O homem do saco

Por Nelson Menda

Toda cidade que se preze costuma ostentar uma gama de personagens exóticos, em geral inofensivos, que provocam curiosidade ou medo junto ao público, especialmente o infantil. Claro que, com Porto Alegre, não poderia ter sido diferente.

Uma figura que marcou a capital do Rio Grande do Sul foi a de uma senhora de meia idade que costumava desfilar pelas ruas, nos anos cinquenta e sessenta do século passado, com roupas espalhafatosas e ostentando uma encardida faixa com a inscrição “A Mais Bela Gaúcha”. Ela jamais se conformou com a troca do nome da sua terra natal, que havia passado, em priscas eras, de Conceição do Arroio para Osório e reagia à provocação da garotada por onde passava, incluindo o presente articulista que, visando irritá-la, costumava gritar, a plenos pulmões, a nova denominação da cidade, Osório, ao que ela replicava, alto e bom som, com o nome original do vilarejo: Conceição do Arroio.

Essa troca teria sido uma justa homenagem ao ilustre General, de família cristã-nova, que havia nascido naquela localidade, próxima ao litoral gaúcho. Até mesmo porque, ao contrário do herói da Guerra do Paraguai, ninguém tinha a menor ideia de quem teria sido essa tal Conceição que, pelo jeito, teria vivido nas proximidades de um arroio, como são denominados os pequenos cursos de água no sul do Brasil.

Era uma brincadeira inofensiva, sem maiores consequências, e é provável que ela até gostasse de ser provocada, para poder reagir e virar o centro das atenções. Todavia, no que se refere ao personagem seguinte desta crônica, duvido que alguém ousasse provocá-lo. Refiro-me à figura misteriosa de um cidadão de meia idade, trajando branco da cabeça aos pés e envergando uma longa barba, que corria pelas ruas da cidade com um saco, também branco, às costas.

Morávamos no bairro da Azenha e, para ir ao centro da cidade, era preciso pegar um bonde. Era comum, a partir de determinado trecho do percurso, deparar com esse estranho indivíduo, sempre correndo e provocando a natural curiosidade nos passageiros adultos e um certo temor nos mais jovens. Comentava-se, à boca pequena, com o objetivo de assustar as crianças, que era naquele saco que ele aprisionaria suas pequenas vitimas para fazer sabe-se lá o quê com elas.

Daí minha surpresa ao me deparar, um determinado dia, no escritório de contabilidade do meu pai, com ele, o temível homem do saco, em carne e osso. O que estaria fazendo aquela figura enigmática no ambiente de trabalho de Alberto Menda, com quem conversava de forma animada e amistosa, apesar dos latidos desesperados do Joly, o cachorro guardião que fazia a segurança do local? Quando ele demonstrou a intenção de abrir o tal saco, finalmente teria chegado a oportunidade de ouro para esclarecer, de forma definitiva, o conteúdo daquele suspeito acessório e a verdade a respeito de seu enigmático portador.

Para meu espanto e dos demais funcionários do escritório, ao invés de ossos ou despojos humanos, o misterioso personagem começou a retirar do seu interior, pausadamente, livros de contabilidade, faturas e duplicatas. O homem, vim a saber na ocasião, era um empresário patrício, adepto da forma natural de vida, que além de se vestir exclusivamente de branco, se recusava a utilizar qualquer meio de transporte para se locomover pela cidade, preferindo caminhar e correr para se manter sempre em forma. Além disso, também era vegetariano, ou seja, alguém à frente do seu tempo.

Quando revelei para os meus amigos que tinha conhecido – e conversado – com aquela exótica figura meu prestígio aumentou entre eles. Afinal, eu tinha conseguido esclarecer um dos mais insondáveis mistérios que rondava, há bastante tempo, a Muy Leal e Valerosa Porto Alegre.

Ilustração: New York Public Library

6 thoughts on “O homem do saco

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  • 6 de agosto de 2020 em 02:26
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    Esse “homem do saco” era o famoso Bataclã, catarinense de Blumenau, que vivia há muitos anos em Porto Alegre. Era realmente uma figura folclórica, conhecido em toda a cdade. Certa vez fui na casa do Ivens Godinho, que morava em frente à tua casa do 969, e lá encontrei o Bataclã visitando a família Godinho, que também era de Blumenau. Muito inteligente e de boa conversa, esbanjava simpatia. Embora existisse uma lenda de que ele só se deslocava a pé, encontrei-o algumas vezes dentro do bonde, afinal, ninguém é de ferro! Não resta a dúvida de que o Bataclã tinha um fôlego privilegiado. Uma tarde fui assistir uma partida de futebol no estádio Olímpico e, no intervalo, o Bataclã deu uma volta correndo na pista de atletismo e foi muito aplaudido.

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  • 6 de agosto de 2020 em 02:36
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    Lembro do Bataclã, que também vivia correndo pela cidade. Só que ele não andava com um saco às costas, como o personagem do texto. Vai ver, eram dois os atletas de rua. O do meu relato deveria morar no Partenon, Glória ou Teresópolis, pois só aparecia depois que o bonde passava pela Praça da Azenha, na altura do Cine Castelo. Abs. Nelson

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  • 6 de agosto de 2020 em 04:34
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    O homem do saco era famoso, so que esses detalhes eu nao desconhecia. Meus conhecimentos historicos se alargaram. Batacla tambem era famoso , mas tambem nao sabia muito sobre ele. Nada como frequentar as rodas dos bem informados .
    Abs

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  • 9 de agosto de 2020 em 08:10
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    Obrigada Nelson querido! Além da estória ser ótima, não conhecia, vc tem o dom de escrever e contar estas coisas sensacionalmente! Obrigada
    Quero saber mais!
    Beijos
    Parabéns
    Ithamara

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  • 24 de agosto de 2020 em 21:20
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    Uaaauuu! Muito interessante a história além de divertida! Bjs

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