Balagan (confusão) na anexação

Por David S. Moran

Logo depois do lançamento do Plano do Século, do presidente americano, Donald Trump, o premier israelense, Benjamin Netanyahu queria implementar uma parte muito importante, para deixar o seu “legado”. Era a parte que tratava da anexação de cerca de 30% da área chamada anteriormente de Cisjordânia. A água fria veio do próprio Trump, esclarecendo ao Netanyahu que a anexação deveria ser efetuada em comum acordo com os palestinos e com apoio dos países árabes aliados dos EUA.

Depois das eleições e a formação do novo e frágil governo, em maio deste ano, Netanyahu para conter as críticas da direita e segundo os mais chegados a ele, “deixar o seu legado histórico”, voltou a falar na anexação do Vale do Jordão e de áreas da Judeia e Samária e até indicou a data. Dia primeiro de julho de 2020. Estas declarações provocaram um verdadeiro tsunami de países árabes contra Israel.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, imediatamente anunciou que não mais cooperará com os serviços de segurança israelenses, que lhe serve muito bem. Também não aceitará verbas que Israel coleta para a Autoridade Palestina, se Israel descontar os valores que a AP transfere a terroristas e ou a seus familiares. O veterano negociador palestino, Saeb Erikat, ameaçou que a AP deixaria as chaves para Israel lidar com os 2,5 milhões de palestinos e o Primeiro Ministro palestino, Muhammad Ashtiya ameaçou, na terça passada (9), que a reação palestina à anexação seria declarar a criação de Estado palestino com capital em Jerusalém oriental.

Cartazes em via central:
Trump: “Faça a anexação certo”. Netanyahu: “não ao Estado Palestino”.

Estamos a 12 dias da data prevista e ninguém – talvez só o Netanyahu, que muda de idéia a cada pressão que sofre – sabe se haverá anexação da Judeia e Samária, que inclui o Vale do Rio Jordão, ou se o Estado de Israel vai impor sua soberania (novo termo usado) em certas regiões conquistadas após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Acusado por líderes de assentamentos de enganá-los, Netanyahu não mostra o mapa para ninguém.

Esta semana reuniu-se com o Primeiro Ministro Suplente Beny Gantz, que também é seu Ministro da Defesa, com Gabi Ashkenazi, Ministro do Exterior e com o Embaixador dos EUA em Israel, David Friedman. O embaixador ouviu a recusa dos dois líderes do Kachol Lavan em anexação unilateral. Querem que seja em etapas e sem territórios onde vivem palestinos. No dia seguinte novamente reuniram-se os três primeiros. O embaixador disse que antes de especular, quer que os israelenses se entendam. Nesta reunião foram apresentados quatro mapas, mas Netanyahu não disse qual é o certo.

Charge do Amos Biderman, Há’Aretz, 5/6
Da esquerda a direita: Trump, Abbas, Abdullah II, Netanyahu, Bennett, Smutrich, Kochavi e Gantz.

As pressões

O dualista é o rei Abdullah II, da Jordânia. Seu pai, o rei Hussein já abdicou da Cisjordânia em julho de 1988 e até anulou a cidadania jordaniana dos palestinos desta região. Por receio de que a maioria da população jordaniana, que é palestina, se rebele contra os hashemitas, o rei tem que lhes agradar verbalmente. Sua reação foi de que Israel nem imagina qual será a atitude do seu país se concretizar a anexação. A fronteira de Israel e a Jordânia, país que assinou acordo de paz com Israel, é a mais comprida e é retaguarda estratégica ao Estado Judeu. Funcionário sênior em Amã disse a jornalista do Israel Hayom (18): “as guerra entre os judeus sobre a anexação não nos importam. O interesse palestino é importante, mas o mais importante para nós é o interesse nacional e a segurança da Jordânia… Temos ligação ideologica com a Margem Ocidental (ex Cisjordânia) e não dá para separar, mas, qualquer linha que guardar os palestinos na Margem Ocidental e não ligará geograficamente o futuro estado palestino ao reinado Hashemita, é aceito por nós… estão aptos a aceitar anexação por etapas e do Vale do Jordão mais tarde… Nossa posição a respeito do Vale do Jordão é conhecida. Não aceitaremos a presença de força internacional e evidentemente não de força palestina que se encarregará da segurança da fronteira ocidental do reinado… esta foi a razão da nossa negação ao plano do John Kerry”. (Interpretação minha a esta posição: evidentemente os hashemitas da Jordânia têm muito mais interesse em ter boas ligações com Israel do que com os palestinos. Em 9/1970 os palestinos tentaram tomar o poder na Jordânia, com ajuda da Síria. Israel parou os sírios e o rei Hussein acabou com o atentado, às custas de muito sangue. O alto funcionário diz textualmente que não quer forças armadas palestinas na sua fronteira. Sabe que só pode contar com ajuda israelense, por isso não querem força internacional (tem o exemplo da UNIFIL, estabelecida na fronteira de Israel com o Líbano, em 1978, que não impediu infiltrações do Líbano, resultando em duas guerras e o crescimento e estabelecimento da Hizballah no sul do Líbano).

Emirados Árabes Unidos (EAU). Junto com a Arábia Saudita e outros países árabes mais moderados, estão se aproximando de Israel por motivos de interesses comuns, principalmente anti Irã e pró-americanos. Comenta-se que foi o rei Abdullah II que convenceu o emir dos EAU a se opor a anexação unilateral de Israel. Após aproximação aberta, na sexta passada (12), o Embaixador dos EAU nos EUA Yousef Al Otaiba (amigo do Jared Kushner) fez publicar artigo importante no maior jornal de Israel, Yediot Ahronot, dirigindo-se por cima do governo aos cidadãos israelenses, em hebraico. “Queremos acreditar que Israel é oportunidade e não o inimigo, temos muitos perigos comuns a enfrentar e vemos um potencial enorme para relações quentes. Resolução israelense de anexar a Judeia e Samária seria sinal de que não vemos as coisas do mesmo modo”. O embaixador assinala que Israel é um fato consumado, Estado de progresso que luta com estados árabes contra a influência iraniana e o islão radical na região. Por outro lado, temos que solucionar o problema palestino e subir para o próximo nível, o de ter boas relações e visíveis que serão úteis aos dois lados.

Charge do Roni Gordon, Israel Hayom, 17/6
Netanyahu joga cartas com Gantz. Sabe seus próximos passos

Provavelmente, Al Otaiba expressou também o que pensa o genro do Trump, Jared Kushnir, que se opõe a anexação unilateral. Por outro lado, o embaixador americano em Jerusalém é a favor. Trump até o momento está com Jared. Diante das pressões, inclusive dos dois ex-comandantes das Forças Armadas de Israel, que se tornaram politicos, Gantz e Ashkenazi, do Kachol Lavan, Netanyahu parece que vai adotar a seguinte tática: implementar soberania em duas etapas. Na primeira será em 10% das áreas da Judeia e Samária, onde há assentamentos mais distantes. Logo depois, chamar novamente os palestinos a negociar um acordo com Israel. Na segunda fase, implementar a soberania em 20% a mais do território, que seria o Vale do Jordão, onde há poucos palestinos e os grandes blocos de assentamentos. As vantagens são que a oposição da União Europeia e da Jordânia com os países árabes moderados seriam mais da boca para fora, diante a aceitação palestina, ou se ridiculamente eles adotarem a postura de sempre, dizer NÃO a tudo que lhes foi oferecido e sempre perderem a oportunidade.

Foto: stand4canada (Pixabay)

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