O melhor amigo

Por Nelson Menda

Mari, minha irmã caçula, que é fissurada em álbuns antigos de fotografias, acabou se transformando na colecionadora mor da família. Além dos retratos que foi garimpando, anos a fio, entre tios e primos, sempre fez questão de coletar histórias relacionadas à cada uma das fotos. São imagens e relatos de um passado que, de outra forma, poderiam, pura e simplesmente, desaparecer.

Com o surgimento da fotografia digital que, reconheço, não deixa de ser um baita avanço tecnológico, as fotos em papel já se transformaram em objetos do passado que merecem ser preservados. Em um blog lançado recentemente ela conseguiu reunir fotos e histórias sobre cachorros que, em diferentes épocas, fizeram parte – alguns ainda fazem – da nossa própria trajetória familiar.

Uma dessas fotos, por sinal bastante antiga, exibe a imagem do Zeide e da Boby, como nossos avós maternos eram chamados, com suas três filhas, ou seja, minha mãe e duas de suas irmãs, ainda jovens. O que chama a atenção nessa foto é a presença de um simpático cachorrinho que, para estar incluído nessa imagem, imagino que fosse tratado como um membro da própria família.

Por falar em cachorro, por sinal o tema do presente texto, julgo importante ressaltar que, durante a maior parte da minha infância e adolescência e já na idade adulta, tive como companheiro inseparável um suposto fox terrier branco e preto, o Joly. Suposto porque, apesar do nome francês, deveria ser um autêntico e espertíssimo vira-latas, que marcou de forma indelével sua presença ou, melhor dizendo, sua onipresença na nossa família, aí incluídos primos e tios de ambos os lados, ou seja, tanto sefaradis quanto esquenazis. Se o leitor quiser conhecer a troupe canina que vem fazendo parte da família Menda sugiro acessar a página do álbum da Mari, clicando no link https://mariamoustache.blogspot.com/2016/09/cachorros-ilustres.html que exibe imagens e relatos da maior parte desses extraordinários melhores amigos do homem. Além disso, se também estiver a fim de conhecer as inacreditáveis proezas e estripulias do Joly, um cão com vontades e desejos próprios, aconselho seguir com a leitura deste texto.

O Joly nasceu na Praia da Alegria, bucólico local de veraneio às margens do Guaíba onde meus pais e avós tinham construído, com suas próprias mãos, uma casa para a família curtir os finais de semana e as férias escolares. Sinal inequívoco de que já estavam adaptados ao país onde haviam chegado poucos anos antes. A princípio, meu pai não quis ficar com o cãozinho, porque iria dar muito trabalho, mas a simpatia que o bicho emanava logo enterneceu seu coração e o Joly foi incorporado ao círculo familiar.

Eu deveria estar com cinco ou seis anos e, até então, meu bicho de estimação era uma galinha garnizé branca, batizada de Pombinha, que passava a maior parte do tempo no meu colo. A primeira coisa que o Joly fez, ao chegar a Porto Alegre, quando retornamos da praia, foi demonstrar que, na nossa casa, não haveria lugar para dois animais de estimação. Seria ele ou ela. Nunca se soube o que realmente aconteceu, mas o fato é que a Pombinha, que vivia solta no pátio, apareceu morta. Fiquei muito triste, dei uma bronca no Joly, que deve ter entrado por uma orelha e saído por outra, mas ele já tinha demonstrado que iria ser o único e exclusivo bicho da família.

Poucos dias antes tinha ocorrido uma festa de aniversário e ainda existiam alguns balões, meio murchos, espalhados pela casa. Julgando tratar-se de alguma guloseima, o Joly abocanhou e engoliu um desses balões. Ficamos preocupados, julgando que o bicho poderia morrer e que deveria ser levado, de imediato, a um veterinário. Meus pais decidiram aguardar 24h para decidir o que deveria ser feito, até mesmo porque, naquela época, não existiam muitas clínicas veterinárias particulares, como atualmente. No dia seguinte, o balão apareceu, junto com o cocô do bicho. A partir desse episódio, a cada festa de aniversário era preciso tomar cuidado com o Joly, para que ele não voltasse a abocanhar balões.

Só balões? Claro que não! Ele tinha vontades e idiossincrasias próprias que, com o passar do tempo, foram sendo identificadas a fim de serem tomadas indispensáveis medidas de precaução, para que não voltassem a ocorrer. Uma das maluquices do bicho era o ódio mortal a sapatos masculinos de verniz preto, que estavam em plena moda. Ai de quem ousasse entrar na nossa casa envergando calçados com essas características, pois o Joly, de imediato, cravaria seus aguçados caninos nos pés do infeliz, danificando não só os sapatos como também, algumas vezes, as meias e o próprio pé da vítima. Ele não ligava a mínima para sapatos de outras cores e materiais, pois a implicância era com o verniz preto.

