Os países árabes do Oriente Médio

Por Marcos L Susskind

Nos artigos anteriores abordei o acordo secreto de Sykes-Picot de 1916, os Acordos de San Remo de 1920 e a Comissão Peel, todos precursores da formação nacional dos países do Oriente Médio. Neste artigo abordaremos a formação de alguns dos mencionados países.

 

Síria

Após o fim da I Guerra Mundial, o Reino da Grande Síria foi declarado em março de 1920, tendo como Rei Faiçal Ibn Hussein. O território do reino incluía o que hoje é a Síria, o Líbano, Israel, Faixa de Gaza, a Jordânia e a parte Oeste do Iraque. No mês seguinte os Acordos de San Remo, outorgaram à França a tutela da Síria e aos Ingleses o mandato sobre a atual Jordânia, Israel e Iraque. Os Franceses encontraram imensa resistência à sua tutela exceto entre os Cristãos Maronitas, do atual Líbano. Os árabes se revoltaram e Faiçal acreditava que teria o apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos, o que não se confirmou. Sua guerra contra a França durou apenas quatro meses, quando foi derrotado e expulso da Síria, marcando o fim do Reino da Grande Síria. A França dividiu a área em cinco entidades, autônomas entre si: o Estado de Damasco, o Estado de Alepo, o Grande Líbano, o Estado Alauita e o Estado de Jabal Druze. Os nacionalistas árabes não aceitaram esta divisão e, em 1925, irrompe a Grande Revolta Síria contra os franceses que dura dois sangrentos anos. A revolta se inicia com os drusos de Jabal Druze, que se sentiam oprimidos e desprezados pelas autoridades francesas e rapidamente ganha o apoio das diversas etnias. A França traz 50.000 soldados para a Síria e após dois anos de lutas, sufoca a insurreição. Os líderes fogem para a Transjordânia enquanto a Síria vê muitas de suas cidades destruídas, mais de 100.000 desalojados e quase 7.000 mortos. O Sultão Al Atrash, líder da revolta, volta à Síria apenas em 1937, transformando-se em herói nacional até hoje.

Em 1936, a França concorda com a independência da Síria, desde que ela, França, mantenha o poder militar e econômico do país. O acordo não foi ratificado e a independência não ocorreu. Em 1940, a França cai em domínio nazista e forma o Governo de Vichy, sendo vista como inimiga pelos aliados e pelo Exército da França Livre. Em 1941, a Inglaterra e o exército da França Livre conseguem tomar a Síria e o Líbano. Em Outubro de 1945 a Síria finalmente consegue sua independência. Meses depois, sob pressão inglesa, a França retira seus militares, em 1946. Em 1948, imediatamente após Israel declarar sua independência, a Síria invade Israel. O Presidente da Síria, Shukri al-Quawatli dá ordem a seus soldados para que “destruam os sionistas e evitem o estabelecimento de seu Estado”. A derrota leva ao primeiro golpe de Estado na Síria, em 1949. A partir de então a Síria vai sofrer inúmeros golpes de Estado – três apenas entre Março e Dezembro de 1949, sempre terminando com a execução de líderes depostos. Golpes de Estados frequentes continuam a ocorrer corriqueiramente até 1970, quando Hafez Assad derruba o governo tornando-se o homem forte, bastante sanguinário, que assassinou cerca de 40.000 opositores em Hama. Foi sucedido por seu filho, o atual presidente Bashar El Assad.

A Síria é composta por muitas diferentes etnias: árabes, curdos turcomanos, assírios, armênios e também por diferentes grupos religiosos: drusos, sunitas, alauitas, cristãos, xiitas, salafistas, yazidis. Nem sempre as relações entre estes grupos tão díspares são fáceis e, a partir da chamada Primavera Árabe em 2011, protestos pacíficos se transformaram em revolta popular sunita, que gerou violenta repressão por parte do exército, sob comando alauita. Iniciou-se a guerra civil de característica sectária, que ainda segue. Até março de 2020 contavam-se 586.100 mortos (para a ONU são 415.000). O drama desta revolta síria é incalculável. 5.200.000 refugiados, outros 6.200.000 deslocados internamente ao perderem suas casas. 12.000.000 de subnutridos, cerca de 50% deles crianças com menos de nove anos. Parte destes terríveis confrontos se deve às formações nacionais que não levaram em consideração a difícil colcha de retalhos étnico-religiosa, que durante os 400 anos do Império Otomano foram habilmente administradas pelo sistema de Milhetos*, desmontados pelos aliados ao fim da I Guerra Mundial.

Líbano

É o menor país do Oriente Médio. Sergipe é o menor Estado do Brasil, tem a área igual a Israel. O Líbano tem metade disso! A religião predominante no Líbano era a Cristã Maronita seguida pelos drusos. Em 1920, os franceses receberam o mandato sobre a então Síria e, após expulsarem o Rei Faiçal, dividiram a Síria em cinco estados, um dos quais o Grande Líbano. Nesta nova divisão geográfica passaram a fazer parte do Líbano os muçulmanos tanto sunitas como xiitas. Em 1926, os franceses criaram a República Libanesa sob seus auspícios. Em 1941 o Regime de Vichy apoiando o regime nazista autorizou bases alemãs na Síria e no Iraque – o que levou a Reino Unido e a França Livre a invadir o Líbano. O General Charles de Gaulle, comandante da França Livre, concordou em dar autonomia ao Líbano, que proclamou sua independência em 1943. Os Franceses, no entanto, seguiram no Líbano até 1946. As atuais fronteiras do Líbano coincidem com as do Grande Líbano que o precedeu.

