O coronavírus em Israel é também doença política

Por David S. Moran

O mundo todo está em convulsão, pelo menos desde fins de fevereiro, quando explodiram as notícias de um novo e violento vírus – COVID-19 – pelo visto saído de laboratório na China. Este coronavírus está evoluindo, se espalhando rapidamente e matando gente pelo mundo todo.

Autoridades nacionais tomaram medidas emergenciais que até o momento mudaram o mundo. Viagens internacionais foram praticamente suspensas, companhias aéreas pediram proteção antes de falir. Assim também a área de turismo. Escolas tiveram que se adaptar, aglomeração de pessoas evitadas, atividades esportivas sem público nos estádios, teatros vazios, templos religiosos com restrição de crentes e assim por diante.

(foto: coleta de material do Coronavírus)

Israel tem dois calcanhares de Aquiles: a população haredi e a árabe. Nestas duas comunidades as aglomerações fazem parte do cotidiano. Sejam nas rezas, festas ou mesmo em enterros. Toda a comunidade ou os habitantes do local participam. Esta é a principal razão da propagação do coronavírus no país.

Logo no inicio da expansão do COVID-19 em Israel, quando já era véspera de Pessach (a Páscoa) e as famílias se juntam para comemorar a saída da escravidão do Egito, para a liberdade na Terra de Israel, o governo tomou atitude difícil, mas certa. Fechou e confinou as áreas mais afetadas (“vermelhas”) como Bnei Brak e enviou o exército tomar conta. Muitos dos ultraortodoxos-haredim tiveram oportunidade de ver ação de militares pela primeira vez. Soldadas e soldados lhes entregaram alimentos e trataram de suas necessidades. Netanyahu quase toda noite aparecia no horário nobre para dar instruções e parecia que Israel estava saindo deste mal. O Primeiro Ministro até disse que estamos num dos melhores lugares debelando o coronavírus.

Aí veio a segunda fase, que agora parece ser mais violenta. Se em março, abril, maio, o número das pessoas que contraiam o COVID-19 era relativamente pequeno, menos de 40 por dia, já em junho triplicou para 116 por dia.

O então Ministro da Defesa, Naftali Bennett (até maio de 2020), pediu para combater o coronavírus pois o exército tem unidade que poderia fazê-lo melhor do que qualquer outro organismo nacional. Netanyahu, que é rival do Bennett, não lhe deu autorização, para que este último não ganhasse popularidade. O mesmo acontece com o atual Ministro da Defesa de Israel, Gen (Res.) Benny Gantz, que também é Primeiro Ministro Substituto (e o será em novembro de 2021, se cumprirem o acordo entre os dois). Os dois são rivais e o premier quer impedir qualquer rival ganhar popularidade.

Após alguns meses, Netanyahu aceitou nomear um expert na área da medicina, um “Czar” para que dirija os trabalhos para conter o vírus. Foi nomeado o Prof. Dr. Ronni Gamzu, Diretor Chefe do Hospital Ichilov, em Tel Aviv, entendido na área da medicina. Ele pensou que ia receber todo o apoio dos políticos, mas logo entendeu que entrou na jaula dos leões, sem proteção. Estudou o assunto, percorrendo as áreas mais afetadas (“vermelhas”), falando com os prefeitos, nobres e população. Prof. Gamzu quer evitar ao máximo fazer quarentena, ele elaborou o sistema do “semáforo”. Isto é, nas cidades e aldeias vermelhas e amarelas, tem que trabalhar mais rigorosamente com a população local e ensiná-los a não se aglomerar, usar as máscaras e as demais instruções. As áreas “verdes” serão mais liberadas. O Prof. Gamzu avisou que, ao contrário do que Netanyahu diz, Israel tem das maiores contrações do coronavírus do mundo, em proporção. “A contração atual de 1.700 a 1.900 pessoas por dia é insuportável e ameaça o atendimento médico do país”, completou. Está traumatizado dos casamentos que viu, do neto de um grande rabino, com a participação de milhares, sem máscaras e o mesmo ocorre nos povoados árabes.

