Na reta final das eleições em Israel

Por David S. Moran

Estamos chegando ao dia das eleições em Israel (1.11), mas o impasse continua e se for assim é bem provável que em pouco tempo iremos à 6ª rodada de eleições. Isto é trágico num país que tem tantos problemas e gasta tanto dinheiro em vão. Sim, Israel é a única democracia do Oriente Médio e isto faz parte do jogo democrático, mas algo há de ser feito. Na maior democracia do mundo, os Estados Unidos da América, há apenas dois partidos políticos. Em Israel, até partidos árabes, que querem destruir o Estado de Israel, podem (e vão) se candidatar, bem como inúmeros de partidos e legendas sem sentido.

Muita coisa mudou nas últimas décadas. O idealismo das correntes políticas israelenses, parece que foram trocadas por idolatrar personalidades. Hoje em dia, nenhum partido publica o seu programa ideológico. Pior do que isto, formaram-se duas correntes: ou você é “pró-Bibi” (Netanyahu), ou “contra o Bibi”. Quem é contra imediatamente é taxado de “esquerda e talvez do centro”, quem é a favor do Bibi, é direita, “nacionalista, gosta do Estado de Israel”. Mesmo aqueles que não cumprem com as obrigações de todo cidadão, como o de se alistar ao exército, ou estudar matérias vitais ao desenvolvimento da pessoa.

O caso Bibi. É bem possível que se o líder da oposição, deputado Benjamin Netanyahu (Bibi) abrisse mão de liderar o partido Likud, não teríamos que ir as quintas eleições, mas parece que ele quer se perpetuar. A influência de sua esposa, Sara e do seu filho Yair, é indescritível. Nestas eleições, sua antiga chefe de gabinete e atual Ministra do Interior, deputada Ayelet Shaked, do Habait Hayehudi, partido da direita, está suplicando para que o Netanyahu não a ataque e que ela com seu partido possa passar os 3,25% da barreira para entrar no Knesset (pelas pesquisas, não passa por 2%). Contrariando seus conselheiros e atendendo a exigência da esposa, Netanyahu continua na sua luta para que a Shaked não entre na Knesset e assim pode até perder apoio de partido direitista.

Em vez disso, o Netanyahu deu ficha branca a Itamar Ben Gvir, extremista da direita, discípulo do Meir Kahane, que nenhum líder anterior do Likud casheirizou e ele está se fortalecendo. Nas eleições passadas, mal entrou no Parlamento, agora está tornando o seu partido o terceiro maior do país. Ao mesmo tempo, Netanyahu que tem encontros regulares com Ben Gvir, evita de toda maneira ser fotografado com ele. Chegou ao cúmulo, em Simchat Torá (17.10), quando os dois estiveram em Kfar Chabad, para os festejos. Ben Gvir estava no palco e falava a plateia e lhe pediram para descer para que o Netanyahu pudesse falar. Ben Gvir recusou e só ante a grande pressão e empurrado desceu. Para o alivio do Netanyahu, não houve foto conjunta.

Isto não impede de o “sócio” de Ben Gvir na chapa, o deputado Smotrich, já costurar o paletó, pretendente ao Ministério da Defesa (mal fez serviço militar) e talvez o do Tesouro e dizer que legislará uma lei para cancelar as acusações de crimes de fraude e quebra de confiança. Estas são duas das três acusações que o Netanyahu está enfrentando na justiça.

O Netanyahu diz o tempo todo que não houve nada e as acusações contra ele não têm fundamento. Se é assim (tomara) ele iria à justiça e provaria. Mas, infelizmente, faz de tudo para não enfrentar o tribunal e os juízes.

Netanyahu ainda crê que é o primeiro-ministro e ninguém pode substitui-lo. Recusa-se participar dos – historicamente -, encontros mensais com o atual primeiro ministro, Yair Lapid. Nestes encontros, o chefe do Estado atualiza o líder da oposição dos assuntos políticos e militares que passam no país. Mesmo não conhecendo os pormenores do Acordo Marítimo com o Líbano, que Netanyahu criticou duramente, ele foi convidado para receber todos os detalhes e se recusou a encontrar o premier Lapid.

