Novo governo, bom apetite na chantagem

Por David S. Moran

As eleições em Israel terminaram há quase 50 dias. O Likud se tornou o maior partido com 32 deputados e com suas coligadas obteve maioria de 64 deputados, dos 120 que compõem a Knesset.

Imediatamente, o líder do Likud anunciou que em poucos dias montaria um governo da “direita completa”, com os partidos religiosos e ultra religiosos. Não se entende no que eles são da direita. A maioria não faz serviço militar, o seu poder de trabalho é bem menor do que a dos demais cidadãos e uma boa parte deles se fecha em comunidades próprias. Só se sabe que eles têm bom apetite e tem exigências sem piscar. Quem está com receio e pisca muito é o recém nomeado primeiro ministro, Benjamin Netanyahu.

Cada ministério representa verbas, múltiplas funções aos mais chegados, leis que servem setores da população e não a todos igualmente. Netanyahu parece que foi feito refém dos partidos da coalizão. Ele foi derrotado cinco vezes e na sexta tentativa parece que conseguirá formar novo governo. Porque esta obsessão? Ele gosta do poder e além disso quer se esquivar das três acusações que correm na justiça. Sabe que agora tem imunidade.

Está cercado de criminosos convictos. O líder do partido Shas, Arie Deri, foi condenado e cumpriu pena de prisão. Ultimamente, em nova acusação, chegou a acordo com a promotoria. Renunciou ao Parlamento e se comprometeu a deixar a política e pagar a penalidade imposta, para não ir a cadeia.

Só que não respeitou o acordo. Já no dia seguinte voltou à Knesset como conselheiro do Shas e nas eleições de novembro, correu na frente deste partido. Sendo homem de confiança do Netanyahu, Deri exigiu para si o Ministério do Interior e da Saúde, por dois anos e depois – se o atual governo vigorar, irá fazer rodízio com o Smotrich e será o Ministro da Fazenda e dos Transportes. Como se Ministério fosse um jogo de pingue-pongue. Além disso Smotrich ou alguém que ele nomeará será o encarregado dos Assuntos na Judeia e Samaria, no status de Ministro, dentro do Ministério da Defesa. Deri, será também Vice Primeiro Ministro.

Smotrich, que foi no passado várias vezes detido por atividades da extrema direita e que por pouco não entraria na Knesset, se aproveita do sufoco do Netanyahu e o chantageia para obter mais concessões. Entre outras, disse que quer proibir jogos de futebol no sábado. Seu companheiro de chapa (depois o partido se dividiu em três agremiações) é o Itamar Ben-Gvir. Ele que era discípulo do rav Kahana e considerado militante radical, foi o primeiro a acertar com o Netanyahu. Recebeu o Ministério de Segurança Nacional. A nova versão do ministério da segurança interna, com poderes agregados. Por exemplo, ele quer comandar a polícia, mesmo politicamente. Ele que nem serviu no exército israelense, agora vai mandar na polícia (onde foi detido diversas vezes) e na Judeia e Samaria. Na campanha eleitoral, Netanyahu se recusava a ser fotografado com o Ben-Gvir e no passado disse que jamais seria ministro num governo seu. Mudou.

Mesmo antes de formar o novo governo, foi muito urgente ao Netanyahu escolher e votar no novo líder do Parlamento, interino. O escolhido – talvez a seu contragosto – foi Yariv Levin, confidente de Netanyahu só para que possa passar rapidamente pelo menos três leis, que substituam outras. A Lei Deri, para casherizar o deputado, que não poderia ser ministro, por seus delitos e sem sua nomeação, o novo governo corre perigo. A oposição acusou a “lei Dei” de ser “pessoal que beneficia criminoso em série (três vezes). Isto é blasfêmia”. A lei do Ben-Gvir. Nomeá-lo ministro com poderes extra, torná-lo um super comandante da Polícia. Outra lei é a denominada “Lei Saar”. Este foi dos líderes do Likud. Ousou confrontar o Netanyahu e este lhe mostrou o canto da sala. Ostracismo. Então Gideon Saar fez aprovar uma lei que quatro deputados ou mais podem sair do partido original e formar nova agremiação. Agora, Netanyahu quer fechar esta brecha e não permitir a deserção.