Sua preocupação aumentou pela intenção de cerca de 35.000 ultraortodoxos (Breslav) viajar à cidade de Uman, na Ucrânia, país assolado pelo coronavírus (vermelho), para lá passar o ano novo judaico, junto ao túmulo do seu rabino e a vinda de cerca de 16.000 estudantes de yeshivot e 2.000 de Universidades dos Estados Unidos e outros países estudar em Israel. A entrada destes dois países é atualmente proibida em Israel pelo coronavírus.

Prof. Gamzu falou com o Primeiro Ministro Netanyahu e lhe sugeriu falar com o dirigente da Ucrânia para que proíba a entrada dos israelenses. Depois enviou uma carta ao presidente ucraniano, Volodymyr Zilensky, de origem judaica, explicando-lhe as razões. As autoridades daquele país atenderam o pedido de Israel e já na quarta (23) expulsaram dezenas de hassidim de volta a Israel. Aí começou a batalha politica. Zilensky baixou portaria proibindo a entrada de turistas ao seu país durante todo o mês de Setembro. Questionado sobre a anual leva de dezenas de milhares de hassidim israelenses, respondeu que Netanyahu lhe pediu para proibir sua entrada, fato que o Primeiro Ministro logo desmentiu. Netanyahu entendeu que isto lhe ameaça e que não receberia votos e ou apoio futuro dos ultraortodoxos, o que de fato aconteceu. Na quinta (24) dezenas de hassidim de Breslav fizeram protesto ameaçador, frente ao hotel em Safed onde Netanyahu está de férias. Eles lhe disseram que nunca mais ele terá o seu voto e apoio.

Horas depois, no noticiário da TV, já foi publicado que Netanyahu pediu ao presidente ucraniano liberar os ultraortodoxos que já estão no aeroporto de Kiev, desde ontem e que iam ser repatriados a Israel e já tem mais aviões no caminho para Uman.

Os que também interviram no assunto foram o atual Ministro da Habitação e o Ministro da Saúde anterior, Litzman, do partido ultraortodoxo, Yahadut Hastorá: “a carta que Gamzu enviou ao presidente ucraniano é uma bofetada na cara, traição, ele tem que se demitir”. O Ministro do Interior, Arie Deri, de Shas, também atacou a decisão profissional do Gamzu.

O deputado, Miki Zohar (Likud) líder da coalizão governamental e dos porta-vozes do Netanyahu, desafiou o Prof. Gamzu dizendo: “os hassidim que quiserem que viajem a Uman, lá chegarão com ou sem a permissão de Gamzu”.

O “czar” do Projeto para erradicar o coronavírus recebeu muito apoio da classe médica, mas não do Netanyahu.

Esta também é a situação entre a população árabe-israelense. Dos que contraíram o coronavírus, 28% são árabes, muito acima da sua proporção na população israelense, que é de cerca de 20%.As cidades e povoados de maior índice de doentes são Karmei Shomron, Elkana, Yakir e Bnei Braq, entre os haredim e Tira, Kfar Qassem, Daliat al Carmel, Beit Jan e Lakia, povoados de árabes e drusos.

Atualmente esta é a situação local: contraíram o COVID-19 110.186 pessoas, recuperados 86.450, contraíram ontem 1.937, em estado grave  428, entubados 119, mortos 883.

One thought on “O coronavírus em Israel é também doença política

  • 28 de agosto de 2020 em 16:11
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    “Israel tem dois calcanhares de Aquiles: a população haredi e a árabe. Esta é a principal razão da propagação do coronavírus no país.” Outra visao distorcida e mentirosa do Moran!! Porque nao fez refwerencia aos bares, cafes e restaurantes das cidades mais liberais como Tel Aviv, Haifa, Ramat Gan e outras que as pessoas se conglomeram sem mascaras protetoras!??? Porque nao fez referencia aos protestos de milhares de esquerdistas que todos os dias se reunem, aglomeram, em frente da casa do Primeiro Ministro ou nas ruas de Tel Aviv e Jerusalem??? A resposta e simples: Moran e um esquerdista que distorce a verdade em favor deles. Isso nao e jornalismo, isso e Pasquim! E uso politico distorcido para favorecer uma minoria que nao consegue vencer as eleicoes por via democratica(votacao) e entao tentam denegrir o Governo e ate o Pais para conseguir derrubar-lo. Vergonhoso!!

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