Novos ventos no mundo árabe em relação ao Estado de Israel

Por David S. Moran

Apesar de o Estado de Israel provar ao mundo de que com grandes esforços e começo bem difícil, de pobreza, tendo que desbravar o deserto que ocupa mais da metade do seu território e com parte da sua população sobrevivente da maior catástrofe da humanidade e péssima vizinhança (que quer lhe liquidar), em apenas 72 anos de independência, chegou a conquistas excepcionais em nível internacional.

A conjuntura politica internacional é contra o Estado Judeu, pois contra ele se posicionam automaticamente, os 22 países da Liga Árabe e mais 30 países islâmicos não árabes. Depois da Guerra de Yom Kipur (1973), alguns dos países árabes enriqueceram com o aumento do preço do petróleo, a única fonte de renda que tinham. No cenário mundial, o temor de sanções do mundo árabe e/ou muçulmano levou ao fato que nos fóruns internacionais, quando tratavam do Oriente Médio, sempre a maioria votava contra Israel, independentemente se tinha ou não razão. Pior do que isto, o mundo islâmico subjugava o mundo e Israel foi colocado na berlinda mais vezes do que o resto do mundo todo.

Nos últimos tempos, há em parte do mundo árabe certo despertar. Devido, também ao inimigo comum que os intimida, que é o Irã e suas sucursais, representados por grupos terroristas como o Hizballah, no Líbano, e o houthis no Iêmen. O Irã, que não é árabe, tem população persa e xiita e tem interesses no Iraque, cuja população é de maioria xiita. Mas já declarou que quer ser potência regional e lançou braços para outras partes, “conquistando” o Líbano, através da Hizballah, que é a maior força naquele país. Enfrenta a Arábia Saudita, berço do Islão, que é sunita, como a grande maioria dos muçulmanos, através dos houthis no Iêmen. Irã, sempre atua através de proxis. A guerra civil síria, que destruiu o país, com o envolvimento do Irã, Rússia e Turquia, amedronta outros países, que não querem passar esta tragédia.

Os países árabes também começam a entender, que o Estado de Israel é um fato consumado, próspero e não conseguirão destrui-lo. Então, tem que mudar o disquete. É dificil, mas já há sinais de que algo está mudando em certos países. Caem na realidade e já pensam em aproveitar o que precisam e podem do Estado Judeu.

Em fevereiro deste ano, Netanyahu visitou Uganda e surpreendentemente encontrou-se com o novo líder do Sudão, Abdel al Fatah al Burhan. O Sudão, considerado país inimigo de Israel e que não tem relações diplomáticas com o Estado Judeu quer, agora, depois da deposição do ditador Omar al Basir, aproximação com os EUA e o Ocidente. O novo líder do país quer fazê-lo através de Israel. Em gesto de boa vontade, abriu os céus do Sudão a voos de Israel e para Israel, que encurtarão os voos. Há rumores que a Arábia Saudita, também o fez, sem muitas declarações.

Se até agora, os países árabes davam apoio unânime a “causa palestina”, agora começam a abrir brechas e questionar porque têm que lutar pelos palestinos.

O escritor e colunista saudita Abdullah bin Bahit, publicou artigo no jornal Al Riad (4 de fevereiro, 2020), no qual explica que a busca real de paz com Israel obriga os árabes a se sobrepor acima dos jogos políticos e reconhecer a Shoá (o Holocausto) que é tragédia e crime imperdoável. No artigo, o colunista rejeita a alegação de que o problema palestino surgiu como resultado do Holocausto. O conflito palestino-israelense começou muito antes, no inicio do Século XX. Segue e escreve que o direito dos judeus de viver em paz não é diferente dos direitos dos muçulmanos e hindus de viverem em paz, e não foi dado pelo colonialista inglês aos judeus, para apaziguá-los pelo que lhes ocorreu na Shoá. O artigo foi escrito após a visita do Secretário Geral da Liga Islâmica, Muhammad al Issa, em janeiro, com outros dignitários muçulmanos, no campo de extermínio de Auschwitz (relatei na resenha,17.4).

