Laços familiares

Por Nelson Menda

Não deixa de ser curiosa a maneira como os laços familiares vão se atando e desatando no decorrer da vida. Acho que já comentei em um blog anterior a respeito do meu avô materno, Alberto (Abraham) Peissahk (Pesach), cuja Certidão de Casamento, lavrada na United Synagogue de Londres em Junho de 1915, menciona o fato dele ter nascido na Rússia. Só que, na realidade, ele era natural da Moldávia, ou Moldova, também chamada de Bessarábia ou Romênia que, atualmente, é um país independente. Pobre, mas independente.

Como a Bessarábia já fez parte do antigo Império Otomano, seus habitantes, parte dos quais judeus asquenazis, sob o regime dos sultões turcos tinham direito à posse da terra. Podiam plantar e colher tanto para sustento próprio quanto a comercialização dos produtos agrícolas. Todavia, com a retomada do controle político da região pelos russos, cristãos ortodoxos, os judeus conseguiram manter a posse da terra, mas não ficaram livres dos pogroms, odiosas perseguições cíclicas orquestradas pelos prepostos do czar.

Faz parte da tradição oral da minha família materna o relato a respeito da existência, em um local escondido da pequena propriedade rural onde residiam, de uma espécie de alçapão. Nesse local, meus ancestrais encontravam refúgio para se proteger das investidas dos cossacos, que atuavam a mando das oligarquias russas. O Violinista no Telhado ilustra muito bem como eram tensas as relações entre judeus e cristãos na Rússia antes da tomada do poder pelos bolchevistas. O sonho, portanto, de muitos habitantes da atrasada Rússia czarista era migrar para a França ou a Inglaterra, países mais desenvolvidos e em franco processo de industrialização.

Os jovens judeus, em respeito à própria tradição milenar, precisavam se alfabetizar para a realização da cerimônia do Bar-Mitzvá, a maioridade israelita, quando completassem 13 anos. Ao aprender a ler e escrever, em hebraico e ídiche, passaram a ter acesso aos livros e jornais que circulavam, alguns de forma clandestina, no vasto território da Rússia Imperial. Também podiam se corresponder com conhecidos e familiares que residiam em países mais desenvolvidos do Velho e Novo Mundo.

Meu avô, assim que tomou consciência de que não faria sentido continuar residindo em um país atrasado e sujeito às cíclicas perseguições orquestradas pelo seu próprio governo, escreveu uma carta para os parentes que moravam em Paris. Estava com 14 anos e queria uma oportunidade para residir e trabalhar no estabelecimento comercial de propriedade da família, no bairro judaico de Marais, na capital francesa. Por sorte, a resposta foi positiva. Preparou a mala e partiu, para nunca mais retornar à aldeia de Kaminka, da qual não guardava boas recordações. Deixou para trás sua prometida, a jovem Rebecca (Bertha) Sweingold, sem saber se conseguiria revê-la algum dia. Trabalhou com afinco e dedicação no estabelecimento comercial de seus tios, onde agregou, ao russo e ídiche nativos, o idioma francês. Mas seus planos eram mais ambiciosos, pois queria se estabelecer na Inglaterra, país que admirava mesmo à distância, especialmente pela veneração ao herói da Batalha de Trafalgar, o Almirante Nelson, a quem devo, em última análise, meu próprio nome.

Quando tomou conhecimento de que sua noiva já tinha conseguido migrar para a Inglaterra, meu avô não titubeou. Munido de uma carta de recomendação dos tios, pegou um navio para cruzar o Canal da Mancha e conseguiu chegar à capital inglesa, onde Rebecca já estava residindo. Casaram no dia 14 de Junho de 1915 na East London Synagogue, em White Chapel, na época um subúrbio da capital inglesa habitado, preferencialmente, por imigrantes de origem judaica. Ele estava com 23 e a noiva com 21 anos.

