Heimat

Por Marcos L Susskind

Heimat é uma palavra em alemão, sem tradução a outras línguas. Diz respeito ao seu torrão natal mas é bem mais que pátria. É um lugar real ou imaginário onde a pessoa sente-se segura, onde sente ter raízes profundas, um território que nos dá identidade e que é a fonte das tradições familiares.

Heimat é o título de um livro* escrito por Nora Krug, que ganhei de meu amigo Arnaldo Flaks (a quem volto a agradecer). E gostaria de falar longamente sobre o livro – mas me deterei em alguns aspectos. E o primeiro impacto não vem do título e nem sequer da narrativa. O primeiro impacto vem da forma do livro! Algo que eu nunca tinha visto antes.

O livro é impresso em papel cartão, similar ao papel dos antigos álbuns de fotografia. As páginas são coloridas com cores muito agradáveis e fortes, contrastes muito bem elaborados. As páginas não são numeradas. A narrativa usa às vezes texto contínuo, em outras páginas são curtas histórias em quadrinhos ou texto sobreposto a fotos e documentos familiares, com colagens muito bem feitas.

Merece menção especial a tipologia – as letras são “desenhadas” dando ao leitor uma agradável sensação de ser parte da narrativa. Os desenhos das páginas e a composição gráfica “compram” o leitor, nos faz seguir a narrativa sem piscar, tal como quando ouvíamos as historinhas em nossa tenra infância.

Se o impacto gráfico é imenso, não é menor o impacto da narrativa. O livro é um documentário sobre sua família e suas raízes, sem que nada seja romanceado. São os fatos e as realidades desconhecidas que ela quer e precisa conhecer para poder definir-se e definir também suas origens.

Nora Krug é uma alemã que se mudou para os Estados Unidos. Tanto ela como seus pais são nascidos após a II Guerra e ela nada sabe sobre o que seus avós ou tios fizeram durante a Guerra. Ainda assim, carrega enorme peso e culpa pelo ocorrido. Recém-chegada a Nova York, Nora vai visitar a única pessoa que conhece na cidade. Seu forte sotaque faz com que uma senhora idosa lhe pergunte de onde é. Na curta conversa entre ambas, Nora fica sabendo que esta senhora esteve diversas vezes na porta da câmara de gás, tendo sido salva da morte sem saber por que a sádica oficial nazista a escolhia para sobreviver.

É esta conversa que a leva, doze anos mais tarde, a buscar as respostas sobre quem eram seus avós, seus tios e os demais membros da família que nunca falavam sobre a Guerra ou sobre o que faziam. Eram nazistas? Lutavam no exército? Vilipendiavam os judeus? Ou seriam eles antagonistas do nazismo? O que faziam e como passaram aqueles anos?

Chris Ware, um famoso cartunista norte-americano define o livro assim: “Em um irresistível álbum de desenhos e colagens repleto de acertos de contas com o passado, Nora Krug narra a história da sua família com a franqueza das imagens e da escrita e um desamparo perturbador, que encontra ecos hoje em nossa vida. Heimat é precioso, saboroso e – nem é preciso dizer – altamente recomendado”.

Após ler as primeiras páginas, fui contaminado pela beleza gráfica e pela profundidade do tema, tratado de forma sóbria, sem arroubos de nacionalismo, de crítica ou de autoproteção. Só parei de ler depois de ler até a contracapa.

E mesmo se você não gosta de ler, vá até a livraria e folheie o livro. Acho que depois disto você também vai querer ler, com o mesmo interesse que eu o fiz!

*Heimat, ponderações de uma alemã sobre sua terra e história – por Nora Krug. São Paulo, Quadrinhos na Cia., Editora Schwarcz

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