O Acordo Sykes-Picot e suas consequências

Por Marcos L Susskind

Antecedentes

Em 1914 irrompe a 1ª. Guerra Mundial. Anos antes (1882) havia sido firmada a Tríplice Aliança, constituída pela Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Reino da Itália. A Tríplice Aliança determinava que qualquer agressão por dois ou mais países contra um de seus membros traria todos aliados em sua defesa. O crescimento das ambições germânicas causou a aproximação entre potências até então rivais: Reino Unido, França e Império Russo formaram, em 1907, a Tríplice Entente. O objetivo de ambas as alianças era um acordo econômico, político e militar. A expansão da indústria alemã, a questão da Alsácia-Lorena e as divergências econômicas e militares levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Em 1915, a Itália rompe com a Tríplice Aliança, alegando que seus objetivos visavam a defesa mas a Alemanha e o Império Austro-Húngaro foram agressores. A Itália se alia então à Tríplice Entente.

O maior império da época era o Império Otomano, que dominava o Sudeste da Europa, a Europa Central o Oeste da Ásia, todo o Oriente Médio, partes do Leste Europeu, o Cáucaso e o Norte da África. Este império vinha perdendo territórios (como os Balcãs) e resolveu aderir à Tríplice Aliança, ao lado da Alemanha. Por outro lado, a Tríplice Entente começa a avançar em suas conquistas e antevê o colapso do Império Otomano.

O Acordo de Sykes-Picot

França e Inglaterra começam a se preparar para a eventual queda e dissolução do Império Otomano e fazem reuniões secretas em Londres. Os chefes de suas delegações são respectivamente François Marie Georges Picot e Mark Sykes. A Rússia participa da reunião, sem direito a voto, através de Sergey Sazonov. Na reunião final, 1916, são traçadas as fronteiras das esferas de influência da França e do Reino Unido no Oriente Médio. A França ficaria com a parte norte, que inclui a Síria, o Líbano, partes da Turquia. A Rússia ficaria com partes da Armênia e Dardanelos; a Inglaterra com a Palestina, a Transjordânia, o Iraque e o Hejaz (atual Arábia Saudita). A região do Golfo Pérsico seria um Estado Árabe sob administração inglesa enquanto a Síria seria um país Árabe sob administração francesa. Em 1917, ocorre a Revolução Russa e ela sai do Pacto e, num gesto unilateral, publica o até então acordo secreto. A publicação exacerbou de forma violenta o sentimento nacionalista árabe.

As fronteiras do Acordo Sykes-Picot

O acordo é a mais provável causa das guerras, revoluções, traições e alianças, rupturas e ódios que se enraizaram no Oriente Médio. As fronteiras foram traçadas como linhas quase retas, como se fossem desenhadas com uma régua sobre um mapa, arbitrariamente e sem levar em consideração a tremenda colcha de retalhos existente, com as profundas diferenças entre sunitas e xiitas, hashemitas, alauitas, sufistas, wahabitas, jihadis, hutis etc. Não se levou em consideração as alianças intertribais e sequer o fato que além dos árabes, a região tem áreas reivindicadas pelos curdos e pelos judeus. As fronteiras geográficas estabelecidas dividiram “Hamulot” – o equivalente árabe aos clãs da Escócia, Irlanda e Gália – em áreas de influência antagônica e, por outro lado, uniu grupos fortemente antagônicos sob uma mesma autoridade nacional. Os curdos não tiveram direito a uma pátria, sendo divididos entre Iraque, Irã e Turquia. A então Palestina foi dividida: a maior parte – a Transjordânia – coube ao Hashemita Abdallah, irmão de Faiçal enquanto as terras a oeste do Rio Jordão ficaram em mãos Inglesas sem que se definisse quanto da área caberia aos judeus e quanto aos árabes. O atual Líbano, que à época era majoritariamente cristão ficou como parte da Síria sunita.

Sem qualquer tentativa de criar pontes entre os antagônicos, as diferenças foram exacerbadas por lideranças civis e religiosas levando à formação de grandes grupos armados, respondendo a “senhores da guerra” e não às autoridades constituídas. Encurralados neste emaranhado, os cristãos foram alvo de perseguição, pilhagem, assassinatos e expulsões. Regimes mais liberais enfrentaram e seguem enfrentando forças religiosas extremadas.