Passaram a residir no 64 da Cable Street em um quarto alugado na residência da família Cohen, seus padrinhos de casamento. Alberto e Rebecca trabalhavam 12 horas por dia em uma fábrica de tecidos para conseguir se manter, pagar o aluguel e poder assistir, com os tostões acumulados, às temporadas londrinas dos grandes espetáculos e performances teatrais. Apesar das limitações financeiras, estavam felizes pelo reencontro, sem poder sequer imaginar o que o futuro lhes tinha reservado e a que paragens o destino ainda iria conduzi-los.

A Revolução Russa de 1917 virou o mundo da época de cabeça para baixo. Impossível manter aquela vidinha que, bem ou mal, os Peissahk e milhões de outras famílias estavam levando. Meu avô, pacifista e maçon, foi convocado para o serviço militar inglês. A filha mais velha, de nome Rosa, recém tinha completado dois anos e minha avó, no finalzinho da gravidez, esperava, para qualquer momento, o nascimento de mais um filho – ou filha. Para não ter de pegar em armas e ser enviado para um dos muitos fronts do vasto Império Britânico a única alternativa seria retornar à França na primeira oportunidade, na tentativa de reencontrar o restante da família, dispersa pela confusa situação reinante no continente europeu após a revolução russa.

Os refugiados em território francês procuravam se reunir em lugares públicos, na esperança de encontrar alguém que se dispusesse a fornecer informações a respeito de seus familiares. Meu avô teve sorte, pois encontrou um conhecido em um desses encontros, que relatou conhecer o destino de sua família. Eles teriam embarcado para uma das colônias agrícolas judaicas estabelecidas na Argentina. A essas alturas minha mãe já tinha nascido e o casal Peissahk, com duas filhas menores a tiracolo, não teve outra opção a não ser tentar reencontrar e reunir o restante da família.

É fácil imaginar a confusa situação reinante entre os milhões de refugiados em busca de um porto seguro para reconstruir suas vidas. Quem tinha parentes estabelecidos na América do Norte apelava para uma providencial carta de chamada, que permitiria entrar pela porta da frente naquele grande país. Os Peissahk tinham se fragmentado em diferentes grupos. Uma parte, liderada pelo Tio Sol, irmão do meu avô materno, conseguiu migrar para os Estados Unidos e a troca da grafia do sobrenome para Pasik dificultou bastante o reencontro, que só aconteceu um bom par de anos mais tarde. Os parentes ligados a uma das distintas organizações sionistas acabaram migrando para a então Palestina, que deu origem ao moderno Estado de Israel.

Meus avós fizeram o que lhes pareceu mais conveniente. Conseguiram embarcar em um navio para Buenos Aires, onde iriam tentar localizar a colônia agrícola em que o restante da família estaria alojada. Por sorte, funcionou. Desconheço a razão dele não querer se fixar na Argentina e, como irmão mais velho, determinar que todos deveriam levantar acampamento e se dirigir, por via ferroviária, ao Brasil. Mais precisamente, ao Rio Grande do Sul, onde se fixaram, inicialmente, na cidade gaúcha de Cachoeira do Sul.

Alguns parentes permaneceram na Argentina e tive a satisfação de encontrar, há alguns anos, em Miami, uma prima, Adriana Faerman, do ramo dos Peissahk que optou pela permanência no país vizinho. De Cachoeira do Sul, após alguns anos, meus avós se transferiram para Porto Alegre, a capital do estado, onde nasci e vivi até me transferir, inicialmente, para o Rio e, de lá, para os Estados Unidos.

Estou estabelecido na cidade de Portland, no Estado do Oregon, na Costa Oeste do país, em meio a uma paisagem deslumbrante, cercado por altas montanhas repletas de coníferas, podendo avistar, da varanda do meu apartamento, os picos congelados de dois enormes vulcões, felizmente já extintos.

Dentre as relíquias que herdei do meu avô materno destaca-se uma bengala com empunhadura prateada, que faço questão de deixar exposta na entrada da casa. Um dos meus netos, bastante esperto para os seus sete anos, adora brincar com ela, sabendo que pertenceu ao avô do vovô, como sou tratado em família. Aos 78 bem vividos anos não tenho planos de continuar me mudando de cidade ou país. Como se afirma no meu saudoso Rio Grande do Sul, “já deu prá ti”, o que significa, em última análise, que encontrei meu porto seguro aqui no Oregon.