A partir do primeiro incidente, a cada vez que alguma visita anunciasse sua vinda à nossa casa, fazia parte da etiqueta recomendar que não viesse com sapatos de verniz preto. Até que, certo dia, iríamos receber a visita de um senhor francês que tinha escolhido se radicar, sabe-se lá o porquê, em Porto Alegre. Possuía uma barraca na feira livre, onde comercializava roupas femininas e, com sua possante voz de tenor, atraía a clientela entoando, a plenos pulmões, árias de famosas óperas italianas. Minha mãe conheceu-o na feira e fez questão de convidá-lo a vir jantar na nossa casa. Não era a toda hora que iríamos receber um convidado tão ilustre, além do mais, um francês autêntico, que depois viemos a saber, cujo pai havia participado, como partisan, na libertação de Paris. Tinha até uma foto em que seu pai aparecia, em pleno Champs Elisée, sendo condecorado pelo Marechal Degaulle.

Nosso convidado, honrado em ser recebido para um jantar na casa de uma família brasileira, fez questão de comparecer ao regabofe envergando um terno de linho branco tinindo de novo e, mea culpa, mea máxima culpa, calçando um reluzente par de sapatos pretos… de verniz! Mal abrimos a porta e o Joly avançou sobre a presa, cravando seus dentes nos pés do infeliz, que não estava entendendo patavinas sobre o que estava ocorrendo. Até hoje lembro com nitidez das marcas deixadas nos sapatos do pobre que, com o tempo, acabou se tornando nosso amigo e participando de muitas outras festas em diferentes ocasiões. Claro que, obviamente, sem ousar calçar sapatos pretos de verniz na presença do Joly.

5 thoughts on “O melhor amigo

  • 15 de julho de 2020 em 22:02
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    Esse é o meu amigo Nelson Menda e suas incontáveis histórias. Muito bom!

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  • 15 de julho de 2020 em 22:42
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    Nelson, lembro-me do Joly como se fosse hoje. Naquela época morávamos em apartamento, o que significava luz vermelha para pets. Como eu adorava cachorros e era impedido de ter um, como bem disseste no teu texto, os primos também se sentiam meio amigos do Joly, com a grande vantagem de não ter que comprar ração ou limpar suas necessidades. Também, faz pouco tempo que isto aconteceu, por isso é fácil de lembrar: uns 70 anos mais ou menos. Belo texto, bela história.

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  • 15 de julho de 2020 em 23:33
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    E impressionante como a sociedade, tanto a brasileira quanto a norte-americana, evoluiu na aceitação da presença de animais domésticos nos condomínios. Minha mãe precisou entrar na justiça contra um vizinho do Ed. Deminco, em Porto Alegre, há alguns anos, por causa da Laika, uma pequinês que não incomodava ninguém. Acho que foi uma das primeiras vezes que um juiz deu ganho de causa ao dono de um pet em uma questão dessas. Em Miami Beach, até coisa de alguns anos, só se conseguia a permissão dos condomínios se um médico atestasse a necessidade de apoio psicológico para um dos moradores. Foi assim que o Noah, meu neto, obteve a permissão para que a Luna, uma dócil Labradora, pudesse morar com eles. Tudo indica que esse comportamento, felizmente, está mudando.

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  • 16 de julho de 2020 em 02:25
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    Lembro-me do Joly. Era muito dócil e tranquilo. Muitos anos atrás fui a Los Angeles a trabalho e fui visitar um amigo que morava num condomínio de casas. Sua esposa ficou grávida do primeiro filho e quando a “barriguinha” começou a aparecer, recebeu uma carta do administrador dizendo que eles tinham 90 dias para sairem porque naquele condomínio não eram permitidas crianças. Todos moradores foram crianças um dia mas não permitiam que outros fossem crianças! Quanto à cachorros, só eram admidos os “operados”, ou seja, aqueles em que fossem extraídas as cordas vocais. Só tinha cachorro mudo! Fiquei impressionado com a intolerância!
    Parabéns pelo blog. Está muito bom.
    Abraço
    Feliciano

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  • 17 de julho de 2020 em 01:21
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    Oi, Feliciano. Infelizmente ainda existe muita gente preconceituosa em relação aos animais domésticos. Não esqueço que, enquanto na nossa casa da Demétrio Ribeiro, morava o Joly, na sua, na mesmíssima rua e quadra, vc. dispunha de um bem organizado pombal. Quando se mudou para o Rio passou a criar calopcitas, pássaros extremamente inteligentes que chegam a reconhecer seus donos.

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