Outro escritor saudita, Rawaf al Sa’in critica duramente os palestinos, dizendo: “palestino, você não é árabe. Não tem terra e não existe algo chamado ‘o problema palestino’. A terra é terra de Israel. Israel é o Estado que pertence aos judeus, vocês (palestinos) não tem direito sobre a terra de Israel. Os judeus, filhos de Isaac e nós árabes, filhos de Ismail, somo primos. Mas, vocês palestinos, de onde vieram? Porque interferem? Vocês são restos de povos: ciganos, turquemanos, circassianos, mongóis. Saibam vocês que não tem Aksa (a mesquita) a que está em Quds (Jerusalém). A verdadeira mesquita de Aksa, que é mencionada nos escritos, está em Já’arana, a 29 km da cidade de Taif (na Arábia Saudita). Vocês alegam que a mesquita de Al Aksa, foi construída no ano 72 da Hajara, isto é 60 anos após a morte do profeta Maomé. Isto é impossível. Vocês gritam e choram que existe o problema palestino e pedem ajuda, só para angariar fundos e depois xingam quem os ajudou e contribuiu. Que moral é esse? Vocês, palestinos espalham o mal em todos os lugares que vêm”. É uma dura critica e acusação aos palestinos, que não ocorreria sem o consentimento das autoridades sauditas.

No semanário Enab Baladi, identificado com a oposição síria, escreve o jornalista Khatib Badla e duramente critica a santificação da morte na sociedade árabe, a “shahada” (o martírio), morrer pelo regime, enquanto outros governos do mundo santificam e promovem a segurança e qualidade de vida de seus cidadãos (Memri,29.4.20).

A rede de TV Al Jazeera, do Qatar, que é rival da Arábia Saudita, transmitiu no dia 28 de abril reportagem de sua correspondente no Líbano, Fatima Triki, na qual critica a rede rival MBC, saudita que transmite da UAE. Na reportagem com o título: “Após a profanação dos valores, a MBC demoniza os palestinos e transforma os judeus em anjos”. Acusa a MBC de transmitir nos dias de Ramadã (o mês sagrado dos muçulmanos), quando todas as famílias assistem à TV, promove a normalização dos países árabes com Israel. A MBC transmite dois seriados: no “Makraf 7” os personagens palestinos são apresentados como sem vergonhas e ingratos a ajuda que recebem de outros países. No outro, “Umm Haroun” (Mãe Haroun) mostra os judeus que viveram em países árabes de forma positiva. A locutora, Fatima Triki adiciona: “infelizmente, a TV MBC, transmite dramas que apoiam a normalização com o Estado de Israel, focando aceitar os israelenses como fato consumado e distorcem a imagem dos palestinos”.

Há muito mais exemplos. Mas, infelizmente, ao mesmo tempo, há outros exemplos, que são negativos, iniciando nas escolas da Autoridade Palestina, que ensinam a liquidação do Estado de Israel e, pior do que isto, são as escolas da UNRWA, organização da ONU, que a financia com verbas do Ocidente e que pregam o ódio e a liquidação do Estado de Israel.

Até mesmo, atualmente, após 41 anos de relações diplomáticas com o maior país árabe, o Egito, a sua TV transmite seriado de ficção chamado “O Fim”, do que ocorre no ano 2120, em que um professor de história, relata acontecimentos do Século XXI. Nos EUA ocorreu uma guerra civil, que acabou com sua hegemonia. Ao mesmo tempo, os países árabes aproveitaram a situação para destruir seu inimigo, o Estado Sionista.

Certamente há certa mudança no pensamento e atitude de alguns países árabes e muçulmanos com respeito a Israel. Porém, enquanto não mudarem os livros escolares que ensinam o ódio aos judeus e promoção da destruição do Estado de Israel, pouca mudança acontecerá.

Como exemplo desta semana, posso relatar que Israel e a AP discutem há muito tempo sobre verbas que Israel passa aos palestinos. Israel exige que a AP pare de incentivar o terrorismo e não passe salários aos terroristas nas prisões de Israel e aos familiares de terroristas que morreram. Finalmente, temendo uma atitude de Israel contra os bancos palestinos, estes iniciaram o fechamento de contas de terroristas. A Autoridade Palestina os criticou e mandou reabrir as contas. Assim, permanecemos otimistas e ao mesmo tempo realistas de que não tão rapidamente como desejamos, o mundo árabe aceite o Estado de Israel como um parceiro, também para o seu benefício.

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