Acredito que os leitores devem estar suspeitando que essa busca por novas paragens faça parte do DNA de certas famílias ou da própria condição judaica, o que permite que se possa dispor de uma legião de amigos, parentes e conhecidos em diferentes latitudes do globo. Acho importante ressaltar a solidariedade comunitária exemplificada pela existência de duas grandes organizações judaicas, bancadas por filantropos, que vêm tratando de apoiar a migração em massa de famílias em situação de risco desde os primórdios do século 19.

Nos idos de 1860 tinha sido criada, em Paris, a Aliança Israelita Universal, destinada a qualificar profissionalmente rapazes e moças, com o objetivo de prepará-los para enfrentar o competitivo mercado de trabalho do pós guerra. Estou me referindo à Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918 e virou o mundo de cabeça para baixo. Em primeiro lugar, passaram a utilizar o idioma francês como padrão internacional de comunicação. Em segundo, tentaram eliminar as barreiras que colocavam as mulheres em plano inferior ao dos homens. Foi um Adonai nos acuda, especialmente entre as coletividades sefaradis orientais. Os próprios rabinos mais conservadores se rebelaram quando surgiu a proposta de qualificá-las para o exercício de atividades profissionais que despontavam no horizonte como, por exemplo, a datilografia, que antecedeu a digitação. Não foi tarefa fácil conseguir superar certas barreiras, onde um simples aperto de mãos entre homens e mulheres era considerado impróprio para os rígidos padrões morais de coletividades mais tradicionais.

Ao mesmo tempo em que a Aliança Israelita Universal conseguiu qualificar o impressionante número de um milhão de moças e rapazes sefaradis (*) que frequentaram seus cursos profissionalizantes, os asquenazis (**) não deixaram por menos. Tinham criado, em 1880, na Rússia imperial, o ORT, uma rede de escolas de excelência que preparava seus alunos para os desafios de um mercado de trabalho que iria exigir, em paralelo com o ensino convencional, conhecimentos técnicos e científicos de ponta.

Tanto a Aliança Israelita Universal quanto o ORT ainda existem e continuam prestando seus excelentes serviços às coletividades judaicas e não judaicas em diferentes países.

Minha filha caçula cursou o ORT, no Rio, graduando-se simultaneamente no Segundo Grau e em Biotecnologia. Passou direto nos dois únicos vestibulares em que se inscreveu e hoje exerce a profissão de Farmacêutica aqui nos Estados Unidos, uma das mais bem remuneradas na área científica. Seus colegas do ORT são seus amigos até os dias de hoje e muitos ocupam importantes cargos em diferentes instituições acadêmicas e científicas de vários países. Os mantenedores do ORT, que atua em 30 países, são filantropos judeus e grande parte dos alunos que se graduam em seus cursos professam outras crenças, pois a condição para ingressar na instituição não é religiosa, mas sim a dedicação aos estudos.

Quanto ao meu avô materno, o que teria acontecido quando se transferiu com suas filhas, de Cachoeira do Sul para a Muy Leal e Valerosa Porto Alegre? Teria conseguido manter a família unida, depois de ter viajado milhares de quilômetros, da aldeia atrasada em que viviam há séculos, com a transferência para um novo continente? É uma história muito interessante que será relatada em um próximo Blog.

(*) Sefaradis: judeus provenientes de Sefarad, denominação histórica da Península Ibérica e também dos países árabes que usualmente utilizavam o ladino ou o árabe para se comunicar.

(**) Esquenazis ou Asquenazis: judeus oriundos da Europa Central, que utilizavam o ídiche, derivado do alemão, como língua comum.