Lapid não é esquerda como o chama Netanyahu, nem Gantz. Netanyahu prefere aliança com os ultra ortodoxos do Shas e do Yahadut Hatorá que, certamente, não são da direita. Tanto é que o Lapid obteve mais do que o dobro de deputados, nas eleições passadas, e deu a primazia ao ex-primeiro-ministro, Naftali Bennett, que é da direita. Mesmo agora, todos os partidos da coalizão dizem que estão dispostos a aliança com o Likud, “sem o Bibi, que enfrenta a justiça”.

O atual Ministro da Defesa, Benny Gantz, também se diz candidato ao posto de Primeiro-Ministro, alega que é o único que pode reunir também os religiosos e os ultra ortodoxos para obter os 61 votos, que é a maioria na Knesset, de 120 deputados.

O seu número 2, Gad Eizenkot, diz que partido com 12 deputados não tem autoridade para formar uma coalizão. Isto não intimida Gantz de atacar Lapid. Este parece que quer fortalecer o seu partido e consegue (veja as pesquisas de opinião pública, abaixo) mesmo que seja tirando votos de possíveis aliados, como os partidos Avodá e Meretz.

Outra luta é a dos partidos árabe-israelenses e dos cidadãos árabe-israelenses. A população árabe israelense é a que tem a menor participação nas eleições. Nas eleições passadas a participação árabe foi de 44,6% (a geral foi de 67,4% – o voto não é obrigatório). Em 2020, os eleitores árabes foram maciçamente às urnas (64,8%, enquanto que a geral foi de 71,5%). Nestas eleições, parece que o eleitorado árabe vai se abster em maior número. A Lista Árabe Unida, que já ficou menor com a saída do Ra’am (que está na coalizão), na hora de apresentar a lista, perdeu o partido Balad que preferiu seguir só. Segundo as previsões não obterá o mínimo de 3,25% dos votos e assim ficará fora do Knesset.

Ao contrário, os ultras ortodoxos votam maciçamente a mando dos rabinos. O recém empossado líder do Yahadut Hatorá, Yitzhak Goldknopf, já entrou com arrogância insuportável. Numa entrevista disse: “É mais difícil estudar a Torá, do que ser soldado e defender o país… Dêem aos haredim (ultra ortodoxos) dirigir o país e verão como será bom. Durante 70 anos vocês (leigos) só falaram e não fizeram nada”. Tem que estudar a Torá e também defender o país, pois a Suíça é bem longe daqui. O senhor Goldknopf só pode falar com esta arrogância, porque está num Estado Judeu, construído arduamente, e dos mais prósperos do mundo atualmente.

Infelizmente, a sociedade israelense está dividida. Há os judeus leigos, os religiosos e os haredim. Há os árabes, cuja minoria acirra os ânimos e luta contra o que o Estado representa. O pior é que no momento não parece que há solução e o impasse continua. O Estado de Israel precisa de um governo forte e sólido para enfrentar todos os desafios que tem, interna e externamente.

Eis o resultado das últimas pesquisas de opinião pública:

TV Canal 11 (18.10.22) Canal 12 Canal 13 Canal 14
Likud 31 (30) * 30 32 34
Yesh Atid 25 (17)* 25 26 23
Hamachané Hamamlachti ** 11 (8)* 13 12 12
 Hasionut Hadatit *** 14 (6)* 13 12 12
Shas 8 (9)* 8 8 9
Yahadut Hatorá 7 (7)* 7 7 7
Israel Beiteinu 7 (7)* 6 5 7
Há’avodá 5 (5)* 5 6 4
Meretz 4 (6)* 5 4 4
Hadash-Taal **** 4 (6) * 4 4 4
Ra’am 4 (4)* 4 5 4

* Entre os parêntesis, o resultado das eleições de 23.3.2021
** Hamachané Hamamlachti é composto por Kachol Lavan, Tikva Hadasha e reforços.
*** É a formação de Haichud Haleumi de Smotrich e Otzma Yehudit de Ben Gvir.
**** Este partido era composto de três partidos árabes e nestas eleições, Balad os deixou.

Foto: Haim Tzach (GPO). Benjamin Netanyahu e Yair Lapid

One thought on “Na reta final das eleições em Israel

  • 21 de outubro de 2022 em 04:14
    Permalink

    Esse Moran perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado de tanta asneira que disse, cabeça dura e cego não aprendeu nada com a realidade do terrorismo árabe! PRECONCEITUOSO contra Ben Gvir e Smotrich porque é um esquerdalha! Ben Gvir cresceu porque tem a coragem de querer acabar com o terrorismo árabe que falta em vocês covardes!

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