Na realidade, Yariv Levin, do Likud, quer ser o Ministro da Justiça. O planejamento é reformar todo o sistema, a começar pela Suprema Corte. Pela projeção, querem que os juízes sejam eleitos pelos políticos. Para apressar mais sua vontade, Levin quer tirar para aposentadoria, juízes com 65 anos e não com 70 anos. Isto lhe valeria a substituição imediata de quatro juíze, inclusive a presidenta da Suprema Corte, e colocar juízes mais cômodos.

O cúmulo aparece também no bom apetite de deputados, como o Meir Porush, do Yahadut Hatorá, para quem não é suficiente ser o Ministro dos Assuntos de Jerusalém e da Tradição. Ele exige também lidar com o Monte Meron, na Galileia, onde na festa de Lag Baomer, os religiosos e ultraortodoxos fazem uma grande festa. Em abril do ano passado, 45 pessoas morreram pisoteadas e cerca de 150 foram feridas, quando a passagem da multidão era muito estreita. Pelo visto Porush quer limpar os responsáveis, pelo maior tragédia civil de Israel.

Segue pelo novo deputado Avi Maoz, da sigla Noam, que correu conjuntamente pelo partido Hasionut Hadatit (Sionismo Religioso) e que logo após eleger 14 deputados, se separaram nos partidos de Smotrich (7 deputados), Ben Gvir (6) e Maoz (1). Mesmo assim, Netanyahu lhe concedeu ser vice-ministro dentro do ministério do Primeiro-Ministro, encarregado da identidade judaica e responsável pelos assuntos a serem estudados nas escolas. Ele é tido como homofóbico e racista.

O que seria fácil tornou-se muito difícil. Após 30 dias para formar o governo, Netanyahu voltou ao Presidente Herzog e lhe pediu 14 dias de prorrogação. O presidente lhe deu 10 dias. No Likud, há muitas vozes inconformadas pelas concessões que Netanyahu faz aos religiosos e ultraortodoxos e por não tratar com seus colegas de partido da fatia do governo que receberão. Dizem: “Netanyahu vendeu tudo ao partido Sionismo Religioso e Shas e nada deixou ao Likud”. Parece que o governo em formação será o maior do país, com 35 pastas.

O Likud foi um partido liberal, nacionalista e capitalista. Contraste do atual partido que opta mais para o clericalismo. Por incrível que pareça, o seu líder, Benjamin Netanyahu prefere falar aos meios de comunicação em (ótimo) inglês e não hebraico e não concede entrevistas à mídia israelense, só fala à estrangeira. Na quinta-feira (15) falou à Al Arabia da Arábia Saudita, para tranquilizar os árabes de que nada mudará nos territórios ocupados e que ele traçará as normas do governo. Em resposta, o líder da oposição, Yair Lapid, disse que Netanyahu fala de um jeito aos árabes e depois vem e se desculpa perante Smotrich.

A Conselheira Jurídica do Governo, Gali Baharav Miara, também se opõe as novas propostas de politizar o poder judiciário. “Num país democrático não se deve mudar as relações entre o poder político-legislativo e o judiciário. Ficaremos com a democracia só no nome e sem a essência”, completou.

O ex-Ministro da Defesa, Moshe “Bugi” Yaalon, saiu contra o Líder do Shas: “Arie Deri chegou a acerto com a justiça alegando que sua pena seria reduzida e deixaria a política e não a cumpre. Seu comportamento é criminoso”.

Muitos eleitores do Likud estão desapontados e dizem que jamais pensariam em votar no Likud para obter este governo cínico e clerical que o Netanyahu está querendo formar. Para piorar, muitos deputados do Likud também estão descontentes e não têm coragem de dizer o que pensam publicamente. Quem se expressa contra, é logo taxado de esquerdista.

Ainda não se formou o novo governo, mas as exigências dos partidos da coalizão só aumentam. Na madrugada de sexta-feira, já passou na primeira votação a alteração na lei que permitirá a um político que foi condenado na justiça a servir de ministro, mesmo sem passar sete anos.

Foto: Kobi Gideon / Government Press Office, CC BY-SA 3.0 (Wikimedia Commons)