Foto: Frank Carpenter Collection (PICRYL)

7 thoughts on “Laços familiares

  • 5 de agosto de 2021 em 22:33
    Permalink

    Nelson, tive um enorme prazer em ler a matéria sobre os Laços Familiares. Senti como se tivesse recuperado um fragmento de minha história familiar que nunca soube.
    Sou a Marisa Faermann Eizirik, irmã do Sérgio.
    Tenho enorme interesse em saber mais dos Peissak. Minha avó, Augusta Peissak, morreu muito jovem ( meu pai tinha 8 anos). Era prima de tua mãe, Marieta, com quem convivemos.
    Meus pais eram muito amigos dos Passik de New York. Fora isso, não sei mais nada.
    Poderias me dizer algo sobre ela, seus antecedentes. Os avós eram irmãos, vieram do mesmo lugar?
    Obrigada.

  • 5 de agosto de 2021 em 22:35
    Permalink

    Nelson, tive um enorme prazer em ler a matéria sobre os Laços Familiares. Senti como se tivesse recuperado um fragmento de minha história familiar que nunca soube.
    Sou a Marisa Faermann Eizirik, irmã do Sérgio.
    Tenho enorme interesse em saber mais dos Peissak. Minha avó, Augusta Peissak, morreu muito jovem ( meu pai tinha 8 anos). Era prima de tua mãe, Marieta, com quem convivemos.
    Meus pais eram muito amigos dos Passik de New York. Fora isso, não sei mais nada.
    Poderias me dizer algo sobre ela, seus antecedentes. Os avós eram irmãos, vieram do mesmo lugar?
    Obrigada.

  • 6 de agosto de 2021 em 00:55
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    Oi, Marisa. Estava matutando a respeito da continuação do relato sobre os laços familiares que, paradoxalmente, desataram assim que nossos ancestrais mútuos conseguiram realizar o sonho de recomeçar suas vidas no Brasil. Mas que, felizmente, voltaram a se entender, depois de décadas, em uma bonita festa de reconciliação realizada, se não me engano, na casa dos teus pais. Por sorte vc. informou o nome da tua avó, Augusta, que estava faltando para despertar a vontade de continuar escrevendo sobre a saga da família. Por falar nela, por onde anda teu irmão Sergio, que reencontrei, há anos, em Israel?

    • 6 de agosto de 2021 em 18:12
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      Oi Nelson
      Como vais? Apreciei muito o teu relato sobre o outro lado da nossa família, os Pasik,com quem tive um excelente relacionamento tanto em NY, quanto em Israel, quando aqui estiveram.
      Mandei o teu texto para minha família no Brasil, e um dos resultados foi o comentário da minha irmã Marisa.
      Quem também muito se interessou foi meu primo Milton Golbert, que me pediu o teu e-mail, pois quer te escrever. Ele diz que ao que parece vocês foram colegas em Santa Maria.
      Eu estou estabelecido em Israel há mais de 40 anos, aposentado, mas continuo trabalhando. Tu já estás aposentado?
      Um grande abraço e vamos continuar conversando.

      • 7 de agosto de 2021 em 00:12
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        Oi, Sergio. A Marisa forneceu um dado importante para a segunda parte do texto, pois não sabia que a irmã do meu avô – e avó de vocês – se chamava Augusta. O que sei, por relatos ouvidos de minha mãe, que ela teve um problema sério de saúde e precisou ser transportada, em um trem de carga, até Porto Alegre, onde veio a falecer. Deixou um casal de filhos, Maurício e Ester, que devem ser, se não me engano, teu pai e tua tia. Quem fez um excelente trabalho de reconstituição da história da nossa família foi tua mãe, Martha, por sinal uma pessoa encantadora. Quanto ao Milton Golbert, gostaria de contatá-lo, pois fomos colegas e amigos em Santa Maria. Abs.

  • 7 de agosto de 2021 em 18:49
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    Oi Nelson
    Ótimo nos correspondermos.
    Mande o teu e-mail para mim, que eu passo para o Milton.
    De qualquer forma, te deixei o meu e-mail no blog para que me inclua no teu blog.
    Aqui vai outra vez: sergio@post.bgu.ac.il
    Abraços
    Sergio

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