Antes de se retirarem, os Franceses determinaram uma divisão religiosa para a política Libanesa, baseados em censo de 1932: seis cristãos para cada cinco muçulmanos no Parlamento. Além disto, o Presidente obrigatoriamente é sempre cristão, o Primeiro Ministro muçulmano sunita e o Presidente do Parlamento muçulmano xiita.

A divisão de poderes baseada em divisão confessional traz graves problemas. A baixa natalidade dos cristãos frente à alta dos muçulmanos pode ter mudado significativamente o composição nacional e – para evitar conflitos – não há censo no Líbano desde 1932! O sul é predominantemente xiita, a área montanhosa é cristã maronita e os sunitas se concentram na costa.

A situação governamental é caótica, a percepção de corrupção é dominante. A Guerra Civil deflagrada após a chegada dos palestinos (expulsos da Jordânia) durou longos 15 anos de destruição e mortes. Some-se a isso o aparecimento do Hezbollah, movimento terrorista xiita. Este é mais numeroso e mais bem armado que o Exército Nacional, criando um “estado dentro do estado”, com mais força militar e maior poder político que os próprios governantes.

A instabilidade política é a norma com frequentes trocas e assassinatos de altas personalidades.

Jordânia

A área onde hoje está a Jordânia foi palco da Revolta Árabe contra o poder otomano, liderada pelos hachemitas da atual Arábia Saudita. Aliados aos ingleses e franceses, os revoltosos esperavam criar um país que iria desde Alepo (hoje Síria) até Aden, no atual Yemen. Em 1921 Abdullah I, filho do Emir de Meca, Rei de Hedjaz (hoje Arábia Saudita), estabelece o Emirado da Transjordânia, contestado por muitos locais que se revoltaram. Abdullah I, ajudado pelos Britânicos, consegue dominar os revoltosos em 1924 – porém desde 1922 já era reconhecido pelo Mandato Britânico da Palestina como mandatário da Transjordânia. Em 1946 o país se torna independente e recebe o nome de Reino Hachemita da Transjordânia e o Emir é designado Rei.

Os palestinos haviam recusado a partilha da Palestina e, em consequência, em 15/5/1948, dia seguinte à Declaração de Independência de Israel,  juntamente com Egito, Líbano, Arábia Saudita, Iraque e Síria, a Transjordânia ataca Israel. A Guerra de Independência de Israel vai durar até 20/7/1949 quando são assinados os acordos de cessar-fogo. O resultado deu ganhos territoriais substanciais a Israel e à Transjordânia e ainda pelo Egito. O país que seria criado – Palestina – que foi recusado pelos árabes acabou sendo conquistado parcialmente por Israel, majoritariamente pela Transjordânia, que ficou com toda a Margem Ocidental do Jordão e Jerusalém Oriental. Em 04/1950 a Transjordânia anexou o território palestino conquistado e mudou o nome do reino para Jordânia já que passou a ocupar ambas as margens do Rio Jordão. A Faixa de Gaza foi conquistada pelo Egito. Em 1953, durante as orações em El Aksa, Abdullah I foi assassinado ao correrem rumores que ele pretendia assinar a paz com Israel. Foi sucedido por seu neto, Hussein. Em 1956 Hussein, buscando a “arabização” da Jordânia, demitiu todos os altos militares ingleses que serviam na Legião Árabe, o famosos exército criado por Lawrence das Arábias e comandado até 1956 por oficiais Ingleses.

Ao aceitar entrar na Guerra dos Seis Dias, Hussein fez seu grande erro. Toda a região da Cisjordânia, conhecida como Judeia e Samaria, ocupada pela Jordânia desde 1948, caiu em mãos de Israel. A Jordânia volta a ter seu território inicial, mas não retorna seu nome a Transjordânia. Os palestinos, que são a maioria naquele país, passam a reivindicar o território agora em mãos de Israel como seu Estado Nacional.

Em 1994 o Rei Hussein e o Premier Itzchak Rabin concluem um tratado de Paz pondo fim à beligerância entre Israel e Jordânia.

* Milhetos eram os tribunais de direito independentes, que agiam de acordo com a “lei pessoal” sob o qual uma comunidade confessional (um grupo que obedecia às leis da Sharia muçulmana, a lei Canônica cristã ou a Halachá judaica) era autorizada a governar-se sob suas próprias leis. Com isto as comunidades que habitavam o mesmo espaço eram regidas por leis que eles próprios reconheciam e por autoridades religiosas que tinham autonomia para julgar independentemente e ainda impor leis específicas a seus correligionários. Durante o longo período otomano esta formatação mostrou-se eficiente e capaz de evitar os conflitos que hoje permeiam na região.

5 thoughts on “Os países árabes do Oriente Médio

  • 3 de setembro de 2020 em 17:08
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    Grande aula …..parabens

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  • 3 de setembro de 2020 em 20:40
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    Ótimo artigo, claro e compreensivo!
    Parabéns!

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  • 4 de setembro de 2020 em 00:59
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    Obrigado Marcelo, obrigado Alberto

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  • 5 de setembro de 2020 em 23:00
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    Muito bom Marcos, parabens

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  • 8 de setembro de 2020 em 19:21
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    Suas narrativas me enriquecem no conhecimento histórico do oriente médio. Muito bom, agradeço

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