As atuais fronteiras do Oriente Médio já não seguem exatamente as linhas de Sykes-Picot, mas mesmo os novos traçados fronteiriços guardam profunda relação com aquelas linhas. Não é acaso que todo o Oriente Médio venha sofrendo há muitos anos com as tensões internas – Argélia, Líbia, Egito, Síria, Iraque, Líbano, Djibuti, Catar, Omã, Somália são apenas alguns exemplos. Além das revoltas internas, há também uma complexa relação entre países – a guerra Iraque-Irã, o conflito entre Iêmen e Arábia Saudita, Catar e Arábia Saudita.

Nawzad Hadi Mawlood, governador da província de Erbil no Iraque disse, em 2016: “Centenas de milhares de pessoas foram mortas por causa de Sykes-Picot e de todos os problemas que ela criou. Isso mudou o curso da história – e da natureza”. Ziki Morsa, do Curdistão diz ter sido “um casamento forçado, onde os noivos não foram consultados se querem casar sem se conhecer”. O famigerado ISIS (os arqui-terroristas do Estado Islâmico) tinham como sua meta principal “destruir as fronteiras de Sykes-Picot”.

Os níveis de conflito em toda a região, incluindo a Guerra Civil Libanesa de 1975-1990, a atual Guerra Civil Síria que vêm ocorrendo desde 2011 (sem fim à vista), e até mesmo a Guerra Civil do Iraque entre sunitas e xiitas de 2003-2008, foram sangrentas, de longa duração e aparentemente irreconciliável. O Líbano que parecia ter se acalmado, se tornou reduto de conflitos intermináveis, com uma significativa redução da população cristã e com os serviços sociais e médicos em mãos de aliados do Irã, majoritariamente em mãos dos xiitas.

Após a Declaração Balfour de 1917, o Conselho de Versalhes errou profundamente ao vincular Israel à administração colonial britânica, em vez de torná-la a legítima meta aspirada pelo movimento de libertação nacional judaico.

Para lidar com os conflitos tornou-se necessário que os regimes sejam autoritários, para impor certo controle – mas isto veio a favorecer os grupos étnicos destes líderes. Assim, na Síria a minoria alauita domina a maioria sunita, no Egito os governos enfrentam com mão de ferro a Irmandade Muçulmana, no Iraque os sunitas excluem os xiitas e no Líbano a tentativa de dividir o poder entre cristãos, sunitas e xiitas está destruindo o outrora florescente país.

Em maio de 2016, Lawrence Katzenstein, um respeitado pós-doutor escreveu para o Global Risk Insights um estudo, ao final do qual fez uma proposta que ele próprio qualificou de radical e utópica: restaurar o sistema de milhetos² da administração Otomana. Isso acomodaria os muçulmanos com lealdade à Umma Muçulmana, a comunidade, ao invés de um estado geográfico.

O líder da entidade estatal maior poderia distribuir recursos e coletar impostos através de milhetos religiosos, e não por geografia. Assim, o que sobrou dos condados otomanos e das governanças religiosas atuais poderia ajudar a administrar tal plano. O imenso problema seria encontrar um meio adequado para nomear um líder para servir como uma versão moderna de um sultão respeitado pelo vasto Oriente Médio.

Embora radical, esse plano pareceria mais culturalmente sintonizado com a história da região do que a tentativa de criar nações do tipo ocidental e, então, poderia ser “vendida” como o fim da influência de Sykes-Picot.

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1- Este é o primeiro artigo de uma série. Os artigos têm uma sequência histórica, porém são absolutamente independentes. A leitura de qualquer artigo não exige ter lido qualquer outro da série.

2- Milhetos eram os tribunais de direito independentes, que agiam de acordo com a “lei pessoal” sob o qual uma comunidade confessional (um grupo que obedecia às leis da Sharia muçulmana, a lei Canônica cristã ou a Halachá judaica) era autorizada a governar-se sob suas próprias leis. Com isto as comunidades que habitavam o mesmo espaço eram regidas por leis que eles próprios reconheciam e por autoridades religiosas que tinham autonomia para julgar independentemente e ainda impor leis específicas a seus correligionários. Durante o longo período otomano esta formatação mostrou-se eficiente e capaz de evitar os conflitos que hoje permeiam na região.

Foto: Sir Mark Sykes (E) e François Georges-Picot (D). Domínio público/RFI

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