Rio, uma “reunião-almoço” mensal com os dirigentes das distintas entidades sefaradis da cidade. Estava sendo criado, naquela ocasião, o Conselho Sefaradi, a entidade mãe que iria coordenar as atividades das instituições destinadas a resgatar, preservar e difundir a cultura dos judeus de origem ibérica e oriental. O objetivo seria reunir as direções das distintas sinagogas do rito sefaradi e também do Museu Judaico, presidido com extrema competência por Max Nahmias, ele próprio descendente de tradicional família sefaradi marroquina proveniente do Norte do Brasil. Vieram se somar ao grupo, desde a primeira hora, os ativistas Luiz Benyosef, que tinha sido o criador do Memorial Judaico de Vassouras, cujo paisagismo coube ao consagrado artista Burle Marx.

Tivemos o privilégio de contar, desde a etapa inicial do projeto, com a participação de Haim Nigri Z”l, líder comunitário que irradiava um contagiante bom humor e que, lamentavelmente, não conseguiu sobreviver à Covid. Ao infatigável Moisés Balassiano, dirigente do Templo Sidon, a maior entidade judaica sefaradi do Rio, ao dinâmico líder comunitário Osias Wurman, que presidiu a FIERJ, Federação Israelita do Rio de Janeiro com extrema dedicação e competência. Cabe destacar os nomes de Isaac Hanono, Jayme Salomão, Isaac Kayat, José Khalili, Vitória Sulam Saul Z”l, Henri El-Mann Z”l, Samuel Anidjar, Elias Salgado, Cleber Rodrigues e muitos outros entusiasmados ativistas que apoiaram a iniciativa em suas diferentes etapas.

Destaque para duas figuras femininas de grande valor, Norma e Angela Neves, que colaboraram para o sucesso do Confarad em todas as suas fases. É imprescindível mencionar a participação especial de Charles Kboudi Z”l, que participou ativamente no processo de aquisição do terreno, na Rua Nascimento Silva, onde foi erguida a Sinagoga de Ipanema, belíssimo templo que funciona, atualmente, como centro irradiador da cultura e espiritualidade judaica sefaradi do Rio. É extremamente importante mencionar o apoio dos rabinos sefaradis cariocas, que abraçaram o projeto do Confarad desde a primeira hora.

A partir daquele memorável pontapé inicial a ideia foi sendo aperfeiçoada, até se chegar ao 15º Confarad, em 2021, em plena pandemia, com a realização de um encontro inteiramente virtual.

O Confarad já se firmou como um importante evento dedicado à preservação e divulgação da tradição e cultura sefaradis. Sob a firme liderança de Samuel Benoliel é considerado, atualmente, um dos mais destacados eventos comunitários, gozando de justificado prestígio nacional e internacional. Com o advento da Internet e a facilidade da comunicação instantânea propiciado por novos aplicativos de som e imagem, aquela sementinha plantada há alguns anos germinou e continua produzindo generosos frutos. É praticamente impossível prever o futuro, mas permito-me arriscar um palpite. Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que, a partir de agora, como um dos pais dessa criança, o Confarad irá agregar, cada vez mais, atividades presenciais e virtuais, sempre focado no resgate, preservação e divulgação da riquíssima cultura dos judeus de origem ibérica e oriental.

4 thoughts on “CONFARAD

  • 9 de setembro de 2022 em 05:27
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    Na verdade queria fazer um comentário sobre o artigo “Parientes” de Junho de 2022 …. voce (Nelson Menda) menciona que o casamento de seus pais foi “salvo” com a ajuda de Zimbul Barmaimon (Z”L) que é … a minha avó materna. Poderia elaborar algo sobre o tal do Dulce Blanco que ela fazia? Alguma receita, descrição ou alguma referencia que eu possa achar na internet e recriar a receita da minha avó? Muito obrigado!

  • 10 de setembro de 2022 em 00:16
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    Oi Ricardo. O Dulce Blanco nada mais era do que uma calda de açúcar que, ao esfriar, ficava rígido como uma pedra. O que conferia sabor eram lascas de nozes, que faziam um contraponto ao açúcar. Era uma iguaria muito disputada, a ponto da Dona Zimbul ter de guardá-las em uma arca. Vou tentar saber com uma amiga burrequeira do Rio mais algum detalhe.

  • 10 de setembro de 2022 em 01:36
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    Oi, Ricardo. Contatei minha borrequeira de estimação e ela não conhece o Dulce Blanco. Uma lástima. Tenho ótimas recordações do Elias e da Regina. Abs.

  • 13 de setembro de 2022 em 22:08
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    Oi Nelson. Muito obrigado pela dica. Vou tentar trabalhar nesta receita e ver o que eu consigo obter. Te aviso depois de algum progresso! Tens o meu e-mail se quiseres entrar em contato. Um abraço!

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