Inverno ou inferno?

Por Nelson Menda

Portland, apesar das baixas temperaturas durante o inverno, até que era um lugar bastante agradável e tranquilo para se viver. Era, porque bastou nos transferirmos para cá e a cidade mudou, para pior, de uma hora para outra. A ponto de estar sendo considerada, atualmente, o polo irradiador da agitação política do país, merecendo, inclusive, ter sido mencionada no primeiro debate entre os candidatos à Presidência dos Estados Unidos.

Trump, que almeja a reeleição, passou a utilizar a expressão Law and Order em sua campanha. Pois Lei e Ordem é tudo o que uma assustada classe média local almeja para uma época em que, além de já estar sendo castigada pela Covid, agregada ao elevado índice de desemprego e à fumaça tóxica dos incêndios florestais, tem de conviver, quase que diariamente, com intermináveis passeatas e quebra-quebras.

Os enfrentamentos têm acontecido em uma área relativamente distante de onde moramos, mas já tivemos o desprazer de ter de passar um dia inteiro fora de casa por causa da ameaça de confrontos públicos na própria rua onde resido, com minha filha, genro e netos. Por sorte desabou um baita temporal na hora marcada para o embate e os brigões decidiram se recolher, apesar de terem sido avistados grupos desfilando, ameaçadores, com porretes às costas.

Felizmente as queimadas no Oregon já foram controladas, mas as florestas do estado contíguo da Califórnia continuam ardendo e a fumaça, que não respeita fronteiras, consegue chegar até aqui. Pelo menos meu genro conseguiu receber um purificador de ar, o eletrodoméstico mais requisitado em toda Costa Oeste, a ponto dos estoques terem zerado nas lojas especializadas. Em um gesto de solidariedade e nobreza, mandou instalar no meu quarto pois, na qualidade de membro mais velho da família, estou no grupo preferencial de risco para doenças pulmonares.

Para piorar a situação, uma verdadeira multidão de desabrigados, vindos sabe-se lá de onde, resolveu se transferir, em massa, para Portland. É impressionante a quantidade de desocupados que estão chegando, todos os dias, à cidade, com suas barracas e tendas, acampando nas ruas, praças, embaixo dos viadutos, nos acostamentos das rodovias e onde mais possam encontrar um espaço disponível. O entorno dessas habitações improvisadas chega a provocar náuseas, pela quantidade de lixo, latas velhas e detritos de toda ordem. Portland sempre teve sua quota de sem teto, geralmente usuários de drogas e pessoas à margem da sociedade.  Mas há algo novo acontecendo, pois é possível perceber que essa atual leva de forasteiros, ao invés dos abrigos toscos dos ocupantes originais, está chegando motorizada com seus utilitários e traillers meio baleados, para usar uma expressão carioca.  Sinal de que, mesmo entre os homeless, como eles são designados por aqui, existem diferentes níveis sociais.

A exemplo da teoria da gangorra, descrita em um texto anterior, uma das consequências dessa repentina invasão de desocupados é a queda no preço dos imóveis.  Uma boa parcela da classe média local já está elaborando planos de se transferir para uma região menos convulsionada e colocando suas propriedades à venda. Até poucos meses, quando algum bom imóvel estivesse sendo anunciado pelas imobiliárias, era preciso chegar cedo para conseguir adquiri-lo, pois a procura superava a oferta. Esse quadro reverteu para uma situação diametralmente oposta em muito pouco tempo.

A rigor, não tenho do que me queixar, pois neste exato momento, como estou procurando um imóvel para residir, vou acabar sendo beneficiado por essa redução nos valores das propriedades. Pelo menos a curto e médio prazo devo continuar em Portland, pois quem conseguiu sobreviver à violência urbana do Rio e à inclemência dos furacões de Miami tira de letra qualquer entrevero de rua. Especialmente se estiver ocorrendo em uma rua distante.

Só que, há alguns dias, em um passeio de carro pelo centro de Portland, que sempre admirei por suas construções elegantes e simpáticos bondinhos, vislumbrei uma série de estabelecimentos tradicionais fechados, com suas fachadas e vitrines cobertas por tapumes de madeira. Uma triste associação entre o resultado da prolongada crise econômica com a total falta de visão de determinadas lideranças políticas. Oxalá a chegada da vacina e a vitória do bom senso acabem prevalecendo tanto sobre a virose quanto a estreiteza das mentes. E que Portland volte a ser aquela metrópole hospitaleira e culta que conheci há alguns anos, quando minha filha caçula a elegeu como o lugar ideal para residir, trabalhar e criar seus filhos.

Foto: Another Believer (Wikimedia Commons). Fumaça no sudeste de Portland, 9/12/2020

2 thoughts on “Inverno ou inferno?

  • 14 de outubro de 2020 em 23:51
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    Democratizaram o infortúnio e concentraram as desavenças. No Brasil a coisa também está complicada… Porém, ainda existe a Terrinha, quem sabe🇵🇹…

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  • 15 de outubro de 2020 em 07:31
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    Oi, Edson, Parece que os números da Covid voltaram a crescer na terrinha. Temos de torcer pela chegada da vacina.

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